quarta-feira, 1 de dezembro de 2021

Por um mundo menos humano



Algumas manchetes dessa semana, extraídas de jornais tradicionais (e não de tabloides sensacionalistas):

 Ambientalistas denunciam recompensa a quem matar tubarões em Ubatuba

Jovem denuncia estupro dentro de camarote de rodeio em SP

Mulher descongela geladeira e encontra corpo de bebê escondido

 Explosão em Munique deixa feridos

 Atentado em escola de 2º grau em Michigan deixa 4 mortos e 8 feridos

Não sei exatamente em que universo você vive, nem qual é a sua relação com a realidade, mas eu vivo em um universo e em uma realidade em que as pessoas vivem pedindo atitudes mais humanas.

Querem relacionamentos mais humanos, gestões humanizadas, atendimento humano e, pasmem, alguns até esperam que os robôs possam ser mais humanos.

Como se o ser humano fosse um ideal de perfeição ou humanizar algo fosse o nirvana a ser alcançado por uma espécie que nesses últimos 10 mil anos demonstrou ser um retumbante desastre (ainda que, como diz o mestre Mariotti, possa ter tido surtos intermitentes de lucidez).

Humanidade que, desde as suas origens mitológicas, teológicas ou históricas se pautou pela violência, pelo homicídio, pelas guerras, pela destruição do seu entorno.

Animais que evoluíram, dizem alguns. Se isso é evolução, teria sido melhor se não tivéssemos ultrapassado a fase dos aminoácidos (tudo bem, eu concordo, vários outros seres vivos ultrapassaram essa fase sem terem se tornado o que somos, alguns são até bichos bem simpáticos).

Humanos que somos arrogantes, vaidosos, egoístas, manipuladores, agressivos, interesseiros...e o restante da lista eu deixo por conta da sua imaginação.

As chamadas virtudes morais, éticas, teologais ou filosóficas não passam daquilo que os falantes da língua inglesa chamam de wishful thinking, um pensamento desejável, mas ilusório, como se a humanidade fosse uma legião de anjinhos carinhosos.

Não conheço outros seres vivos que agridam ou matem seus semelhantes por prazer. Nem que destruam seu habitat.

Portanto, na próxima vez que for defender mudanças, refira-se a elas como um mundo menos desigual, uma liderança mais respeitosa, uma gestão menos exploradora. Mas não como algo mais “humano”.

De humanista já basta a estupidez.


Descrição de imagem: crianças fugindo da guerra em uma paisagem de seca

quinta-feira, 26 de agosto de 2021

O menino que até aprenderia a ler

 


Dezembro de 1998. Nascia o nosso primeiro filho, o Samuel. Logo de cara dois sustos: a síndrome de Down e uma cardiopatia que precisava ser corrigida por cirurgia. É óbvio que ficamos sem chão. Além de pais de primeira viagem, não sabíamos nada a respeito de nenhuma das duas situações. Fomos aprender.

Lembro de duas frases que me marcaram. Uma do geneticista do hospital que disse que eu não deveria entrar em pânico, pois “essas crianças” até aprendem a ler. A outra de um pai de um menino de 9 anos que disse que o Samuel seria aquilo que nós investíssemos nele, e fez questão de ressaltar que não era dinheiro, mas estimulação, atenção e nossa crença de que ele não tinha limites.

O tempo, os contatos e algumas visitas a escolas especiais nos aproximaram da educação inclusiva. Não era uma opção, era o único caminho viável. E mergulhamos sem medo naquilo que ainda era mais uma luta do que uma realidade.

E assim se passaram 22 anos, e o menino que “até iria aprender a ler” hoje se graduou em Pedagogia, para ensinar outras crianças também a ler e escrever.

Não foi superação, não foi heroísmo, não foi milagre.

Foi a convicção de que as pessoas só se desenvolvem no relacionamento com pessoas de todos os tipos.

Foi a cabeça-dura do pai que nunca deixou ele participar de atividades segregadas.

Foi a recusa em lhe dar privilégios e tratamento diferentes do que se daria a qualquer outro filho.

Ele teve algum privilégio? Certamente, e ele sabe disso. Privilégio de nascer em uma casa em que a educação era objetivo essencial. Privilégio de ter uma irmã que nunca deu moleza. Privilégio de contar com excelentes professores no caminho. Privilégio de concluir um curso superior que ainda é apenas um sonho para muitos brasileiros. E até o privilégio de ter enfrentado o preconceito da primeira faculdade onde entrou e aprender muito com isso.

Não vou me arriscar a listar todas as pessoas que contribuíram na construção desse caminho, seria um risco deixar muitos de fora (mas cada um deles sabem quem são), mas apenas mencionar duas pessoas cujos ensinamentos foram essenciais nesse processo: o Prof. Miguel Lopez Melero da Universidade de Málaga, e a Profa. Maria Teresa Mantoan da Unicamp, a quem eu chamo carinhosamente de meu guru e a minha gurua.

Agora começamos uma nova fase, a da busca de trabalho. As regras do jogo, porém, não vão mudar. Todos com todos. Sem segregação. Sem tratamento “especial”, e a expectativa de algum dia não precisar mais falar sobre inclusão.

