quarta-feira, 25 de novembro de 2015

Arte é coisa séria


MANIFESTO DOS ARTE/EDUCADORES DA FAEB/SP

Em que momento a memória e a trajetória dos arte/educadores deste país deixou de ser importante para a formulação do currículo nacional? 

A PROPOSTA de Base Nacional Curricular Comum (BNCC) rompe com o pensamento da arte/educação em curso e procura estabelecer um diálogo com sujeitos inexistentes, sem o reconhecimento das camadas de histórias.

O documento parte do trabalho com os sujeitos da educação como se esses fossem tábulas rasas. Face a estas evidências, de início propomos o diálogo! Diálogo para dizer claramente NÃO a ideia de subcomponentes, como se a vida e a Arte fossem peças distintas de um mosaico em que cada um ocupa o seu lugar, sem integrar-se entre si e com as diferentes formas de conhecer o mundo. 

Não há a possibilidade de aprendizagem em partes, em caixas, em segmentos, em subcomponentes e/ou em submissão. Retomemos as experiências com a Arte no interior da escola (e para além dela) em sua inteireza, não através dela, não a serviço de um saber que não passa pela construção simbólica, poética e estética do universo em que vivemos. Os milhões de estudantes deste país se relacionarão com o teatro, com a música, com as artes visuais e com a dança construindo permanentemente outras maneiras de conhecer a vida. Arte é dimensão da vida. 

Não fosse um problema léxico, a Base Nacional Curricular Comum apresenta um descompasso com o pensamento da arte/educação contemporânea. Na tentativa de garantir as experiências mínimas que cada criança, adolescente e jovem deverão ter em sua formação escolar, a BNCC aponta para um lugar técnico da aprendizagem da arte, pouco essencial, com justificativas frágeis e que, em última instância, sugere que esta experiência não é essencial ao currículo do ensino fundamental e médio. Na debilidade da argumentação da BNCC o ensino de Arte deste país voltaria a ter o status de atividade.

Desejamos nos lançar a um documento que avance na compreensão da integralidade do ensino da Arte na vida escolar de todos os sujeitos deste país. Desejamos um documento que efetive a obrigatoriedade do ensino de Arte e firme os pressupostos para que as linguagens da Arte se concretizem no cotidiano das escolas deste país de muitas culturas em diálogo. 

Se o 26º artigo da LDB já firmou as bases para o ensino de Arte e sua relação com a cultura, é hora de descolonizarmos esta experiência, para além das representações do universo masculino, branco e europeu! Que as experiências com a Arte dos povos da floresta, com as muitas dimensões da cultura afro-brasileira, com a produção artística dos sujeitos que não estão a serviço da indústria cultural e o universo da diversidade sexual se materialize nas experiências do ensino de Arte na multiplicidade das escolas deste território nacional. Que o corpo esteja presente nesta ação de aprender/viver Arte! É em movimento afirmativo que definiremos, conjuntamente as experiências comuns na arte/educação.

A respeito dos objetivos dedicados a cada linguagem da Arte na BNCC, estes apresentam-se em uma forma linear de conhecer o mundo, com a organização de ações que trazem a concepção de que as crianças não produzem Arte e que não são passíveis de estabelecerem críticas a partir destas experiências. Ao compararmos os objetivos do 1º ao 5º ano, os objetivos do 6º ao 9º ano e os objetivos do 1º, 2º e 3º ano do ensino médio, fica evidente a desconsideração das possibilidades das culturas infantis, em contrassenso com o que é anunciado no início do documento. Assume-se a função de preparar para um vir a ser, sem considerar as dimensões da aprendizagem das crianças e adolescentes. A relação com a Arte não será no tempo futuro, ela já é Arte no presente, na relação cotidiana e nas experiências que atravessam as formas de dizer sobre o mundo dos estudantes!

Queremos fazer parte da decisão sobre os objetivos do ensino da Arte, assim como os direitos de aprendizagem da Arte. No entanto, não podemos partir deste documento apresentado! É preciso uma reformulação por inteiro. Para isso precisamos nos articular com uma velocidade possível através das muitas formas de comunicação que temos a disposição, assim como as discussões de nosso XXVª Congresso da Federação de Arte/educadores do Brasil (CONFAEB) em Fortaleza. 

Vamos juntos firmar as artes visuais, a dança, a música e o teatro como conhecimento no cotidiano das crianças, jovens e adultos presentes nas escolas deste país. Trabalharemos para uma política educacional que amplie os horizontes. Vamos dizer não a ideia de subcomponentes. 
Faremos isto juntos!

Arte/educadores da FAEB/SP

FAEB - Federação dos Arte Educadores do Brasil

Descrição da imagem: texto em inglês em várias cores dizendo " Arte é educação. Todas as crianças, todas as escolas, todos os dias

Nenhum comentário: