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quinta-feira, 26 de agosto de 2021

O menino que até aprenderia a ler

 


Dezembro de 1998. Nascia o nosso primeiro filho, o Samuel. Logo de cara dois sustos: a síndrome de Down e uma cardiopatia que precisava ser corrigida por cirurgia. É óbvio que ficamos sem chão. Além de pais de primeira viagem, não sabíamos nada a respeito de nenhuma das duas situações. Fomos aprender.

Lembro de duas frases que me marcaram. Uma do geneticista do hospital que disse que eu não deveria entrar em pânico, pois “essas crianças” até aprendem a ler. A outra de um pai de um menino de 9 anos que disse que o Samuel seria aquilo que nós investíssemos nele, e fez questão de ressaltar que não era dinheiro, mas estimulação, atenção e nossa crença de que ele não tinha limites.

O tempo, os contatos e algumas visitas a escolas especiais nos aproximaram da educação inclusiva. Não era uma opção, era o único caminho viável. E mergulhamos sem medo naquilo que ainda era mais uma luta do que uma realidade.

E assim se passaram 22 anos, e o menino que “até iria aprender a ler” hoje se graduou em Pedagogia, para ensinar outras crianças também a ler e escrever.

Não foi superação, não foi heroísmo, não foi milagre.

Foi a convicção de que as pessoas só se desenvolvem no relacionamento com pessoas de todos os tipos.

Foi a cabeça-dura do pai que nunca deixou ele participar de atividades segregadas.

Foi a recusa em lhe dar privilégios e tratamento diferentes do que se daria a qualquer outro filho.

Ele teve algum privilégio? Certamente, e ele sabe disso. Privilégio de nascer em uma casa em que a educação era objetivo essencial. Privilégio de ter uma irmã que nunca deu moleza. Privilégio de contar com excelentes professores no caminho. Privilégio de concluir um curso superior que ainda é apenas um sonho para muitos brasileiros. E até o privilégio de ter enfrentado o preconceito da primeira faculdade onde entrou e aprender muito com isso.

Não vou me arriscar a listar todas as pessoas que contribuíram na construção desse caminho, seria um risco deixar muitos de fora (mas cada um deles sabem quem são), mas apenas mencionar duas pessoas cujos ensinamentos foram essenciais nesse processo: o Prof. Miguel Lopez Melero da Universidade de Málaga, e a Profa. Maria Teresa Mantoan da Unicamp, a quem eu chamo carinhosamente de meu guru e a minha gurua.

Agora começamos uma nova fase, a da busca de trabalho. As regras do jogo, porém, não vão mudar. Todos com todos. Sem segregação. Sem tratamento “especial”, e a expectativa de algum dia não precisar mais falar sobre inclusão.

Descrição da imagem: Samuel, um jovem magro e barbudo, vestido com a beca e o capelo de formando.


terça-feira, 18 de setembro de 2018

Uma profissão educadora



Eu confesso, num primeiro momento o que me fez ir ao lançamento do livro “Lucy – Uma vida professora” foi o fato de ter sido escrito pelo Jayme Serva, amigo de longa data e, na minha experiência marqueteira, um dos dois melhores redatores que conheci (o outro é o Robson Henriques, que também deixou o métier).

Eu não fui aluno da Lucy. Sequer fui aluno do Santa Cruz, apesar da escola ter passado rapidamente pela cabeça da minha mãe quando eu estava no final do ginásio, ela concluiu que não fazia sentido para uma família calvinista como a nossa eu estudar numa escola confessional católica – ou iria para uma confessional protestante ou para uma escola laica.  Fui para o laico Colégio Rio Branco.

Comecei a ler o livro me deliciando com o texto sempre fluido e inteligente do Jayme e me identificando geograficamente com as andanças da família Wendel em São Paulo.

De repente, um nome salta aos olhos: o do professor de química da Lucy no Colégio Perdizes na segunda metade da década de 30 – Max Gevertz. O mesmo que, 40 anos depois seria meu professor de química no Rio Branco, de quem tenho as melhores lembranças como pessoa e como professor.

Claro que, desde o começo o sobrenome Wendel me soava familiar, mas minha memória não identificava o porquê.

Fui descobrir muitas páginas adiante, quando ele menciona que a irmã de Lucy, Nícia Wendel de Magalhães tivera uma escolinha de inglês na Lapa. Fui confirmar com minha mãe e realmente era o que eu pensava, a Play School da rua Gomes Freire, minha primeira escola de inglês.

Mais que isso, a Profa. Nícia também tinha sido professora de biologia da minha mãe no Campos Salles!

De qualquer forma, independentemente das afinidades geográficas e pessoais, o livro é uma delícia, especialmente para quem ama a educação. Lucy não foi uma professora qualquer, deixou marcas indeléveis na memória dos seus alunos, como professora e como pessoa.

A Profa. Lucy Sayão Wendel ainda é viva, com os seus 94 anos. Tive a oportunidade de vê-la na noite de autógrafos do livro. Uma referência para quem é ou quer ser professor.

O Jayme encerra o livro com um capítulo sobre sua visão da importância da educação para o país. Concordo totalmente com ele: “se a educação não estiver introjetada no composto cultural da sociedade, não há projeto que vingue.”
Como o otimismo faz parte da essência do Jayme Serva, ele acredita que essa introjeção possa ser algo factível, talvez a minha única discordância do texto. 

Diferente dele eu sou um cético e não tenho muita esperança que a sociedade melhore.

O que não me impede de recomendar muito a leitura do livro. Não sei se está à venda nas melhores livrarias, mas certamente pode ser pedido pelo site da Laranja Original.

Descrição da imagem: foto da capa do livro com a imagem da Profa. Lucy em traje de formatura.

sábado, 3 de março de 2018

Mudança de rota, mesmo destino



Em 2009, num texto a respeito de retenção de alunos com deficiência na pré-escola, eu escrevi o seguinte:

“Essas escolas não estão preocupadas em ensinar. Entregam uma inclusão de araque, ao exigirem que as crianças se preparem para a escola e não o contrário. Escolas que não querem questionar seus dogmas imortais. Nem enfrentar o preconceito que negam de pés juntos.