Descrição da imagem: Samuel, um jovem magro e barbudo, vestido com a beca e o capelo de formando.


segunda-feira, 10 de maio de 2021

Só querer não é poder

 


Muitos dizem que a realidade é volátil, incerta, complexa e ambígua, e é verdade. Outros preferem dizer que é frágil, ansiosa, não linear e incompreensível, e também é verdade. Bradam que a modernidade é líquida (e é), que os sistemas são complexos (e são). Eu costumo dizer que a natureza humana é móvel, insaciável, confusa e obtusa (mundo MICO, aquele que ninguém quer segurar).

Em 1513 Maquiavel já percebera que a “virtú” é poderosa, mas está sempre condicionada à vontade da “fortuna”. Kahneman, no seu “Rápido e Devagar” deixa claro que o sucesso está mais frequentemente ligado à sorte (acaso) do que ao mérito.

Por que então algumas pessoas ainda insistem no mito do “querer é poder”?

Será que o fato de eu ainda não ter conseguido muitas coisas se deve simplesmente à hipótese de que eu não tenha querido o suficiente? Existe um querômetro capaz de medir a intensidade do querer? Qual é a maneira correta de querer algo? Se eu participei de uma corrida de 100 m rasos e cheguei em segundo lugar isso se deve ao fato que o vencedor queria mais que eu?

Indutores do mito

Alguns relacionam o conceito do “querer é poder” com a supervalorização do talento em oposição ao esforço. Admiramos mais os talentos precoces do que aqueles que chegam ao mesmo ponto depois de anos de estudo. O aluno que, num acaso da “fortuna” tira uma nota alta, em oposição aquele que sempre ia mal e começou a melhorar suas notas com o tempo.

Mas não podemos simplesmente virar a chave de um lado para o outro, com o risco de cairmos na da meritocracia, a ideia de que somos recompensados apenas pelo esforço. Não partimos todos do mesmo ponto.

Se, como eu, você nasceu numa família de classe média, foi educado em boas escolas e teve acesso aos bens culturais, você não pode comparar o quanto alcançou a quem não teve nada disso. Não foi por querer mais que a outra pessoa que você alcançou muitas das suas metas. Foi apenas circunstância. 

Também não vale apelar para o discurso da superação baseado em histórias comoventes, mas totalmente isoladas da realidade. O rapaz negro que vendia picolé e se tornou o primeiro brasileiro negro a ser aprovado no MBA do MIT é a exceção da exceção da exceção.

Basta lembrar que São Gonçalo fica a menos de 30 km de Jacarezinho.

Em suma

Não pretendo aqui desmerecer os méritos ou o esforço de ninguém - a César o que é de César – apenas lembrar que não são frases de efeito que vão resolver nossos problemas. Algumas coisas não vamos alcançar nunca.

Com dedicação muitos conseguem algo, outros conseguem mais que os outros com menos dedicação.

Acusar as pessoas que não foram bem sucedidas de falta de vontade é um modelo cruel que não respeita as diferenças. Louvar como bem sucedidas aquelas a quem a vida deu mais oportunidades para isso é ainda mais cruel para as que não tiveram a mesma “fortuna”.

Descrição da imagem: Hércules apontando uma flecha tentando combater a Aporia, o espírito da dificuldade.

terça-feira, 16 de março de 2021

Xiita convidada: “Aceitamos candidatura de pessoas com deficiência.”


Texto de Letícia Ribeiro*

“Aceitamos candidatura de pessoas com deficiência.”

Querido recrutador, parabéns por fazer o mínimo. 

Era uma segunda-feira como todas as outras e eu estava no linkedin ajudando uma amiga a encontrar uma boa vaga de emprego. Entra em vaga, sai de vaga, entra em outra, sai de mais uma, até que eu me deparo com uma vaga legal, em uma empresa legal. 

Comecei a ler o descritivo. 

E o descritivo ia perfeito, encantando em cada frase, em cada argumento, em cada explicação. Objetivos bem definidos, requisitos claros, aquele tipo de texto que dá até alegria de olhar, até que… 

“Aceitamos candidatura de pessoas com deficiência.” 

Ué, mas por que não aceitariam?

Uma vaga de estágio, em redes sociais, trabalho remoto, dentro de casa, com um computador - e que, por experiência própria, significa passar 80% do seu tempo sozinho, logado na internet -, que impedimento teria para uma pessoa com deficiência?

Para os com deficiência física, o trabalho não requer nenhuma locomoção. Para os cegos, computadores são bem adaptados. Para os surdos, mudos, comunicação por texto, no google meets, no whatsapp, no slack, nos e-mails, nas legendas de redes sociais, nas dms. E para os com deficiência intelectual talvez um pouco mais de tempo de adaptação. 

Parabéns por fazerem o mínimo, e aceitar candidaturas de pessoas tão capazes quanto quaisquer outras. 

Crescendo com uma pessoa ‘com deficiência’ eu aprendi que inclusão não está em criar oportunidades separadas e especiais para pessoas com condições diferentes às chamadas ‘normais’. Inclusão é criar um ambiente onde todos sejam aceitos, respeitados - contratados - de forma igual, respeitando suas diferenças, dificuldades, tempos e processos. 

Espero que, quando contratarem meu irmão, contratem ele pela vaga que ele tem que ser contratado: professor. Não ‘professor com deficiência’. Não ‘professor especial’.

A vaga podia ser atraente, mas o entendimento sobre inclusão da empresa não era. E eu, uma pessoa ‘normal’, posso dizer que não me senti atraída pela vaga depois disso. - e, não, também não mandei para a minha amiga, que precisa de um estágio na àrea de direito. 


*Letícia Ribeiro é estudante de produção editorial e estagiária em mídias socias na Mercado Bitcoin


Descrição de imagem: ilustração de uma mesa com crianças de diversas características.

 

domingo, 17 de janeiro de 2021

Pafúncio* , o preconceituoso

Pafúncio, o personagem dos quadrinhos, um homem branco de meia idade, vestido de terno e fumando um charuto

 

Pafúncio é o nome fictício para o ser real que vou descrever aqui. Como é uma pessoa conhecida e renomada e o meu objetivo aqui é didático e não de “lacrar” ninguém, vou mantê-lo anônimo.

Pafúncio é uma pessoa que eu respeito muito, ou melhor, respeitava até sábado passado. Músico brilhante e de carreira importante, professor muito querido pelos seus alunos e defensor da arte e da cultura.

Eu o acompanhava em seus canais digitais e sempre aprendia muito com ele. Eventualmente comentava algo e ele sempre teve a educação de responder.

Também é uma pessoa de posições políticas fortes e com as quais eu, na maioria das vezes, concordava.

No sábado passado ele estava muito furioso com algumas dessas questões políticas e publicou dois posts em seguida:

(descrição da imagem - reprodução de um post que diz: "O mito falando para Jovem Pan, hoje, Será possível que tenha ainda um bando de cegos que o apoiam?"

(descrição da imagem - reprodução de um post que diz: "...E o pior que ainda tento falar com os cegos...que idiota que sou.)

Claro que como ogro inclusivo eu não poderia deixar isso passar batido. Mandei para ele uma mensagem educada explicando por que não se deve usar a deficiência como um adjetivo. É da minha índole sempre tentar explicar as coisas para as pessoas e não atacar com os dois pés no peito.

Para detalhar melhor, enviei o link de um artigo que escrevi junto com o saudoso MAQ em 2008 (se quiser ler o original clique aqui) chamado “Deficiência não é adjetivo”.

Apesar da resposta dele também ser educada, foi absurda demais para que eu a levasse a sério. Segundo ele, o uso de “cego” “era apenas uma metáfora, um uso quase poético e que evitar esse tipo de palavra nesse contexto empobrecia a língua.”

“Bando” de cegos é poético? Será que é um acaso a palavra bandido ter a mesma origem? É uma idiotice metafórica falar com cegos? Não me parece que a cegueira foi colocada de forma, no mínimo, neutra. Foi pejorativa mesmo.

Fico imaginando se ele usaria da mesma forma metafórica e poética, termos que denotassem preconceito de cor, raça, nacionalidade, gênero ou orientação sexual.

Claro que não! Mas em relação às pessoas com deficiência não é preconceito ou desprezo, é metáfora, é riqueza da língua.

Respondi que nossa língua, que talvez ele não conheça suficientemente bem por ser estrangeiro, é rica o suficiente para não precisar ser inconveniente. E me desconectei desse ser que se tornou abjeto para mim.

O que fazer?

Durante a minha caminhada no universo das pessoas com deficiência eu dei várias mancadas. Um mundo que me era completamente estranho até ser envolvido por ele.

A coisa mais importante que eu aprendi foi que sempre devemos ensinar as pessoas antes de criticá-las. Continuo agindo dessa forma, como aconteceu nesse caso.

Tive excelentes professores. Pessoas cegas, surdas, com deficiência física, com deficiência intelectual, com autismo. Aprendi com o Paulo, com o MAQ, com a Naira, com a Anahi, com a Tchela, com o Gregor, com a Leandra, com o Francisco, com a Flávia, com a Jéssica, com a Izabel. Recentemente ganhei novas professoras a Marcela Jahjah e a Daniele Avelino. A lista seria imensa se citasse todos.

Se acontecer algo parecido com você, não seja um Pafúncio, autossuficiente e arrogante:

1.    Entenda que quem chama a atenção não é seu inimigo, mas alguém que quer te ajudar e evitar mancadas

2.    Reconheça a mancada. Pode acontecer com qualquer um

3.    Se fez isso por escrito, edite o que escreveu

4.    Procure não repetir o erro

5.    Eduque outras pessoas.

Quanto ao Pafúncio, provavelmente continuará sendo um excelente profissional no que faz e continuará com muitos contatos e seguidores (certamente eu não vou fazer falta). Como ser humano tornou-se irrelevante para mim.

