domingo, 15 de abril de 2012

A cor da alma


Meu café é preto, normalmente muito preto. O que lhe dá corpo é o pó. No meu caso, extra-forte.

Meu leite é branco, como deve ser todo leite. O que lhe dá corpo é a lactose.

Nem um, nem outro existiriam sem água que lhes dá fluidez e vida. Desidratados são apenas poeira inerte.

Mesmo o mulato pingado, mais ou menos escuro ao gosto de cada um, não seria nada se não fosse composto essencialmente de água.

E a água é transparente. Incolor dizem os químicos.

Eu sou branco, palidamente branco, quando muito avermelhado se exposto excessivamente ao sol.

Meu amigo Nivaldo é negro. Bastante negro, exposto ou não aos raios ultra-violeta.

Branca é só a minha casca, como é negra a casca do Nivaldo. Humanos, como somos, nossas almas, como a água, são transparentes.

Dão vida ao corpo, como a água dá vida ao café e ao leite. Alma não tem cor, sua qualidade não se define pela cor da pele, invólucro perecível da existência.

O que não significa que muitos brancos ainda insistam em atribuir almas brancas aos negros que eles consideram de melhor qualidade.

Como se a cor da pele e, nesse caso, da alma, definisse a qualidade ou a humanidade de um ser.

Pior ainda se considerarmos que são justamente as mesmas pessoas que se dizem igualitárias e sem preconceitos que falam essas bobagens.

E, ao falar tamanha asneira, acabam por condenar humanos de outras fisiologias e anatomias que não às suas, à exclusão da sociedade que dizem ser de todos.

Humanos somos. Uma só raça, uma só identidade, um único conjunto de deveres e direitos éticos.

Diversos na apresentação, nas necessidades, nas habilidades.

O que passar disso é discriminação.


Descrição da imagem: uma série de pequenas fotos de mãos negras e brancas realizando diferentes movimentos em conjunto.

sábado, 31 de março de 2012

Comemorar ou lamentar?

No próximo dia 21 de Março será comemorado mais um dia internacional da Síndrome de Down

O evento que começou há sete anos agora tem status oficial, reconhecido pela ONU (graças ao esforço da Patricia Almeida).

Teremos caminhadas, encontros, sessões solenes em casas legislativas e palestras, muitas palestras.

E são exatamente essas palestras que me provocam uma dúvida recorrente: estamos comemorando ou lamentando a síndrome de Down?

Os temas em debate apontam para uma permanente busca da cura da condição genética. Mas, se é uma condição genética (como a cor dos olhos ou a curvatura do nariz) por que lidamos com o assunto como se fosse uma doença?

Protocolos médicos, tratamentos, pesquisas genéticas são a tônica no Brasil e no mundo.

Se é uma doença precisamos de dias de luta, como existem os dias de luta contra o câncer ou contra a AIDS.

Se a SD faz parte da essência e da natureza das pessoas e, se dizemos que as consideramos como qualquer outro ser humano, porque essa necessidade de achar caminhos para combater os efeitos da trissomia?

Seria a mesma coisa que propor a cura da homossexualidade...ops, é verdade, tem bastante gente que ainda acha que é algo curável.

Seria a mesma coisa que buscar métodos de clareamento dos negros...ops, é verdade, ainda tem muita gente que quer lhes dar uma "alma branca".

Como é que podemos sair pelas ruas exaltando as diferenças que, no íntimo, queremos eliminar ou minimizar?

Se nós, pais e parentes de pessoas com síndrome de Down, continuamos a olhar para ela como uma dor de cabeça, como podemos esperar que o resto do mundo abandone seus preconceitos?

Como defender a capacidade de aprendizado dos nossos filhos se insistimos em lidar com isso de uma forma terapêutica?

Como preparar para autonomia pessoas que nós mesmos apresentamos para o mundo como incapazes?

Se o nosso objetivo é acabar com a síndrome de Down não faz o menor sentido comemorar sua existência ou, pelo menos, precisamos repensar criticamente os nossos objetivos a esse respeito.