Essas mesmas escolas são as que estão preparando as crianças sem deficiência a serem cidadãos dos séculos XIX e XX com sua pedagogia caduca e seus métodos arqueológicos. Escolas assim mereceriam ser fechadas. Educadores assim, requalificados para outras profissões que não necessitem conhecimento do ser humano.

Para isso é necessário que os pais deixem de acreditar nesse tipo de absurdo e exijam educação de verdade para os seus filhos. Com ou sem deficiência. ”

Em 2017, meu filho de 19 anos, foi aprovado em dois vestibulares de duas grandes universidades particulares, para o curso de pedagogia (sim, ele quer ser professor e professor de crianças).
Numa delas passou na 1ª chamada, na outra em chamadas subsequentes e, como o resultado da segunda saiu depois do início das aulas da primeira, ele acabou optando por ficar onde já estava se adaptando.

Escolha dele, sem pressão dos pais. Eu apenas dei a ele as vantagens e desvantagens de cada uma.
Durante todo o ano ele lutou contra o sistema acadêmico dessa universidade que, em nada difere do meu texto acima.

Uma faculdade de pedagogia que não estava preocupada em ensinar, com uma área de inclusão (sim, a universidade tem um departamento especializado nisso...) de araque pois pouco sabe a respeito do assunto. Com seus dogmas imortais, métodos arqueológicos e pedagogia caduca.

Pior, uma faculdade que está preparando os futuros professores do país, para replicarem esses dogmas, métodos e pedagogia.

Ele foi o primeiro aluno com síndrome de Down dessa universidade. Pensei eu, ingenuamente, uma faculdade de pedagogia vai aproveitar esse fato para criar um “caso de sucesso” e mostrar como eles são bons.

Doce ilusão. Os professores esperavam que ele se “superasse” sem que eles tivessem que fazer nenhum esforço. Nas matérias que repetiu e foi refazer no segundo semestre, os professores fizeram exatamente a mesma coisa do primeiro, esperando resultados diferentes.

O cúmulo foi, numa reunião com a coordenação do curso, depois de ouvir que o garoto estava com dificuldade em relacionar ideias, eu ter perguntado como se ensinava a relacionar ideias e, com cara de tacho, o coordenador e outros professores presentes disseram que não sabiam.

Perfeito. Agora, como eu cobro algo que admito que não sei ensinar?

As únicas atitudes inclusivas da escola foram propostas pelos alunos, colegas do meu filho.
Resolvemos não perder mais tempo. Em 2018 ele foi para uma faculdade menor e, provavelmente menos conceituada, mas que está disposta a enfrentar o desafio, até porque já tem um monte de outros desafios com a qual ela lida diariamente e sabe que inclusão não se limita às pessoas com deficiência (alunos de baixa renda, egressos de EJA, etc).

Ele foi matriculado no 2º semestre, vai aproveitar os resultados da outra faculdade. As aulas começaram na última 5ª feira.

Curiosamente, a matéria das 5as feira é Educação Inclusiva.

É um recomeço, faz parte do jogo, mas ele mantém sua meta inabalável: vai ser um professor.

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Xiita aniversariante - Maria Teresa Égler Mantoan


O que é inclusão?

É a nossa capacidade de entender e reconhecer o outro e, assim, ter o privilégio de conviver e compartilhar com pessoas diferentes de nós. A educação inclusiva acolhe todas as pessoas, sem exceção. É para o estudante com deficiência física, para os que têm comprometimento mental, para os superdotados, para todas as minorias e para a criança que é discriminada por qualquer outro motivo. Costumo dizer que estar junto é se aglomerar no cinema, no ônibus e até na sala de aula com pessoas que não conhecemos. Já inclusão é estar com, é interagir com o outro.

Que benefícios a inclusão traz a alunos e professores?

A escola tem que ser o reflexo da vida do lado de fora. O grande ganho, para todos, é viver a experiência da diferença. Se os estudantes não passam por isso na infância, mais tarde terão muita dificuldade de vencer os preconceitos. A inclusão possibilita aos que são discriminados pela deficiência, pela classe social ou pela cor que, por direito, ocupem o seu espaço na sociedade. Se isso não ocorrer, essas pessoas serão sempre dependentes e terão uma vida cidadã pela metade. Você não pode ter um lugar no mundo sem considerar o do outro, valorizando o que ele é e o que ele pode ser. Além disso, para nós, professores, o maior ganho está em garantir a todos o direito à educação.

Como está a inclusão no Brasil hoje?

Estamos caminhando devagar. O maior problema é que as redes de ensino e as escolas não cumprem a lei. A nossa Constituição garante desde 1988 o acesso de todos ao Ensino Fundamental, sendo que alunos com necessidades especiais devem receber atendimento especializado preferencialmente na escola , que não substitui o ensino regular. Há outra questão, um movimento de resistência que tenta impedir a inclusão de caminhar: a força corporativa de instituições especializadas, principalmente em deficiência mental. Muita gente continua acreditando que o melhor é excluir, manter as crianças em escolas especiais, que dão ensino adaptado. Mas já avançamos. Hoje todo mundo sabe que elas têm o direito de ir para a escola regular. Estamos num processo de conscientização.

Maria Teresa Égler Mantoan é professora da faculdade de educação da Unicamp.

Descrição da imagem : foto da Profa Mantoan

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Aos professores

“Sou professor a favor da decência contra o despudor, a favor da liberdade contra
o autoritarismo, da autoridade contra a licenciosidade, da democracia contra a
ditadura de direita ou de esquerda.
Sou professor a favor da luta constante contra qualquer forma de discriminação,
contra a dominação econômica dos indivíduos ou das classes sociais.
Sou professor contra a ordem capitalista vigente que inventou esta aberração: a
miséria na fartura.
Sou professor a favor da esperança que me anima apesar de tudo.
Sou professor contra o desengano que me consome e imobiliza.
Sou professor a favor da boniteza de minha própria prática, boniteza que dela
some se não cuido do saber que devo ensinar, se não brigo por este saber, se não
luto pelas condições materiais necessárias sem as quais meu corpo descuidado,
corre o risco de se amofinar e já não ser testemunho que deve ser de lutador
pertinaz, que cansa mas não desiste”.
(Paulo Freire)


Ser professor não deve ser fácil. É preciso ter coragem de enfrentar o mundo, lutar contra as pressões dos alunos, dos pais dos diretores; contra a tensão dos três empregos mal remunerados; contra a falta de tempo para se dedicar mais a cada um dos alunos.

É um exercício diário e estafante de formar pessoas, formar gerações. E essa não é uma responsabilidade que seja leve aos ombros de ninguém, saber que vai formar para manter tudo como está ou para transformar o mundo.

É trabalhar sabendo os limites de cada um ( e a falta de limites de tantos outros) e fazer com que todos sejam ultrapassados. É sonhar sonhos possíveis e impossíveis.

É acreditar que o saber não tem proprietário. Que o conhecimento não tem classe social. Que a cultura não tem fronteiras.

E, ao mesmo tempo, saber-se limitado, humano, falível. Capaz de chorar e rir, de acariciar e esbravejar.

Aos professores que realmente acreditam nos seres humanos, os meus parabéns. Aqueles que não acreditam, meus votos de que, em breve, encontrem sua verdadeira vocação.

E que, cada um, à sua maneira, ajude a construir um mundo melhor.

Descrição da imagem: foto minha, aos 7 anos com Dona Dulce, minha professora do 1o. ano primário na festa de entrega do primeiro livro.

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Mais pior de ruim

Conversa típica de bar, mas também pode ser na cozinha de qualquer casa quando a família se reúne.

Basta alguém contar um "causo" qualquer para outro, logo em seguida, contar algo do mesmo estilo que seja melhor ou maior. Alguém conheceu um homem que pesava 120kg? Isso não é nada, o colega ao lado ou a prima já conheceram um de 150kg.

Quando o causo é alguma coisa ruim ou alguma desgraça, sempre vai ter alguém com a história de uma tragédia maior. Vence sempre o "mais pior de ruim". Faz parte da natureza humana ser o vencedor nas glórias ou nas desgraças.

Na comunidade que cerca as pessoas com deficiência não é diferente. A deficiência do meu filho sempre será mais grave que a do vizinho. O menino com dificuldade de aprendizagem de um professor sempre será muito mais complicado que o do outro.

Nesse caso, a vitória está com quem sofre mais por sua situação. Sua vida é difícil? A minha é muito pior.

Claro que isso embute uma estratégia muito conveniente, seja para os pais, seja para os professores.

Quando a inclusão daquela criança muito problemática funciona, pais e professores podem cantar suas glórias de como superaram uma situação tão adversa quanto as suas.

Quando não funciona, sempre estão protegidos pela comiseração que provocaram em relação a si mesmos. Se foram derrotados é porque as circunstâncias eram complexas demais para qualquer pessoa.

Dificilmente a gente ouve alguém dizer que não acha sua vida difícil. Que o desafio que tem pela frente é superável e, caso não consiga fazer algo, que não existe ninguém para culpar além dele mesmo.

É mais fácil se livrar de qualquer responsabilidade quando se erra e receber os louros quando se acerta.

Enquanto trabalharmos a inclusão de pessoas com deficiência como um fardo insuportável de carregar nunca chegaremos a lugar nenhum.

Continua sendo uma questão de atitude.

Descrição da imagem: cartoon onde uma escova de dentes diz: "às vezes acho que tenho o pior emprego do mundo", ao que um rolode papel higiênico responde: "cê que pensa..."

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Inclusão queimada

Dois fatos me chamaram a atenção na semana que passou. O primeiro foi relatado pela Rosangela Gera, contando que a Laurinha (sua filha que é cega) foi excluída de um jogo de queimada durante a aula de educação física na escola. O outro aconteceu aqui em casa, quando perguntei à minha filha o que tinham feito na educação física, e ela, com uma cara de desgosto, respondeu: teve queimada.

A Laurinha não pode participar do jogo de queimada, pois não vê quem detém ou onde está a bola. Minha filha não aguenta mais jogar queimada a cada aula de educação física e faz o possível para ser eliminada do jogo o mais rapidamente possível. O que não deixa de ser uma forma de auto exclusão.

Não sei exatamente o que se aprende nas faculdades de educação física desse país, mas imagino que, ao contrário do que acontece nas escolas, não deve ser somente as regras do jogo de queimada.Até entendo que é uma brincadeira que facilita a vida dos professores, não é necessária uma quadra, basta um terreno plano e uma bola. Também entendo que é um jogo que estimula a rapidez de movimento, a destreza, domínio e cooperação.

Mas será que os professores não percebem que não é um jogo adequado para todo mundo? (e nem estou me referindo somente às crianças com deficiência). Será que não reparam que as crianças se entendiam com o jogo depois de anos fazendo a mesma coisa? Ah sim... reparo que existe criatividade nesse campo. Algumas vezes jogam queimada de 3 bolas. Muito original.

Tirando o enfado das crianças sem deficiência, o que fazer então com aquelas que tem deficiência?

A essa altura do campeonato (para usar um termo esportivo), não é possível que os profesores de educação física nunca tenham ouvido falar em inclusão. Também não deixa de ser verdade que, assim comos muitos outros educadores, ainda estão arraigados a práticas pseudo educativas cheias de preconceitos e focadas nas incapacidades das crianças (modelo deficitário).

Partem do princípio que as pessoas com deficiência são seres subnormais portanto deveriam ser encaminhadas para classes especiais, um tipo de segunda (ou será terceira) divisão da educação. Para que esse modelo caritativo não soe tão feio usam nomes como jogos especiais, paradesporto. Estão apenas dizendo que a criança não cabe no mesmo espaço das demais que podem ser atletas competitivos.

Esquecem que educação física é, antes de mais nada, educação. "As necessidades básicas das pessoas com deficiência são o reconhecimento e o direito de serem atendidas adequadamente. Eles têm os mesmos direitos que o resto das crianças: manipular, conhecer, experimentar, brincar, relacionar-se, sentir, emocionar-se, desfrutar, rir...viver. Não estamos falando de caridade: estamos falando de direitos de pessoas".*

Claro que as atividades esportivas precisam ter algum objetivo além de escapar das boladas do adversário. Da mesma forma que um objetivo em educação física não é aquele que só é alcançado no jogo final de uma competição. Aliás, nem acredito que a educação física se limite a jogos competitivos, que seja apenas vencer quem está do outro lado. Por que é preciso existirem vencedores e perdedores? Será que não existem atividades físicas que desenvolvam um modelo cooperativo? Será que nenhum professor de educação física nunca pensou nisso?

Para isso é preciso olhar o mundo com outros olhos, não basta aplicar fórmulas prontas ou dividir os times para o jogo de queimada. É preciso ver todas as crianças como detentoras de direitos, inclusive o de participar da educação física. É preciso fazer com que a educação seja prazeirosa.

Nesse o momento, não existirão mais exclusões, nem das pessoas com deficiência, nem das que não tem deficiência. E a educação física será, de fato, educação de qualidade para todos.

*Melero, Miguel Lopez. A Educação Física e as Pessoas com Deficiência: Outro Modo de Culturização Para a Melhora da Qualidade de Vida

Descrição da imagem: desenho de crianças jogando queimada, um jogo onde uns tentam acertar uma bola nos demais.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Síndrome de apud

Alguns autores não costumam ser fáceis de ler. Outros, apesar de não serem tão difíceis, tem o inconveniente dos seus livros, há muito, terem desaparecido das livrarias. Nosso modelo de distribuição comercial editorial não lhes dá vida muito longa nas prateleiras.

O que não quer dizer que todos os autores importantes estejam esgotados ou fora de catálogo, uma busca simples nos sites das nossas livrarias me direcionou para mais de 10 títulos originais de Paulo Freire, outros tantos de Vigotski (em várias línguas, inclusive português). Poderia ter procurado Maturana, Piaget, Morin e os resultados não seriam muito diferentes.

Isso não significa que as pessoas que dizem seguir as teorias de qualquer um deles efetivamente os tenham lido. O que chega a ser assustador.

Não poucas vezes me defrontei com pessoas, que se arvoram em doutores da sabedoria inclusiva, cujo único conhecimento de Paulo Freire são algumas citações famosas que circulam na Internet em arquivos piegas de powerpoint. Em outros casos, vigotskianos que jamais chegaram perto dos Fundamentos da Defectologia, mas conhecem o autor através da citação da citação da citação. Freud continua sendo o responsável por explicar tudo, desde que não seja necessário ler Totem e Tabu, nem a Interpretação dos sonhos.

Eu costumo me referir a essa prática como síndrome de apud, uma palavra latina usada quando se faz uma citação de segunda mão, isto é, a citação de uma citação. Em outras palavras, ela se refere à transcrição ou paráfrase de uma frase ou um trecho de que só tomamos conhecimento no livro de outro autor. Ou seja, é uma declaração de que o original não foi lido por quem o menciona.

Você lembra da brincadeira do telefone sem fio? Que conta um conto aumenta (ou diminui) muitos contos? É o que está acontecendo entre os nossos especialistas. Na educação, que eu acompanho mais de perto, a síndrome de apud é onipresente, e o que chega na ponta, onde se educam as crianças, é a versão da leitura da interpretação da análise crítica requentada por apostilas.

Os grandes nomes da educação são tão relativizados que chegam a gerar monstros como o "método piagetiano", coisa que o suiço jamais criou. Isso sem contar as escolas que alfabetizam pelo método "Emília Ferreiro" (tenho certeza que ela nunca ganhou um centavo de direito pseudo-autoral por isso).

As causas da síndrome são bastante claras. É mais cômodo ler um livro resumindo o pensamento de um autor do que entender o que ele realmente queria dizer. Ler e pensar são atividades cansativas que podem ser substituídas por manuais com tópicos simplificados. É mais fácil transformar um posicionamento filófico em receita de bolo do que entender um pensador e cotejar seus ensinamentos com a realidade.

As editoras, que não são bobas, há tempo perceberam que o mercado da teoria digerida dá muito dinheiro. Se existem 10 livros publicados de Paulo Freire, devem existir 50 transformando Paulo Freire em leitura leve. Costumam ter títulos como "Fulano de tal: uma iniciação". "Entendendo Beltrana", ou os clássicos "7 passos para entender Sicrano".

Eu não sei se a síndrome tem solução. Nossa formação de profissionais é cada vez mais utilitária e menos reflexiva. Provavelmente as próximas gerações só saberão que Freud, Vigotski ou Morin escreveram livros pois esse serão mencionados em suas biografias na wikipedia. E todo conhecimento a respeito deles se limitará a antologias de frases famosas.

Descrição da imagem: foto de Paulo Freire.

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Toda loira é burra.

Tinha certeza que você viria aqui para ler que asneira eu poderia ter escrito com esse título. Antes que que me apedrejem eu já aviso que não acredito na afirmação do título, não me consta que a cor dos cabelos (naturais ou artificiais) influenciem sinapses.

Mas é assim mesmo que o mundo funciona, as pessoas adoram fazer generalizações, seja para aparecerem, seja para fomentarem polêmicas, ou , simplesmente porque não sabem raciocinar de outra forma.

E não sabem raciocinar de outra forma, pois foram educadas a ver pessoas como massas homogêneas a partir de determinadas características, geralmente físicas. Isso é resultado da crença quase dogmática no determinismo biológico ( a idéia de que tudo na vida é resultado das nossas condições genéticas).

Por esse raciocínio toda pessoa gorda é bem humorada. Todo baixinho é autoritário. Todo negro tem grande força muscular (sim, muita gente ainda pensa em escravos). Todo japonês é esforçado. Todo italiano é romântico.

Apesar dessa origem, as generalizações há muito deixaram de ser apenas sobre tipos físicos e se espalham por todas as categorias de pessoas que possam ser agrupadas. E aí começam as generalizações por formação acadêmica, por profissão, por tipo de hobby que tenha.

O maior problema é que são justamente essas generalizações que fazem com que tratemos as pessoas como se fossem um grande pastiche onde todos reagem da mesma forma. A começar da nossa educação.

Toda vez que faço palestra para professores peço que eles me falem das suas classes homogêneas. Sempre me dizem que classe homogênea não existe.

Bem, se não existe classe homogênea, porque as aulas, o material didático, as avaliações são iguais para todos? Porque os professores ficam tão assustados quando tem algum aluno que fuja ao padrão dessa homogeneidade que eles dizem não existir.

Eu poderia até cometer a insanidade de dizer que todas as escolas são iguais, ou que todos os professores não sabem lidar com a diversidade. Mas seria outra generalização burra.

Felizmente, eu não preciso generalizar aqui. Existem professores e escolas que não são iguais a todas as outras. Nessas, os alunos, tratados como indivíduos, têm aprendido que nem todo mundo é igual, e que a vida é bem mellhor assim.

Descrição da imagem : numa sala de aula com alguns alunos sentados e um deles em pé, a professora diz: Parabéns Joãozinho. Você conseguiu repetir exatamente o mesmo absurdo que eu acabei de ensinar para vocês.

segunda-feira, 6 de abril de 2009

Nossa inclusão cotidiana


Eu adoro falar em seminários, congressos, fóruns. Aliás, quem me conhece, sabe que eu adoro falar.

O que não significa que eu não seja um ótimo ouvinte. Não acredito em ninguém que ache que não tem mais nada a aprender, em qualquer campo do conhecimento.

Nos últimos dias estive em duas situações onde tive a oportunidade de fazer as duas coisas. Uma, no seminário de educação inclusiva que aconteceu durante a Reatech. Outra em dois encontros com professores da EMEI João Paulo II.

Sem nenhum demérito ao primeiro (aliás aprendi muito com o Prof Davi, de Portugal), tenho de reconhecer que aprendi mais no segundo.

Essa EMEI (caso alguém não saiba, significa Escola Municipal de Educação Infantil, que abrange crianças de 3 a 6 anos) está num contexto onde teria tudo para não dar certo. Fica num bairro pobre já nos limites extremos da zona oeste de São Paulo - muita gente já ouviu falar na Parada de Taipas e nunca esteve perto de lá. Funciona em 3 turnos e com classes no limite máximo do número de alunos dessa idade.

Durante quase 5 horas eu conversei com duas turmas de professores, merendeiras, condutores e outros profissionais da escola. Como de hábito falei muito, como de hábito ouvi muitas coisas interessantes - e não existe nada mais interessante do que ouvir como a inclusão acontece na vida real, especialmente onde as situações de exclusão são múltiplas e complexas.

Aprendi, de uma professora, que ela tem um aluno com uma síndrome genética cujo laudo médico dizia que ele não teria possibilidade de fazer um monte de coisas, inclusive de falar. Só que, com ela, o menino fala. E não estava se referindo a simplemente pronunciar uma ou outra palavra esporádica, mas de construir frases, rebater argumentos de forma simples, mas lógica.

De outra professora, com um aluna com um Transtorno Global do Desenvolvimento, que ela, por conta própria, leu tudo que poderia a respeito da deficiência da menina e que até enxerga nela muitas das características apontadas nos livros, mas que nenhuma das receitas de bolo que ela leu funciona, pois a menina não é um produto de confeitaria. O dilema dessa professora nesse momento é: como é que ela convence a mãe da menina a mantê-la numa escola comum (está na última série da EMEI) ao invés de matriculá-la numa instituição segregada.

Fui questionado por uma merendeira a respeito de tratamento diferenciado para as crianças com deficiência. A pergunta era muito simples, mas cheia de conteúdo conceitual : tem um menino que não gosta de bolacha e só quer comer pão. Como ele tem deficiência, eu dou pão para ele... mas e as crianças "normais" que também não gostam de bolacha? Por que eu não posso fazer a mesma coisa? Ou eu dou pão para todos que não gostam de bolacha, ou todos (incluindo a que tem deficiência) ficam sem nada.

Outra pessoa veio me contar de um moleque cujo desenvolvimento, depois que foi para a escola, deu um salto de qualidade que surpreendeu os próprios pais que não acreditavam que ele fosse conseguir fazer ou aprender muita coisa.

Saí de lá com a certeza que, apesar das muitas dificuldades atitudinais, estruturais e financeiras, a inclusão pode acontecer em qualquer lugar, desde que os profissionais envolvidos nessa questão estejam sinceramente interessados em seres humanos. Que estejam abertos à reflexão. E que acreditem que ninguém pode ser abandonado pelo caminho.

Ah...você gostaria de saber o que foi que eu falei? Nada que fosse mais relevante do que o que eu ouvi.

Cheguei em casa bastante cansado, depois desse tempo todo em pé e de enfrentar o trânsito pesado da cidade. Mas hoje eu durmo feliz.

Descrição da imagem: crianças na fila de entrada da EMEI João Paulo II, do bairro de City Jaraguá em São Paulo

domingo, 15 de fevereiro de 2009

Toma que o filho é teu

Esse texto é dedicado à Mônica, à Dulce, à Selene, à Suely, à Lígia, à Priscila, à Karina, professoras do Samuel e de mais duas ou três dezenas de outros alunos junto com ele. À Pat Karst Caminha, à Mara Sartoretto e a todas as demais anônimas que acreditam que inclusão acontece pelas mãos delas, dentro da sala de aula, com todas as crianças.

Assim não dá. Pensam que eu sou de ferro ou que tenho o dom da onipresença. Vou me queixar à secretaria extraordinária de Relações Paternais.

Imaginem só a minha situação. Eu trabalho mais do que a jornada oficial naquilo que é a garantia do meu sustento. Além disso, dou aulas à noite e, não poucas vezes aos sábados. Também tenho outras atividades voluntárias mas, como tal, não posso me queixar delas.

Minha vida já era complexa e eu resolvi casar e, dentro do casamento, tive filhos. Vocês sabem, ter filhos não é uma coisa fácil (fazê-los sim, mas essa é outra história), é preciso cuidar deles, alimentá-los, vestí-los, peregrinar em médicos a cada gripe, brincar e dar educação - a única forma que eu conheço de prepará-los para vida.

E não é que justo na minha classe, digo, na minha casa, veio parar uma criança com deficiência ?!? Tudo bem, já tentaram me convencer que é um anjo (contestei com argumentos teológicos que não é), que isso é excepcional, que pode acontecer em qualquer lugar (se pode acontecer com tanta frequência, então não é exceção) ou de que eu sou um pai especial - imagino que o resto da família seja todo formado de pessoas ordinárias...

Me pergunto sempre : o que é que eu posso fazer por esse alienígena que surgiu na minha vida? Como é que vou dar conta dele e do resto da família?

Tanta gente me falando que é uma questão de atitude, de valorização da diversidade...mas a pimenta não está nos olhos deles.

Imagine só que outro dia meu filho me desobedeceu, brigou com a irmã e, se eu não sou esperto era capaz de jogar areia numa outra criança no playground.

Por isso tenho de bater o pé e reclamar os meus direitos (se ele quiser os dele, ele que se defenda), a partir de agora eu quero me forneçam um "pai auxiliar".

Claro que não pode ser qualquer um, eu quero um pai auxiliar com habilitação de especialista. Senão como é que ele vai poder entender os laudos e as necessidades especiais desse meu filho?

E não me venham com essas coisas de pai de apoio em contraturno. Quero um auxiliar exclusivo para a minha casa.

Um auxiliar que me permita dar a atenção que os filhos sem deficiência precisam, caso contrário eu os estarei excluindo.

Um auxiliar que não deixe que o barco do casamento e dos filhos ordinários naufrague.

Um auxiliar que esteja preparado, pois eu não fui preparado para lidar com essas crianças (nem consegui entender o laudo que falava de CIF não sei o que...). Até fui nuns cursos de formação, mas achei tudo uma demagogia.

Um auxiliar que entenda técnicamente da síndrome do meu filho, afinal, deve existir uma paternologia específica para cada cromossomo que ele tem a mais.

Mas um auxiliar que não esqueça que o pai regente sou eu... senão vai ter encrenca.

Quando é que vão entender que pai comum lida com filho comum? Que os especialistas cuidem dos especiais. Ele são tão estranhos, não é mesmo ?

Que as faculdades comecem a preparar os futuros pais para essa realidade, agora, nós pais mais antigos não merecemos essa árdua missão, a menos que estejam querendo me castigar pelos meus pecados.

Que a secretaria paternal crie leis, decretos, normas e portarias que garantam o fornecimento gratuito de pais especialistas como auxiliares de todos os pais comuns e, de preferência ainda me pague um extra pela dor de cabeça.

Ou, pelo menos, que me expliquem como é que tem outros pais por aí que estão dando conta do recado.

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Tales sunt hominum mentes

Joana sempre foi uma professora que buscou a modernidade. Por isso, apesar dos seus muitos anos de prática pedagógica, nunca deixou de estudar, aliás, como fazem todos os bons profissionais.

Extensão, capacitação e pós-graduação eram palavras que sempre estavam em seu vocabulário, pois sempre estava em alguma atividade desse gênero. Além disso era assinante das principais publicações sobre educação e a internet parecia ter completados todos os seus sonhos de consumo de informação.

Ultimamente, porém, os seus filhos e o seu marido começaram a ficar preocupados. De um momento para outro ela dera para falar de uma forma que nenhum deles mais entendia.

Tudo começou quando, um dia, chegou em casa dizendo que precisava fazer uma avaliação formativa das significações imaginárias dos membros da família. Segundo ela, considerando que tinha uma turma heterogênea era preciso levantar o conhecimento prévio para promover o encontro de pares.

No começo ninguém deu muita bola para os seus excessos verborrágicos, depois começaram a ficar sérios. Falou para filha que o namorado não desenvolvia a criatividade a partir da readequação dos olhares.

Reclamou com a empregada que aquela percepção desafiadora opositiva poderia aumentar a auto estima, mas não se coadunava com seu contexto psicossocial.

Recomendou ao filho que era mister que ele trabalhasse a interdisciplinariedade com seus colegas de MSN, uma forma inequívoca de formar cidadãos com uma ferramenta onde ele poderia aprender brincando, a partir do interesse dos seus coetâneos.

Chegou ao cúmulo de dizer ao marido que ele tinha abandonado a construção de saberes por não focar na realidade conjugal, que ele precisava romper com os seus paradigmas e adquirir novas representações sociais dentro de uma cosmovisão multidisciplinar.

A família desistiu no dia em que, em frente ao fogão, preparando a farofa, ela declarou que, a partir daquele dia ela não iria mais internalizar seus desafios. Que seus novos critérios de diagnóstico a respeito da farinha de mandioca não permitiam que ela publicizasse suas conquistas, precisava de uma reconceitualização.

O marido foi embora. Os filhos aguentaram menos de um mês e foram atrás do pai. Joana passou a dizer para todo mundo que fora vítima de um conflito de discurso.

Descrição da imagem : pintura chamada Labirinto, onde se vê uma mulher por dentro e por fora e, internamente pessoas perdidas dentro do labirinto do seu corpo

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

A educação não usa iPhone

Eu também tenho mais de 20 anos de experiência em educação especial, a diferença é que eu prefiro olhar para o futuro e não para o passado. (Profa Maria Teresa Égler Mantoan)

Experimente perguntar a qualquer pessoa se ela gostaria de ter um iPhone. Com mais ou menos vibração, todos querem ter um. Afinal é um modelo de telefone celular bonito e, principalmente, totalmente inovador, especialmente na sua interface que dispensa teclados e botões, tudo é feito tocando-se diretamente na tela do aparelho.

Eu não tenho idade para ter usado os telefones de manivela, mas usei aqueles antigos e pesados telefones pretos de disco (por isso, até hoje usamos o verbo discar quando nos referimos a fazer uma ligação telefônica, o que é incompreensível para as novas gerações) Com o tempo eles passaram a ser mais leves, ainda com os discos, depois apareceram os primeiros telefones de teclas, que usamos até hoje. Também rudimentares nos seus primórdios, foram evoluindo rapidamente para os modelos modernos da atualidade.

Mas não foi só a interface que melhorou. A telefonia avançou em qualidade, em processo (lembra quando precisava pedir à telefonista para fazer um interurbano?) e em serviços (hoje usamos nossos aparelhos para transmitir muito mais do que apenas voz.

Como em todo o desenvolvimento técnico e conceitual, nunca teríamos atingido o nível de sofisticação do iPhone sem ter passado pelos passos anteriores. Aprendemos, pensamos mais longe e evoluímos. Exceto colecionadores, duvido que alguém quisesse trocar seu smart-phone por um telefone de manivela ou de disco. Seja por uma questão prática, seja por aparência e status.

Exceto na educação.

As escolas acham que avanço tecnológico é trocar quadro negro e giz por quadro branco e caneta hidrográfica. Melhorar processos é mandar o boletim por e-mail ou fazer avaliações no computador. Oferecer mais serviço é só aumentar volume de conteúdo.

O que realmente importa, ou seja, a prática pedagógica, com raras exceções, continua no tempo da manivela. Pior, ninguém quer mudar. Mudança é coisa aterradora – para todos nós. Nossos corpos são desenhados para buscar "homeostasis" – equilíbrio. Mudanças nos afligem. Isso mete medo. Isso é imprevisível, já preveniam Marsha Forest e Jack Pearpoint no seu texto "Inclusão, tem tudo a ver com mudança!

Mas não são só as escolas, de forma institucional, que preferem discar a tocar. Professores defendem a longa história passada como o padrão de qualidade para o presente e o futuro. E continuam ensinando exatamente da mesma forma. Para eles o mundo não mudou. As crianças continuam as mesmas e aprendem do mesmo jeito (mesmo que sejam como a minha filha que, com 7 anos, faz buscas no Google quando tem dúvidas).

Fora da escola, nada muito diferente. Os pais acreditam que escola boa era aquela do passado (a mesma que eles odiavam quando eram crianças) que despeja matéria, avalia de forma surreal e reprova bastante gente. A escola de poucos privilegiados, quem não acompanhe que seja eliminado do processo educativo.

Essa escola seletiva valoriza mais a capacidade dos que os processos; os agrupamentos homogêneos do que os heterogêneos, prefere as escolas dos diferentes à escola das diferenças (como nos ensina a Profa Mantoan); a competitividade do que a cooperação; o individualismo do que a aprendizagem solidária; os modelos fechados, rígidos e inflexíveis do que os projetos educativos abertos, compreensivos e transformadores; apóia-se em desenvolver habilidades e destrezas e não conteúdos culturais e vivenciais como instrumentos para adquirir e desenvolver estratégias que lhes permitam resolver os problemas da vida cotidiana.

Aí é que a inclusão entra como o iPhone da Educação. Porque inclusão de verdade não é aquela que simplesmente coloca para dentro da escola as pessoas com deficiência, mas aquela que, na presença de pessoas com deficiência, descobre que o que precisa mudar é toda a educação.

A escola inclusiva é aquela onde o modelo educativo subverte essa lógica e pretende, em primeiro lugar, estabelecer ligações cognitivas entre os alunos e o currículo, para que adquiram e desenvolvam estratégias que lhes permitam resolver problemas da vida cotidiana e que lhes preparem para aproveitar as oportunidades que a vida lhes ofereça. Às vezes, essas oportunidades lhes serão dadas mas, na maioria das vezes, terão que ser construídas e, nessa construção,os educandos têm que participar ativamente.

Inclusão exige ruptura nos sistemas. Muda a pedagogia que passa a ser pensada na diversidade. Muda o currículo, diferentemente de adaptar conteúdos para alguns, repensa o currículo para atender a todos. Muda a avaliação que passa a se concentrar em quanto cada um evoluiu em relação ao que sabia anteriomente, ao invés de medir as pessoas por réguas padronizadas.

Alguém poderia alegar que precisamos de um Steve Jobs da educação. Não precisamos, temos vários cujas propostas ainda nem foram usadas (Vygotsky, Paulo Freire, Morin, Maturana, só para citar os mais famosos). Alguns já morreram há quase um século e ainda não foram totalmente descobertos.

Para isso, é preciso que alunos, pais, professores e escolas briguem nas "lojas" para conseguir o seu iPhone educacional.

Até que isso aconteça, pode continuar girando a manivela.


Descrição das imagens

Topo : Steve Jobs, presidente da Apple, no lançamento mundial do iPhone

Rodapé : Graham Bell, inventor do telefone, demonstrando a sua invenção

terça-feira, 16 de setembro de 2008

Xiita Convidado - Paulo Freire e a inclusão

Gil Pena*

Estranho o desmerecimento ao Paulo Freire. Só possível dentro da lógica da Revista Veja. Em geral, não a leio; apenas quando alertado por alguém de algum absurdo mais evidente, é que procuro saber o que a Revista fez.

Paulo Freire é um educador respeitadíssimo no mundo. Sugerir que sua obra se refere a doutrinação de esquerda é no mínimo estranho. Sua obra (e creio sua vida) está toda dirigida a construção da pessoa, sua inserção no mundo como sujeito. A percepção do humano como ser dialógico é uma contribuição muito além da fronteira política ou partidária.

Não encontrei ainda em seus escritos uma consideração sobre a educação inclusiva, pois seus textos tratam de Educação, e a Educação é aquela que inclui o outro. Sua proposição de transformar o mundo por meio do diálogo é uma maneira de lutar pela inclusão. Acho que como início, todos deveríamos ler A pedagogia do oprimido, para buscar entender como nos fazem entender o nosso lugar no mundo e como construindo-nos sujeitos da história, trabalhar para transformar essa realidade.