*Pafúncio é um personagem de quadrinhos criado por George McManus em 1913, o nome original das tiras era Bringing up father e, no Brasil, Pafúncio & Marocas


quarta-feira, 17 de junho de 2020

Tráfico de ilusões




We are the hollow men 
We are the stuffed men 
(T.S. Eliot) 



Todo mundo quer ser diferente ou, pelo menos, todo mundo que parecer diferente do resto do mundo.

Não somente se diferenciar, mas conseguir colocar-se como alguém de destaque no seu contexto social em função dessa diferenciação.

Essa é uma questão que faz parte da essência e da natureza humana e não é nenhum pecado mortal pensar assim. Somos parte de um todo enquanto sociedade e, ao mesmo tempo, cada um de nós é um indivíduo peculiar.

Segundo Norbert Elias “esse ideal faz parte de uma estrutura de personalidade...e essa forma de ideal de ego e alto grau de individualização são partes integrantes do seu ser, uma parte de que não podem livrar-se, quer aprovem ou não.”[1]

Traços de personalidade podem trazer egos de diversas potencias e graus de individualização também, mas os dois traços são controláveis e educáveis de forma crescente a depender do nível de consciência e de práticas específicas de longo prazo. Por isso nas educações familiares podemos ter pessoas mais ou menos competitivas a depender do tipo de educação que tiveram em casa.[2]

O que não significa que todos vão conseguir se destacar por algum desses diferenciais. Contexto, formação e oportunidades para tanto não estão disponíveis para os 8 bilhões de habitantes do planeta.

Diferentemente das expectativas individuais, só uma pequena minoria vai conseguir atingir uma posição de destaque, seja ele intelectual, econômico-financeiro ou profissional.

Vários estudos convergem para uma distribuição de população mundial onde somente até 5 % são pessoas com perfil para provocar mudanças e liderar mudanças. Outros 20 + % estão prontos para seguir as mudanças, na outra ponta somente 5% são pessoas não afeitas a mudanças e não mudam mesmo com estímulos e outros 5% são contra , tipo pau na roda , e a diferença muda com a tempo pela influência dos 25 + primeiros , os puxadores e seguidores.[3]

A questão gira em torno de ter a chance de atingir tal posição. Não se trata apenas de querer, nem poder, mas de atrapalhar alguns a chegarem lá. Não dá para negar que uma grande parte da população tem tudo contra ela. Partem do -10, enquanto outros partem do zero.[4]

Esse é um conflito real existente em toda e qualquer sociedade. O desejo de ser em disputa com a impossibilidade de ser. É um dos trágicos elementos fundamentais da vida com os quais o ser humano precisa aprender a lidar: perda, tristeza, dor, já explicava Freud.

Quanto mais rica uma sociedade, mais presente é essa busca competitiva por uma posição de destaque, e mais feroz a competição para alcançá-la.

De qualquer forma, desenvolvimento é diferente de crescimento econômico. Nas nações mais desenvolvidas, o apetite existe, mas é menos exacerbado, justamente pelo fato dos cidadãos terem um bom colchão social, justiça, bons serviços públicos e pouca disparidade salarial. É justamente nos menos desenvolvidos (sejam economias grandes ou não), isso é muito mais feroz pois, mais que status, esse destaque é necessário para não sofrer com as agruras dos "normais”.[5]

Nesse percurso pululam as histórias de sucesso de todos os tipos, como se os exemplos dos bem sucedidos servissem como a poção mágica de Panoramix[6] dando poder e força a todos que a bebessem.

A falsa ilusão de que todos podem tudo. A deslavada mentira que apregoa que os que não alcançaram o Olimpo do sucesso, são derrotados por falta de vontade ou de positividade.

Aqui começa a epidemia de frustrações que abrange pelo menos 50% da população das pessoas que trabalham. Frustração gera o estresse e esse, se forte e durável, só joga contra quem já não chegou onde queria chegar.[7]

Como vimos acima, a vontade é inerente a todos, então o problema do insucesso passa a ser essa visão cética, pessimista, derrotista que permeia os que não atingiram suas metas.

A força que leva ao vício

Eu tenho a força, bradaria o He-Man[8]. A força esteja com você, desejavam os personagens de Star Wars[9].

Desde que Norman Vincent Peale lançou o seu “Poder do pensamento positivo” na década de 1950, esse tem sido o mantra de muitos motivadores de pessoas. Querer é poder, basta ter uma atitude positiva em relação a seus desafios.

Os pseudo humanistas da auto ajuda (não confundir com os humanistas do Renascimento), que defendem a ideia de que o ser humano é o seu próprio deus, prometem poderes ilimitados a quem seguir suas recomendações.

Os humanos que não encontram nenhum outro caminho para atingir seu sonho de destaque diferenciado o que, como vimos, não são poucos, acabam enredados nessa trama.

Experimentam um, não funciona. Tentam outro mais potente, não funciona. A cada dia buscam uma vertente mais forte, até estarem irremediavelmente dependentes desse tipo de doping.

A positividade tóxica

Em “A sociedade do cansaço”, o filósofo Byng-Chul Han descreve uma sociedade que está sendo intoxicada pelo excesso de positividade.[10]

É um livro curto, denso, cruel e, em não poucos momentos, chocante.

Muito chocante, eu diria, não pela linguagem ou pelas imagens que evoca, mas pelo fato de que, à medida que o lemos, vamos associando sua descrição com a realidade cotidiana que vemos, especialmente, mas não somente, na redes sociais.

Todo o enredo aplicado em meritocracias mal formuladas, o modelo de gestão de pessoas nas empresas e tudo o mais veio antes das redes . Mas estas sem dúvida alavancam frustrações adicionais e aceleram os efeitos perversos das narrativas alucinantes e ilusórias.[11]

Humanos que perdem todas as suas defesas imunológicas em relação ao negativo e, assim como vírus e bactérias, coisas negativas estão à nossa volta o tempo todo, prontas para atacar os mais vulneráveis.

Pessoas que insistem em mostrar o tempo todo que tudo está bem. Criação contínua de personas[12] que necessitam desesperadamente fingir que, como são positivas, nunca sofrem derrotas.

Sem anticorpos para o negativo isso acaba afetando a saúde mental dessas pessoas. Até porque, saúde mental não é viver em um estado positivo permanente, mas saber lidar com o outro lado da força.

A metáfora é ingênua e simplista, no entanto, é válida. Uma pilha comum não vai transmitir energia se não estiver conectada, simultaneamente, nos seus polos positivo e negativo.

É uma questão dialética, assim como o conflito entre a vontade de individualização e suas forças contrárias, o que constrói o sistema de defesa da saúde mental é o conflito positivo-negativo. Sem esse sistema, não existem barreiras de proteção.

A positividade excessiva é tóxica pois destrói (ou deixa de construir) esse sistema de defesa, abrindo as portas para todo tipo enfermidades mentais e emocionais: depressão, déficit de atenção, Burnout, pânico.

Han mostra como o excesso de desempenho, para sustentar a persona é intoxicado pelo excesso de positividade, conduzindo para um infarto da alma, “a perda da energia essencial que permeia corpo, mente e espírito de tal forma que é condição de uma morte do ser humano essencial por falta de irrigação de energia.”[13]

Positivo com positivo só dá positivo na matemática. Na vida real “quem vive do igual, também perece pelo igual”.[14]

Estamos construindo, seguindo esse percurso, a tal da sociedade do cansaço que vai acabar desaguando na sociedade do esgotamento completo.

Existe cura?

“...o que nos humaniza é o fracasso, homens e mulheres muito felizes não são homens e mulheres.”[15]


Já nos primeiros textos existencialistas, constatamos que somos seres em um mundo cheio de possibilidades, sem que algo anterior (uma essência) nos defina e, uma vez que a nossa vinda à existência acontece antes de construirmos a nossa essência, caímos num vácuo de significado.

Nós somos jogados em um mundo inundado de escolhas para sermos o que quisermos, mas em meio a essa infinidade de caminhos nos perdemos na angústia de não saber qual trilhar.[16]

O risco de tentar fugir dessa angústia através de mecanismos de escape – e, nesse aspecto, a positividade tóxica nada mais é que uma tentativa de fuga – não funciona.

Não funciona porque, inevitavelmente, a positividade tóxica (ou qualquer outro mecanismo de escape) vai fracassar e, ao voltarmos ao ponto de partida, a angústia se transforma em desespero, e conduz às doenças psicológicas mencionadas.

Não pretendo aqui defender as teorias conformistas que defendem a total falta de ação diante de um mundo hostil.

Entendo que o único caminho para a cura ou, pelo menos, a reconstrução de um sistema imunológico mental, é o desenvolvimento (ou recuperação) da capacidade de lidar com o lado negativo da vida e, no confronto dialético com o positivo, atingir um equilíbrio mentalmente saudável.

Recuperação sem ajuda é muito difícil. Estamos falando de um processo que pode e deve levar anos de esforço permanentes pois precisa de novos caminhos sinápticos, novos hábitos que transformem comportamentos e modelo mental de pensamento. Por isso o esforço solitário é quase um fracasso garantido , o sucesso será para minorias privilegiadas no cérebro que inclui a flexibilidade , adaptabilidade ,controle emocional ,empatia consigo mesmo, ou seja , muito auto conhecimentos e diversos cardápios recomendados para cada ponto a desenvolver , cardápio este baseado em ampla base de pesquisa no campo da psicologia, psiquiatria, pedagogia , antes mesmo de falar em receituário tópico para patologias instaladas, pois se este for o caso a farmacologia pode ser chamada também. [17]

Isso não se constrói com manuais de instrução e receitas de bolo. Não está no radar dos traficantes da ilusão da felicidade completa e permanente, até porque não gera a dependência que os enriquece.

É um exercício crítico individual. Cada pessoa deve procurar seus próprios caminhos para se equilibrar. Sejam eles solitários para os que assim o conseguem, seja com ajuda séria e, obrigatoriamente, do ramo. Ajuda dos vendedores de ilusão não é considerada séria.

Não é uma garantia de um mundo melhor, só a possibilidade de um mundo menos doente.


© Fábio Adiron 2020

Agradecimentos

Além das preciosas intervenções do Ricardo Costa e do Marcos da Cunha Ribeiro citadas durante o texto, gostaria de agradecer as não menos preciosas colaborações da Virginia Susana Fantoni, da Atena Nardy e do Volney Faustini e seus olhos de lince.