Descrição da imagem: foto de Fábio junto com Samuel e Letícia

Texto publicado originalmente dia 21/03/2012 no blog da NEPPD UFAM

sábado, 17 de dezembro de 2011

Xiita convidado: Não é a síndrome


Esse texto foi publicado originalmente no Grupo Síndrome de Down e é uma resposta ao questionamento se uma criança deveria ou não ser promovida da educação infantil para o primeiro ano

*Gil Pena

Fiquei acompanhando essa discussão com certo incômodo. Já de antemão, informo que não sou novo na lista, estou aqui desde as primeiras mensagens. No início, eu participava mais, dava mais pitacos, mas acabei me percebendo repetitivo, sempre falando em confiança, competência, superação, no meio de um tanto de gente que sempre resvala para a dúvida, a deficiencia e a conformação.


Não é o caso particular de uma ou outra criança e sua família, é sempre o tema recorrente, outubrino, da constatação que o ano passou e o menino ficou. É a síndrome, dirão os terapeutas, os professores, pais "experientes".


Eu digo, não é a Síndrome. Vamos arranjar outra desculpa.


Vão lá, me dirão, que são seus circuitos neuronais, as vias receptoras, áreas de associação deficiente, poucos recursos de linguagem, pouca memória de curto prazo, hipotonia, atividade motora fina, etc, tudo isso junto.


Eu sei disso, sei até bastante. Mas temos de tomar uma decisão. Antes mesmo de resolver se o nosso filho vai para o jardim ou o fundamental, ou se o deixamos no maternal. Temos de definir se vamos continuar nos apoiando nas desculpas, na deficiência, ou vamos olhar por outra perspectiva, arranjando meios de driblar a biologia, com cultura.


É uma decisão que não podemos demorar a tomar, pois o tempo passa, as crianças crescem. Inclusão no jardim é trivial, mas o desenvolvimento acadêmico é essencial para que progridam na vida escolar, não dá para ficar perdendo ano, ver os colegas avançando, sem alcançar a leitura e a escrita ou a matemática básica. Depois, se já são jovens, não dá para colocá-los numa classe de alfabetização, é preciso aprender no tempo de aprender. Porque ficar esperando? esperando pelo que?


Se é tempo de aprender, é tempo de ensinar.


Todos nós conhecemos as pessoas com síndrome de Down. Sabemos que podem aprender as coisas, frequentemente elas nos surpreendem, demonstrando alguma habilidade que não esperamos delas.


Bem elas podem aprender, mas é bem difícil se nós não ensinamos.


É preciso ensinar a ler, a escrever, conhecer os números, compreender as quantidades, fazer operações matemáticas, resolver problemas, ir e vir, comportar-se etc.


Parte do ensino é escolar. As crianças ficam na escola para aprender. Muito do aprendizado dos ditos comuns, ocorre de maneira espontânea, e isso se explica em parte por que vivemos num mundo de comuns, a maneira de ensinar parece quase natural.


Temos de sair um pouco da mesmice, desse ritmo "natural" das coisas. Infelizmente muitos profissionais, pais, mães etc, acham que o que é natural é certo, o único jeito de as coisas ocorrerem. Isso está errado, pois o aprendizado em si, não é natural, ao contrário, representa ruptura com o biológico. Ou vocês irão me dizer que na minha biologia há uma afinidade intríseca com o computador: meus dedos teclam as letras no teclado qwerty, pois o teclado qwerty é que está adaptado à minha biologia?


Não. O teclado qwerty é bem pior que o dvorak, onde as letras que mais usamos ficam nos melhores dedos, mas é daqueles entraves culturais que é difícil de mudar. Mas é um entrave cultural, como esse de que as pessoas com síndrome de down são deficientes.


São coisas da cultura. Temos de entender que não são imutáveis. Fazem parte de nossas opções ao estar no mundo.


Podem não ser opções simples, mas são opções. Podemos optar pela confiança, pela competência, pela superação. É uma escolha. Um caminho novo se abre. A construção a cada dia da trilha. Não dá para garantir onde vai chegar. Mas o caminho usual, por onde a maioria vai, sabemos onde vai dar.


É uma opção que pode ser feita agora. Amanhã tem de ser feita de novo. E isso não nos isenta de renovar de novo o propósito depois de amanhã.


A impressão que eu tenho é que toda a angustia de outubro, da rematrícula, acaba resolvida, pela retenção ou mudança de escola ou promoção, e resolvido isso não temos de nos incomodar, até que chegue o próximo outubro, quando nos vão dizer que não está maduro, que está atrasado em relação a turma, e nos perguntam se o levamos para outra escola, se o retemos ou se o promovemos com a turma, mesmo sabendo da sua deficiência.


É isso. A deficiencia ainda vai estar lá. Na opção que tomamos, escolhemos a deficiencia. É o caminho natural, é só deixar as coisas caminharem por si, que chegamos a ela.


Há outra opção. A que desafia a natureza. A que traça um projeto a cada dia, para desviar a deficiência, a limitação. A deficiencia desviada, superada, contornada não é deficiencia, agora são outros desafios: outros projetos, novos aprendizados e superação.


*Gil Pena é médico patologista e pai. Dedica-se a estudos na área da educação, dentro da linha do Projeto Roma.


Descrição de imagem: charge onde um menino diz "Mãe, eu queria aprender a ler e escrever", a mãe, com outro filho no colo e outro na barriga responde: "Lá vem você com suas manias de grandeza"

Também sobre o o tema: Mariazinha tomou pau no maternal

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Direito de matar

Em todas as declarações dos direitos humanos desde a Declaração Universal dos Direitos Humanos em 1948, até a Convenção Internacional sobre os direitos das pessoas com deficiência em 2006, existe a figura dos direitos inalienáveis.

Os direitos humanos são as faculdades, liberdades e reivindicações inerentes a cada pessoa unicamente com o fundamento da sua condição humana. É verdade que nem todas as pessoas acreditam que as pessoas com deficiência sejam humanos. Eles tem "características" que fazem deles outros tipos de pessoas.


Vida, educação, saúde e oportunidades de trabalho são direitos inalienáveis : ninguém, sob nenhum pretexto, pode privar outro sujeito desses direitos e independentes de qualquer fator particular : raça, nacionalidade, religião, gênero, orientação sexual e presença de deficiência.


Ninguém, nesse caso, é ninguém mesmo. Nem os pais têm o direito de privar os filhos desses direitos. Nem as próprias pessoas têm o direito de se privar desses direitos.


Mas muitos têm defendido o "direito" de impedir crianças de frequentar escolas, em igualdade de condições com todas as demais crianças. Alegam livre arbítrio dos pais, livre arbítrio dos próprios alunos.


Aliás, diga-se de passagem, o termo livre arbítrio também costuma ser muito mal utilizado, seja na religião, na filosofia e no direito. Virou passe livre para o vale tudo, a justificativa para garantir privilégios e sinecuras, a desculpa para não dar satisfação a ninguém.


Acredito que as pessoas que querem o livro arbítrio de privar os outros dos seus direitos inalienáveis seriam as mesmas capazes de matar seus filhos, em nome da liberdade de escolha (e, na verdade, muitas matam mesmo, basta olhar para o crescimento do número de abortos), afinal, a vida é apenas outro direito inalienável.


Iludem-se achando que estão defendendo um direito, quando estão apenas defendendo um modelo de exploração econômica, uma forma nada sutil de tutela sobre as pessoas com deficiência, um grupo de instituições que se apoderaram do direito de outras.


São essas pessoas que lutam de todas as formas, inclusive a manipulação política por baixo dos panos, para manter seus alunos segregados, seus pacientes cativos e o seu negócio lucrativo.


Inclusão é e sempre será ampla, geral e irrestrita. O que passar disto é discriminação e abuso dos direitos humanos.

Descrição de imagem
: foto de um bebê dormindo com uma arma apontada para a sua cabeça

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Comédia de erros

Antes de começar a ler esse texto saiba que:

1. Eu sou contra a produção, venda e consumo de drogas.

2. Eu não tenho nada pessoal contra policiais, aliás, tenho amigos tanto na polícia militar, como na civil

3. Eu não sou filiado a nenhum partido, nem simpatizante de algum partido (mas cada dia sou mais anti-simpatizante de todos eles)

Isso dito gostaria de comentar o circo formado em torno do episódio polícia x estudantes da USP.

Como bem notou o Jayme Serva no dia em que a polícia prendeu os caras que estavam mandando ver num baseado dentro da cidade universitária, essa históiria não ia acabar bem.

A polícia entrou na USP depois da ocorrência de assaltos e latrocínios dentro do campus. Porque a universidade tem seguranças para impedir que as pessoas joguem bola no gramado (mesmo sendo um espaço público pago com os seus impostos), mas não para impedir crimes.

Assumindo sua incompetência em administrar o campus, o reitor e o conselho universitário chamaram a polícia para dentro da universidade. Sabidamente uma relação historicamente desconfortável.

Essa polícia, que deveria garantir que criminosos não atuassem, preferiu prender contraventores miúdos. Poderia muito bem ter confiscado a droga, jogado no lixo e mandado os moleques de volta para a sala e notificar a escola. Preferiram criar caso.

Ato contínuo, a comunidade de estudantes se revoltou e pediu a saída da polícia. Ato contínuo começaram as mensagens chamando os estudantes de "maconheiros". Uma generalização estúpida como costumam ser todas as generalizações.

Mas, parte dos estudantes, a maior parte, foi contra a paralisação. Democraticamente encerrada em assembléia. Nesse momento o debate sobre a presença da polícia poderia ter voltado à política universitária.

Se não fossem os eternos pseudo-revolucionários da esquerda albanesa , também conhecidos como maus perdedores, que resolveram invadir e se instalar na reitoria. Além de não terem mais o que fazer, ainda conseguiram acabar com a imagem dos alunos da USP (generalizações, de novo).

A Justiça, atendendo pedido da reitoria (cuja competência para negociação é tão alta quanto a temperatura média da Lapônia) autorizou a polícia a executar a reintegração de posse.

Como se tratava de uma imensa milícia revolucionária armada até os dentes, ou seja, 70 estudantes universitários, a polícia chegou com 400 homens armados, escopetas e tropa de choque. Um espetáculo deprimente e ridículo. A mesma polícia que não se prepara assim para reprimir o tráfico de drogas nos drive-throughs da Av Roberto Marinho (rip).

Pior, isso ainda alimentou o debate eleitoral de 2012. Nosso governardorzinho defendeu a brutalidade, no melhor estilo Erasmo Dias (se você não sabe quem é, procure no Google) e o ministro da educação, candidato a prefeito, veio dar palpite onde não devia.

Espero agora pelas próximas cenas. Quem sabe o FHC defendendo a discriminalização da cannabis (poderia também defender o descriminalização dos corruptos, afinal, a culpa é só dos corruptores), ou o PSTU propor a extinção da polícia.

Agora, como bem disse a Cristiana Soares, é nessas horas que a gente sabe quem é quem na nossa lista de contatos do Face. De um lado os defensores da repressão, de outro a turma do vale tudo. Um pouco de análise crítica, quase de ninguém.

A maior de todas as comédias dos erros é descobrir que tem muita gente sem nenhum conhecimento da história do país e, de outro, gente que não entende a mudanças que estão acontecendo.

Conclusão: nenhuma. Os fascistas vão continuar sua marcha pela tradição, família e propriedade. Os comunistas vão continuar usando o boné do Che Guevara.

Salve-se quem puder.

PS: Nesse momento, acabo de ler que a assembléia dos estudantes da USP decretou greve, a partir de amanhã. Será que vão chamar a Tropa de Elite para resolver o caso?

Descrição de imagem: foto de uma jovem com a mão na boca, vaiando. A moça usa um nariz de palhaço

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Segregação travestida de inclusão


para Ginez Garcia que me ofereceu o mote

Quase diariamente eu preparo um resumo de notícias a respeito de deficiência, inclusão, educação e temas correlatos chamado Novidades do dia. Para editá-lo recebo links de colaboradores e também notícias pelos Alertas do Google.

Dia sim, outro também, aparece alguma notícia a respeito da criação de novos centros de formação, capacitação, preparação (ou qualquer outro nome bonito que queiram dar) de pessoas com deficiência. São criados pelos poderes públicos, prefeituras e estados, por organizações não governamentais e pelo setor privado.

A notícia sempre destaca a colaboração que esse tipo de centro vai dar à inclusão dos "coitadinhos dos deficientes" (não, eles não usam essa expressão, mas é exatamente esse o tom do discurso).

Alguns centros são para pessoas com deficiência em geral (mas só para pessoas com deficiência), outros para pessoas com deficiências específicas.

Exemplos típicos de segregação em nome da inclusão como bem notou o Ginez Garcia.

Ainda existe muita gente que acha que incluir é preparar as pessoas com deficiência para serem aceitas na sociedade, uma deslavada mentira.

Incluir é preparar a sociedade para conviver com todas as pessoas (independentemente de raça, sexo, classe social, deficiência ou qualquer outro fator de exclusão)

Para que centros profissionalizantes segregados? Não bastaria que as escolas profissionalizantes recebessem todos os tipos de pessoas?

Por que gastar rios de dinheiro com a construção de infraestrutura nova se é muito mais barato fazer as adaptações necessárias nos locais já existentes? (quem é que ganha com isso?)

Formação escolar ou profissional de pessoas com deficiência em ambientes separados do resto do mundo traz duas consequências óbvias:

A primeira é que essas pessoas com deficiência serão formadas para continuarem "deficientes", incapazes de viver autonomamente fora de contextos protegidos (e depois vão trabalhar em cooperativas de trabalho protegido recebendo esmolas a troco de trabalho escravo)

A segunda é que as pessoas sem deficiência nunca estarão preparadas para receber as que tem deficiência, pois a convivência nunca existiu. O que, certamente, continuará a alimentar a industria de "sensibilização" para receber esses alienígenas.

Infelizmente, as próprias pessoas com deficência ainda acreditam que isso é um benefício, que depois vai ser retribuído com votos.

A sociedade, que defende que os fins justificam os meios, agradece por não precisar mudar seu status quo.

Descrição da imagem: desenho de uma casa presa por correntes e fechada com um cadeado

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Amores perfeitos

Em 1958, aos 17 anos, Mildred Jeter, uma jovem negra, casou com Richard Loving, um operário da construção civil de 23 anos, numa época em que casamentos interraciais eram proibidos na Virginia, seu estado natal. Mildred e Richard foram então à capital, Washington, onde se casaram, para em seguida retornar à Virginia.

Pouco depois do casamento, foram acordados no meio da noite no seu quarto por xerifes e presos pelo 'crime' de terem se casado com o tipo errado de pessoa
.

Um juiz da Virginia ameaçou prender o casal caso eles não deixassem o Estado e ficassem fora pelos próximos 25 anos.


O casal Loving se mudou para a capital americana, e com a ajuda da União Americana de Liberdades Civis e da Associação Nacional pelo Avanço dos Negros defenderam seu direito de se casar perante a Suprema Corte dos Estados Unidos.


No histórico julgamento do caso "Loving versus Estado da Virginia", em 1967, a Suprema Corte americana decidiu que a proibição do casamento interracial era inconstitucional - decisão que afetou as leis na Virginia e em 16 outros estados americanos.

O estado do Alabama, no sul, foi o último a abolir as leis que proibiam o casamento inter-racial - o que só ocorreu no ano 2000.


Do outro lado do Atlântico, a África do Sul proibia, até 1985, qualquer tipo de relacionamento sexual entre pessoas de etnias diferentes. A lei tinha o nome de Lei da Imoralidade.


Qualquer semelhança com o preconceito existente a respeito das pessoas com deficência, não é mera coincidência, é mero preconceito mesmo.


Preconceito que não é exclusivo das pessoas sem deficiência, diga-se de passagem. A criação de um portal de namoro destinado aos "deficientes" é a prova de que as pessoas acreditam que esses não podem se misturar com aqueles.


Pode-se alegar que, pela exclusão social, as pessoas com deficiência tem poucas chances de conhecer outro tipo de gente, o que não justifica a criação de mais guetos segregados além dos já existentes.


Ainda mais quando o espaço reforça a idéia de que o relacionamente entre as pessoas vai ser, ele mesmo, deficiente.


Deficiente, segundo o Aurélio, é aquele em que há deficiência, carência, insuficiência. Falho, imperfeito.


Logo, um namoro deficiente é aquele que é falho, imperfeito. Talvez pela falta de amor de alguma das partes, ou pela imperfeição da paixão, tão necessária a um relacionamento amoroso.


Um namoro não é deficiente pelo fato de uma, ou ambas as pessoas, terem ou não deficiência.


Conheço pessoas com deficiência casadas com pessoas sem deficiência. Relacionamentos que, se não são perfeitos, são muito felizes.


Conheço relacionamentos que não são deficientes entre casais onde ambos tem alguma deficiência.


E conheço relacionamentos deficientes entre pessoas sem deficiência nenhuma.


E continuo torcendo para que o amor entre as pessoas não seja definido pela CID ou pela CIF
.

Descrição da imagem: fotografia do casal Mildred e Richard Loving

domingo, 28 de agosto de 2011

Não existe escola inclusiva

De tempos em tempos alguém me pede indicação de escolas inclusivas, geralmente são pais em busca de um lugar para os seus filhos mas, de vez em quando, também são professores de escolas que rejeitaram algum aluno e que tentam indicar um outro lugar para os pais que os procuraram.

Infelizmente essa é uma informação que eu não possuo, ou melhor, possuo, mas não da forma como as pessoas gostariam de ouvir.

Não existem escolas inclusivas ou, pelo menos até hoje, eu não conheci nenhuma. E não existem porque o nosso sistema educacional, seja ele público ou privado, ainda está muito longe de ser inclusivo.

Claro que quem acredita que inclusão significa apenas ter alunos com alguma deficiência na escola vai encontrar centenas de escolas inclusivas. Só na rede municipal de Sâo Paulo são mais de mil escolas. Mas não é isso que torna inclusiva uma escola.

Outros entendem que são as escolas que "aceitam", como se inclusão fosse apenas uma concessão que a escola faz aos que ela consideram como diferentes.

Não poucos entendem que a escola inclusiva é aquela que faz a sua parte, desde que a pessoa incluída se prepare para acompanhar as suas regras inflexíveis, alguns chegam mesmo a contratar profissionais para tomar conta dos seus filhos dentro da escola (e ainda chamam esses profissionais de "mediadores"...)

Quando encontram uma escola que tem uma estrutura especial para os alunos com deficiência acreditam que chegaram ao nirvana inclusivo. Quem não quer uma escola toda equipada para as necessidades ( "especiais"?!?) das pessoas com deficiência, mesmo considerando que as pessoas sem deficiência não se beneficiam disso?

Escola inclusiva só vai existir quando a educação passar por uma transformação profunda, valorizando a individualidade de cada e de todos os alunos.

Quando, ao invés de concessões, houver uma ruptura no sistema atual que conduza a uma escola que não estabeleça condições para matricular os alunos (com e sem deficiência). Quando o sistema representar a existência de uma escola que seja boa para todos.

Quando as mudanças beneficiarem toda e qualquer pessoa.

Isso só vai acontecer quando escolas, pais e alunos pararem de olhar só para os seus interesses e entenderem que o interesse de todos está acima dos seus umbigos. Isso não vai cair do céu, nem virá do planalto central.

Enquanto isso não acontece, vou continuar recomendando aos pais que procurem escolas que tenham a ver com seus valores e crenças, como procurariam para qualquer outro filho sem deficiência e que, junto com a escola, procurem transformá-la num ambiente inclusivo.

E que fujam da tentação da escola que aceita, da escola que privilegia, da escola que impõe fardos ilegais.

Descrição da imagem
: uma sala de aula perfeita, cheia de crianças de todos os tipos e super equipada.

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Senzala 2.0

Se eu falasse para uma famíla negra que seus filhos deveriam ser encaminhados para escolas ou atividades sociais só com outras pessoas negras, eu seria imediatamente taxado de racista e, muito provavelmente processado por tamanha besteira.

Não seria diferente se disser para algum conhecido gay que ele deveria procurar a sua turma, mesmo sem lei anti-homofobia eu seria exacrado publicamente.

No entanto, pais, professores, amigos e inimigos das pessoas com deficiência sempre estão em busca de guetos exclusivos.

Bailes para pessoas com síndrome de Down, aulas de judô para cegos, escolas para autistas...e o pior é que a própria comunidade das pessoas com deficiência acha que isso é ser normal.

Além de serem pseudo-defensores da diversidade essas pessoas acabam reforçando as superestruturas discriminatórias dominantes.

