terça-feira, 9 de novembro de 2010

Xiita aniversariante - Maria Teresa Égler Mantoan


O que é inclusão?

É a nossa capacidade de entender e reconhecer o outro e, assim, ter o privilégio de conviver e compartilhar com pessoas diferentes de nós. A educação inclusiva acolhe todas as pessoas, sem exceção. É para o estudante com deficiência física, para os que têm comprometimento mental, para os superdotados, para todas as minorias e para a criança que é discriminada por qualquer outro motivo. Costumo dizer que estar junto é se aglomerar no cinema, no ônibus e até na sala de aula com pessoas que não conhecemos. Já inclusão é estar com, é interagir com o outro.

Que benefícios a inclusão traz a alunos e professores?

A escola tem que ser o reflexo da vida do lado de fora. O grande ganho, para todos, é viver a experiência da diferença. Se os estudantes não passam por isso na infância, mais tarde terão muita dificuldade de vencer os preconceitos. A inclusão possibilita aos que são discriminados pela deficiência, pela classe social ou pela cor que, por direito, ocupem o seu espaço na sociedade. Se isso não ocorrer, essas pessoas serão sempre dependentes e terão uma vida cidadã pela metade. Você não pode ter um lugar no mundo sem considerar o do outro, valorizando o que ele é e o que ele pode ser. Além disso, para nós, professores, o maior ganho está em garantir a todos o direito à educação.

Como está a inclusão no Brasil hoje?

Estamos caminhando devagar. O maior problema é que as redes de ensino e as escolas não cumprem a lei. A nossa Constituição garante desde 1988 o acesso de todos ao Ensino Fundamental, sendo que alunos com necessidades especiais devem receber atendimento especializado preferencialmente na escola , que não substitui o ensino regular. Há outra questão, um movimento de resistência que tenta impedir a inclusão de caminhar: a força corporativa de instituições especializadas, principalmente em deficiência mental. Muita gente continua acreditando que o melhor é excluir, manter as crianças em escolas especiais, que dão ensino adaptado. Mas já avançamos. Hoje todo mundo sabe que elas têm o direito de ir para a escola regular. Estamos num processo de conscientização.

Maria Teresa Égler Mantoan é professora da faculdade de educação da Unicamp.

Descrição da imagem : foto da Profa Mantoan

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Multidão de preconceitos


"O preconceito e a discriminação são amplamente disseminados dentro da comunidade estudantil, que ao invés de discutir sobre a diversidade opta pela exclusão. A falta de debate e esclarecimento dentro das escolas perpetua a prática discriminatória histórica no Brasil. Uma pesquisa inédita sobre "Preconceito e Discriminação no Ambiente Escolar" mostra que os principais alvos são os negros e as pessoas com deficiência.Das 18,5 mil pessoas entrevistadas (alunos, pais, diretores, professores e funcionários) em 501 escolas públicas de todo o país, 99,3% assumem ter algum tipo de preconceito em relação a pessoas com deficiência (96,5%), etnorracial (94,2%), gênero (93,5%), geração (91%), socioeconômico (87,5%), sobre orientação sexual (87,3%) e territorial (75,95%)."

Essa pesquisa, publicada em 2009 assustou muita gente especialmente os militantes dos movimentos de igualdade (racial, de gênero, de orientação sexual e da deficiência). Todos sabíamos que o preconceito existia, mas poucos tinham idéia de que fosse tão difundido e tão frequente. O índice mais baixo de preconceito (territorial) mostrava que 3 em cada 4 pessoas eram preconceituosas.

Todos que se escandalizavam com a pesquisa declaravam que o preconceito era um horror e que, obviamente, nenhum deles era preconceituoso. Até chegarmos à campanha presidencial...

Durante os últimos dois meses recebi mensagens, links, comentários, críticas, xingamentos, ofensas e piadas de mau gosto a respeito da, agora, presidente eleita, Dilma Rousseff, do presidente Lula e de todos aqueles que por opção partidária ou não, pretendiam votar nela.

Em nenhum momento alguém escreveu a respeito das suas propostas de governo. Ninguém questionou se as políticas públicas seriam melhores ou piores com ela. Aliás, também não recebi nenhuma mensagem defendendo o programa de governo do candidato da oposição.

Recebi dos "democratas" referências a seu passado como guerrilheira, discurso apropriado aos defensores da ditadura militar. Foi como se todos esses tivessem saído dos seus armários ideológicos para mostrar qual é realmente sua orientação política. Recebi dos "brasileiros" reclamações de que ela seria eleita por nordestinos. Como se o nordeste fosse um planeta à parte dentro desse país (na verdade, deve ser mesmo : um lugar exótico para as elites passarem as férias de verão, mas cujos habitantes valem menos que os do sul).

Recebi dos "sociais" acusações de que a candidata seria eleita pelos mais pobres...essa gentinha que começou a comer e ter poder de compra nos últimos 8 anos. Recebi dos "libertários" insinuações sobre a orientação sexual da candidata e ataques ao PNDH-3. Recebi de mães de pessoas com deficiência piadinhas a respeito da falta de um dedo do presidente (quando questionei se elas achariam engraçadas piadas sobre os seus filhos, se enfureceram comigo).

Recebi dos "inclusivos" mensagens alegando que, naquele momento (da campanha) não era a hora de discutir essa política pública, o importante era derrotar a "inimiga". Claro, se a oposição ganhasse, depois iriam resmungar que não tinham escolas para os seus filhos.

Claro, eu não poderia ser poupado disso tudo. Quando resolvi, no segundo turno, apoiar a candidatura petista, por entender que a outra alternativa representaria um brutal retrocesso em todos os ganhos que tivemos, também passei a ser ofendido pessoalmente. Até mesmo pessoas que eu tinha em alta consideração demonstraram seu lado "brucutú". Questionaram minha inteligência (claro, só é inteligente quem pensa como eles), mandaram eu me f**** (imagino que é o que fariam com o país se tivessem sido eleitos) e ridicularizaram valores que me são caros.

O que isso tudo tem a ver com a questão do preconceito na escola?

O resultado da pesquisa apenas reflete a educação e o exemplo que as crianças estão recebendo em casa. Pais preconceituosos formam filhos preconceituosos. Educadores preconceituosos transmitem essa formação a seus alunos. É um círculo vicioso que eu não consigo enxergar como pode ser quebrado.

Não acredito que o discurso da igualdade seja suficiente uma vez que ele não é acompanhado na prática. Não acredito nos que querem justiça e inclusão social, desde que seja só para seus próprios umbigos.

Sinceramente não sei qual é o caminho, se é que existe um. Como continuo acreditando em utopias, vou em frente tentando.