[1] ELIAS, Norbert. Problemas de autoconsciência in A sociedade dos indivíduos. Rio de Janeiro. Zahar. 1994
[2] Contribuição de Marcos da Cunha Ribeiro
[3] Contribuição de Marcos da Cunha Ribeiro
[4] Colaboração de Ricardo Costa MBA
[5] Colaboração de Ricardo Costa MBA
[6] Panoramix é um personagem das histórias de Asterix, o gaulês de Uderzo e Goscinny. Um druida que tem o segredo da poção mágica que torna todos os que a bebem, invencíveis. (NA)
[7] Contribuição de Marcos da Cunha Ribeiro
[8] Originalmente um brinquedo da Mattel, atingiu sua popularidade na série de desenhos animados na década de 1990
[9] Star Wars é uma série de filmes de George Lucas. O primeiro deles foi lançado em 1977 e se tornou uma das franquias cinematográficas mais bem sucedidas da história.
[10] HAN, Byung-Chul. A sociedade do cansaço. Petrópolis. Editora Vozes. 2017
[11] Contribuição de Marcos da Cunha Ribeiro
[12] Na teoria de C.G. Jung, personalidade que o indivíduo apresenta aos outros como real, mas que, na verdade, é uma variante às vezes muito diferente da verdadeira, deriva da etimologia grega do termo, persona=máscara. (NA)
[13] Adendo de Marcos da Cunha Ribeiro
[14] BAUDRILLARD, Jean. A transparência do mal. Campinas. Papirus. 2000
[15] PONDÉ, Luiz Felipe. Contra um mundo melhor. São Paulo. Contexto. 2018
[16] Minha leitura pessoal da teoria de Kierkegaard (NA)
[17] Contribuição de Marcos da Cunha Ribeiro

sábado, 6 de outubro de 2018

Meu posicionamento eleitoral



Intencionalmente não fiz comentários políticos até agora, mas acompanhei muitos que andaram circulando nas redes que eu sigo. Abaixo seguem algumas conclusões e as minhas recomendações (que não são de candidatos) para meus amigos eleitores.

a)     Nunca estivemos tão mal do ponto de vista de alternativas. Eu voto desde 1982 (não pude votar em 1978 pois quando completei 18 anos os cartórios já tinham encerrado as listas eleitorais para novembro), apesar disso já atuava politicamente desde 1977. Fui nos comícios das diretas, em comícios do MDB em 1982, 1985 e 1986. Apoiei o PSDB na sua criação em 1988. Fiz campanha por candidatos. Tínhamos nessa época uma profusão de políticos notáveis tanto da esquerda quanto da direita (claro, também tínhamos os picaretas de plantão, sobejamente conhecidos como tal). Eleger os constituintes em 1986 foi uma tarefa difícil, tantos eram os candidatos merecedores de confiança e de voto. 
O tempo foi levando embora esses políticos, muitos já morreram, outros tantos se aposentaram. A renovação foi um processo de deterioração contínuo. Não só não surgiram novas lideranças expressivas, como aumentou exponencialmente a quantidade de gente ruim, mal-intencionada e despreparada. Claro que isso me levou para bem longe de qualquer política partidária. Há anos não apoio e nem voto em ninguém.
Não sei se chegamos ao fundo do poço, se ainda não chegamos, estamos bem próximos dele.

b)     Nunca fomos tão antidemocráticos: as pessoas perderam totalmente a noção de como funciona o jogo democrático. Como em qualquer jogo, alguns ganham, outros perdem. E ninguém mais sabe perder. Achamos que precisamos ganhar na marra e, para isso, vale tudo, inclusive jogar sujo (muito sujo) e fora das regras. Agredir, ofender, distribuir notícias falsas, atribuir eventual derrota a teorias de conspiração ou, como no futebol, dizer que a culpa foi do juiz.
Ninguém se iluda achando que isso é coisa da extrema direita ou da extrema esquerda. Gente de todo o espectro político entrou na onda de agredir os candidatos, os apoiadores e simpatizantes dos candidatos e os que não apoiam nenhum candidato.
Não é à toa que temos os candidatos que temos, eles representam bem o que somos como povo.

c)     Minhas recomendações, se é que isso vale alguma coisa:
a.     Vote de acordo com sua consciência, não de acordo com o seu fígado: se você acredita na proposta de alguém, vote nessa pessoa e durma tranquilo por ter votado naquilo que acredita e não simplesmente contra H, B ou C. Para o fígado eu recomendo Epatovis.
b.     Ignore solenemente quem te agredir pela sua escolha eleitoral, mesmo que sua escolha seja anular o seu voto. Se alguém quer se irritar que seja o outro, não você.
c.      Perder é uma consequência da democracia, aceite isso: se seu candidato não for eleito ou não for para o segundo turno, reconheça que os demais tiveram mais eleitores, é simples assim.
d.     Onde tivermos segundo turno você vai ter uma nova chance de escolher: é para isso que existe segundo turno, adotar o chamado voto útil é apenas uma manobra de ilusão política que tentam nos impingir. Não seja tão inocente.
e.     Não perca amigos divergentes, se afaste dos agressivos: você pode conviver muito bem com quem pensa diferente de você e te respeita apesar disso. Você não deve admitir que as pessoas te agridam (por nenhuma das suas escolhas, por mais exóticas que elas sejam).