Acham que estão conscientizando o mundo sobre os direitos de todos com manifestações públicas quando estão apenas ressaltando a percepção de que "esses estranhos" devem viver apenas entre eles mesmos.

Defendem a perenização da senzala, do gueto, do manicômio em moldes mais moderninhos (versão 2.0 ou será 4G?), travestidos de clubes, redes sociais e até sites de namoro para pessoas com deficiência.

A alegação conceitual é que pessoas com mesmas características biológicas podem construir sua identidade no contato com os seus iguais. Que identidade, cara pálida? (ou de qualquer outra coloração).

A minha identidade é a de ser humano e é no contato com outros seres humanos que ela vai se construir. Minha humanidade não se define pela cor da minha pele, pelo número de cromossomos ou pela minha capacidade de ver ou ouvir.

Homem, ser social, realiza o desenvolvimento da sua identidade através da interação que mantém com o meio em que vive. A cada experiência vivida, a cada problema enfrentado, se está alimentando o processo de construção da identidade.

Se o meio for segregado é esse tipo de identidade que um indivíduo terá. Uma identidade pobre e limitada.

Certa estava a Cláudia Werneck quando lançou em 1992 o livro "Quem cabe no seu todos?" mostrando que preconceito e discriminação só mudavam de nome e endereço, mas estavam em todas as mentes e corações (inclusive daqueles que são excluídos)

Se, ao invés de defendermos a inclusão de todos, defendermos a inclusão ou os direitos de pessoas do tipo X, Y ou Z, deixamos de lutar contra a discriminação. Viramos parceiros dela.

Descrição da imagem : propaganda de uma empresa italiana de roupas dividida em 3 quadros: um só com mulheres loiras, outro só com morenas e o outro só com mulheres negras.

sábado, 16 de abril de 2011

Pimenta no umbigo

Nada mais natural aos seres humanos que passar a vida admirando os seus umbigos. Seja o que lhe foi dado por natureza, sejam aqueles metafóricos.

Enquanto os umbigos naturais não costumam ter mais que um centímetro de diâmetro, os metafóricos variam muito de tamanho. Para alguns se limita a visão de si mesmos, alguns estendem o raio metafórico umbilical ao seu núcleo familiar, outros a uma amplitude maior de parentes e amigos.

Não importa o tamanho, todos nós temos um raio definido de proteção umbilical. A Cláudia Werneck já tinha mapeado bem essa questão no seu excelente "Quem cabe no seu todos?"

Se você acha que sua cabeça não funciona assim, você só está só se enganando a si próprio. É verdade que o processo de auto enganação também é típico dos terráqueos.

Não é diferente nas comunidades das pessoas com deficiência. Seja a atitude umbilicalista, seja o discurso me engana que eu gosto.

Todos se dizem inclusivos, todos querem uma sociedade equalitária e justa. Todos são defensores dos direitos coletivos.

Até a hora em que uma situação que parece ser inofensiva faz com que a pessoa mostre até onde vão os limites do seu umbigo.

Pode ser quando uma professora mencione as muitas exclusões de uma escola, e alguém imediatamente ressalte que o que se precisa resolver é a inclusão de pessoas com a mesma deficiência do seu filho (e os outros que se lixem...)
Ou quando uma mãe reclama que a classe do seu filho (com a deficiência X) está sendo prejudicada por uma criança com transtorno mental Y (sim, sim, eu já ouvi essa)

Quando o homossexual diz que o pior cego é aquele que não quer ver.

Quando o amputado diz que a coisa está preta.

Quando familiares de pessoas com deficiência distribuem piadas pela internet sobre a falta de um dos dedos do ex-presidente.

Eu mesmo já cometi minhas umbigadas. Na última, a Cláudia Grabois, educadamente me corrigiu sobre o uso do termo judiar... e eu aprendi.

O problema maior nem é darmos essas mancadas. Duro é quando a pessoa tenta nos convencer de que ela está certa e nós estamos sendo radicais e mal humorados.

Aí a defesa do umbigo se torna uma questão de honra.Quando não de briga

Afinal de contas, já dizia o ditado que, pimenta nos olhos dos outros é refresco.

Ou será que deveria ser pimenta no umbigo dos outros?

Descrição da imagem
: close de um umbigo com grãos de areia em volta do mesmo