Pensei em falar também a respeito da incompetência da nossa centro/direita esclarecida e da nossa centro/esquerda competente para se unir contra os extremos, mas isso fugiria do tema que me propus.

Bom domingo e bom voto.

Descrição da imagem: tira de quadrinhos do Armandinho, de Alexandre Beck. Nela o garoto Armandinho está olhando para cima, para adultos que lhe dizem:"Ela foi maltratada e está toda estropiada, mas nem por isso deve ser sacrificada. E todos somos responsáveis por ela estar assim, distraídos com o próprio umbigo não lhe demos o devido valor, mas ela é jovem e, com a nossa ajuda, pode se recuperar e se tornar plena! E ser digna do nome que tem: democracia.

terça-feira, 18 de setembro de 2018

Uma profissão educadora



Eu confesso, num primeiro momento o que me fez ir ao lançamento do livro “Lucy – Uma vida professora” foi o fato de ter sido escrito pelo Jayme Serva, amigo de longa data e, na minha experiência marqueteira, um dos dois melhores redatores que conheci (o outro é o Robson Henriques, que também deixou o métier).

Eu não fui aluno da Lucy. Sequer fui aluno do Santa Cruz, apesar da escola ter passado rapidamente pela cabeça da minha mãe quando eu estava no final do ginásio, ela concluiu que não fazia sentido para uma família calvinista como a nossa eu estudar numa escola confessional católica – ou iria para uma confessional protestante ou para uma escola laica.  Fui para o laico Colégio Rio Branco.

Comecei a ler o livro me deliciando com o texto sempre fluido e inteligente do Jayme e me identificando geograficamente com as andanças da família Wendel em São Paulo.

De repente, um nome salta aos olhos: o do professor de química da Lucy no Colégio Perdizes na segunda metade da década de 30 – Max Gevertz. O mesmo que, 40 anos depois seria meu professor de química no Rio Branco, de quem tenho as melhores lembranças como pessoa e como professor.

Claro que, desde o começo o sobrenome Wendel me soava familiar, mas minha memória não identificava o porquê.

Fui descobrir muitas páginas adiante, quando ele menciona que a irmã de Lucy, Nícia Wendel de Magalhães tivera uma escolinha de inglês na Lapa. Fui confirmar com minha mãe e realmente era o que eu pensava, a Play School da rua Gomes Freire, minha primeira escola de inglês.

Mais que isso, a Profa. Nícia também tinha sido professora de biologia da minha mãe no Campos Salles!

De qualquer forma, independentemente das afinidades geográficas e pessoais, o livro é uma delícia, especialmente para quem ama a educação. Lucy não foi uma professora qualquer, deixou marcas indeléveis na memória dos seus alunos, como professora e como pessoa.

A Profa. Lucy Sayão Wendel ainda é viva, com os seus 94 anos. Tive a oportunidade de vê-la na noite de autógrafos do livro. Uma referência para quem é ou quer ser professor.

O Jayme encerra o livro com um capítulo sobre sua visão da importância da educação para o país. Concordo totalmente com ele: “se a educação não estiver introjetada no composto cultural da sociedade, não há projeto que vingue.”
Como o otimismo faz parte da essência do Jayme Serva, ele acredita que essa introjeção possa ser algo factível, talvez a minha única discordância do texto. 

Diferente dele eu sou um cético e não tenho muita esperança que a sociedade melhore.

O que não me impede de recomendar muito a leitura do livro. Não sei se está à venda nas melhores livrarias, mas certamente pode ser pedido pelo site da Laranja Original.

Descrição da imagem: foto da capa do livro com a imagem da Profa. Lucy em traje de formatura.

sábado, 3 de março de 2018

Mudança de rota, mesmo destino



Em 2009, num texto a respeito de retenção de alunos com deficiência na pré-escola, eu escrevi o seguinte:

“Essas escolas não estão preocupadas em ensinar. Entregam uma inclusão de araque, ao exigirem que as crianças se preparem para a escola e não o contrário. Escolas que não querem questionar seus dogmas imortais. Nem enfrentar o preconceito que negam de pés juntos.

Essas mesmas escolas são as que estão preparando as crianças sem deficiência a serem cidadãos dos séculos XIX e XX com sua pedagogia caduca e seus métodos arqueológicos. Escolas assim mereceriam ser fechadas. Educadores assim, requalificados para outras profissões que não necessitem conhecimento do ser humano.

Para isso é necessário que os pais deixem de acreditar nesse tipo de absurdo e exijam educação de verdade para os seus filhos. Com ou sem deficiência. ”

Em 2017, meu filho de 19 anos, foi aprovado em dois vestibulares de duas grandes universidades particulares, para o curso de pedagogia (sim, ele quer ser professor e professor de crianças).
Numa delas passou na 1ª chamada, na outra em chamadas subsequentes e, como o resultado da segunda saiu depois do início das aulas da primeira, ele acabou optando por ficar onde já estava se adaptando.

Escolha dele, sem pressão dos pais. Eu apenas dei a ele as vantagens e desvantagens de cada uma.
Durante todo o ano ele lutou contra o sistema acadêmico dessa universidade que, em nada difere do meu texto acima.

Uma faculdade de pedagogia que não estava preocupada em ensinar, com uma área de inclusão (sim, a universidade tem um departamento especializado nisso...) de araque pois pouco sabe a respeito do assunto. Com seus dogmas imortais, métodos arqueológicos e pedagogia caduca.

Pior, uma faculdade que está preparando os futuros professores do país, para replicarem esses dogmas, métodos e pedagogia.

Ele foi o primeiro aluno com síndrome de Down dessa universidade. Pensei eu, ingenuamente, uma faculdade de pedagogia vai aproveitar esse fato para criar um “caso de sucesso” e mostrar como eles são bons.

Doce ilusão. Os professores esperavam que ele se “superasse” sem que eles tivessem que fazer nenhum esforço. Nas matérias que repetiu e foi refazer no segundo semestre, os professores fizeram exatamente a mesma coisa do primeiro, esperando resultados diferentes.

O cúmulo foi, numa reunião com a coordenação do curso, depois de ouvir que o garoto estava com dificuldade em relacionar ideias, eu ter perguntado como se ensinava a relacionar ideias e, com cara de tacho, o coordenador e outros professores presentes disseram que não sabiam.

Perfeito. Agora, como eu cobro algo que admito que não sei ensinar?

As únicas atitudes inclusivas da escola foram propostas pelos alunos, colegas do meu filho.
Resolvemos não perder mais tempo. Em 2018 ele foi para uma faculdade menor e, provavelmente menos conceituada, mas que está disposta a enfrentar o desafio, até porque já tem um monte de outros desafios com a qual ela lida diariamente e sabe que inclusão não se limita às pessoas com deficiência (alunos de baixa renda, egressos de EJA, etc).

Ele foi matriculado no 2º semestre, vai aproveitar os resultados da outra faculdade. As aulas começaram na última 5ª feira.

Curiosamente, a matéria das 5as feira é Educação Inclusiva.

É um recomeço, faz parte do jogo, mas ele mantém sua meta inabalável: vai ser um professor.

domingo, 4 de fevereiro de 2018

Xiita convidada - Qual é o papel da escola?


Letícia Ribeiro*

Hoje, em pleno século XXI, ainda temos que nos deparar com perguntas que poderiam ter respostas simples e claras, mas são praticamente impossíveis de responder, de crer, ou de praticar.

Desde a Grécia antiga, e grandes outras civilizações, nos deparamos com a necessidade de educar. Nós mesmos, e uns aos outros.

A educação grega era voltada para uma individualidade perfeita e independente. Grandes e importantíssimos filósofos daqueles tempos são base, até hoje, de nossas sociedades e ciências. A preparação para o desenvolvimento intelectual da personalidade e da cidadania era muito valorizada e necessária para o ser humano, sua virtude e moral.

A educação romana dependia de quem estivesse em casa. Pais e mães eram os principais responsáveis pela educação de seus filhos. A escola organizada ainda não existia, logo, a diferença de escolaridade entre pessoas era grande.

Se você pesquisar no Google, uma grande e útil ferramenta usada por estudantes de hoje em dia, encontraremos a seguinte definição de qual seria o papel da escola: "A escola traz junto de seus objetivos a formação do caráter, valores e princípios morais, que direcionará o aluno a utilizar os conhecimentos aprendidos de maneira eficaz, para que sejam aplicados em favor da sociedade e de uma realidade melhor para todos."

Me parece irônico a citação "a utilizar os conhecimentos aprendidos de maneira eficaz" uma vez que não aprendemos, de fato, coisa alguma.

Somos tratados como máquinas, pessoas que devem decorar em tempo recorde coisas que jamais usarão na vida. O objetivo não é mais a melhora da sociedade, e sim o vestibular X, Y, Z.

"Os melhores anos da vida de seu filho" - slogan da escola. Uma mentira. Várias mentiras.

Por muito tempo defendi minha escola como minha casa. Lugar onde muitas coisas foram criadas, transformadas. Novas coisas aprendidas, novas paixões descobertas, novas pessoas para se conhecer e, quem sabe, amar. Mas hoje, e não só hoje, me vejo cercada de hipocrisia.

Seria o papel da escola escolher nossos amigos? Seria o papel da escola dizer quem é bom para você, quem te desvia do caminho, quem atrapalha? Seria o papel da escola julgar as pessoas por suas escolhas? Puni-las e tornar a vida delas um inferno só por que uma ou duas pessoas acham que estão certas? Seria papel da escola dizer quem amar ou em que medida amar?

Seria papel da escola “escolher por nós ou nos ensinar a escolher? ”

Afinal, onde foi parar a individualidade perfeita e “independente? ”

* Letícia Ribeiro é estudante do 3º ano do ensino médio em São Paulo