Vou me permitir reviver um texto mais antigo, onde procuro situar como podemos entender a inclusão e a diversidade a partir da leitura de Paulo Freire.

Fiquei com a incumbência de falar sobre a inclusão e a visão da diversidade na concepção de Paulo Freire(!) Bem, não li tudo de Paulo Freire (aliás, bem pouco) e não encontrei exatamente uma alusão à inclusão ou a diversidade. Embora não necessariamente dirigido a essa luta, contudo, há muito a aprender com Paulo Freire nesse campo, muito embora o aprendizado que se faça de seu escrito possa estar muito além das palavras e frases.

Ler, como diz o próprio Paulo Freire, é coisa séria, e o leitor deve ler criticamente, reescrevendo o que o autor escreveu.

Numa reescrita, eu diria que a diversidade é uma luta pelo respeito e igualdade de direitos a diferentes grupos de pessoas, que se encontram marginalizados na conjuntura atual. Esses grupos marginalizados, são domesticados, silenciados e inferiorizados pelo grupo dominante. Ao aceitarem a visão imposta pelo grupo dominante, esses próprios grupos marginalizados incorporam os valores outorgados por esse grupo, e se vêem e se constroem como pessoas inferiores.

Na ruptura desse processo de dominação, os grupos marginalizados têm de desenvolver a consciência crítica, e entender o por que de as coisas estarem sendo dessa maneira, e trabalhar para mudar o jeito em que as coisas estão. Nesse trabalho, as lideranças e as pessoas marginalizadas trabalham no sentido de resgatar a própria cultura, construída a partir da realidade em que estão inseridos. É preciso romper com a educação bancária, em que o conteúdo é depositado no aprendiz, que passivamente o aceita como é. Na visão de Freire, o educando, em conjunto com o educador, tem de ativamente reconstruir o conhecimento, a luz de sua própria realidade, de modo que esse conhecimento seja objeto de sua avaliação crítica, e contribua para a sua releitura do mundo.

Acontece, que o grupo dominante, quer que as coisas continuem como estão e haverá resistência às mudanças, de modo que esse processo gera conflitos. Nesse sentido, o texto de Freire propõe uma ação cultural para a libertação, em oposição à cultura vigente, imposta pelas classes dominantes.

E por onde passaria a inclusão? Aí a discussão é complexa, porque enquanto grupo dominado, queremos ser 'aceitos' e participar do grupo dominante. É preciso desvelar com calma e profundidade essa realidade. Até que ponto, estamos assimilando a cultura dominadora, até que ponto queremos romper com essa cultura? Até que ponto o grupo dominante nos oferece algum espaço, onde possamos estar inseridos, mesmo como política de silenciar a população excluída.
De Paulo Freire a Habermas e de novo em Paulo Freire, diria que o movimento inclusivo trabalha em ações estratégicas, em que se objetiva algum êxito. O grupo dominante, para manter as coisas como estão, também faz uso das ações estratégicas e administra pequenas concessões, muitas vezes dando ganho não à população excluída, mas às suas lideranças, que desse modo se isolam do movimento inclusivo, no sentido da comunhão que deveriam ter com a população excluída.

O processo de mudança passa pela ação cultural. Não haverá inclusão verdadeira, se lideranças do movimento e a população excluída não trabalharem em comunhão nessa ação cultural. As pessoas ditas com deficiência têm de estar inseridas no movimento e a ação cultural também age no sentido de dar voz a elas, rompendo o silêncio em que estão imersas.

*Gil Pena é médico patologista e pai. Dedica-se a estudos na área da educação, dentro da linha do Projeto Roma.

Descrição da imagem : cartoon de Paulo Freire ensinando numa sala de aula um grupo de adultos a escrever a palavra Povo.

segunda-feira, 14 de julho de 2008

Xiita Convidada - Preparar para incluir


Vilma A. de Mello*

Preparando para incluir:

Freqüência ligada, contadores acertados, começa a contagem regressiva...
5,4,3, 2, 1 e...Opa! Para! Que o professor é irresponsável!
Novamente:
5, 4, 3, 2, 1 e... Opa! Para! Que o pai não está participando!
Mais uma vez:
5, 4, 3, 2,1 e....Opa ! Para! Que a escola não está preparada!
Outra vez:
5, 4, 3, 2,1e... Opa! Para que é o aluno que não está preparado!
Só mais uma vez, acho que agora está tudo certo:
5, 4, 3, 2, 1 e... Opa! Para tem algo errado nessa lei, precisamos consultar o advogado!

Vamos fazer um intervalo para os ajustes:

1, 2, 3,4 e, Vão os professores se prepararem!
1, 2, 3,4 e, Vão os pais para dar aquela força!
1, 2, 3,4 e, Vão as autoridades prepararem as escolas!
1, 2, 3,4 e, Vão respeitar esse aluno!
1, 2, 3,4 e, Vão cumprir a lei!

Parece que ainda não está legal, está faltando alguma coisa..., ou sobrando...Vamos ver:

Meu entendimento sobre inclusão é muito simples, nem dá para comparar a mandar foguetes para o espaço, até porque geralmente mandam foguetes para o alto, na vertical, e inclusão é uma relação horizontal, é olhar para o lado e ver seu semelhante nem igual e nem diferente, mas apenas um ser humano.

Mesmo que professores se preparem, mesmo que os pais estejam apoiando, mesmo que o governo dê condições físicas nas escolas, mesmo que as leis ditem a inclusão, ela jamais sairá do papel se nós enquanto sociedade não colocarmos as pessoas com deficiência em nosso meio, igual em direitos e deveres. Inclusão não deve ser por abrigação, nem com hora marcada, inclusão deve ser um hábito, que não depende apenas de condições externas, mas principalmente da nossa prática diária de incluir.

*Vilma A. de Mello é estudante de pedagogia na Universidade Norte do Paraná- UNOPAR e mãe de uma criança com Síndrome de Down

Descrição da imagem : foto de uma ampulheta com o tempo se esgotando

quarta-feira, 25 de junho de 2008

A novela, as famílias e as escolas

O fato da novela de maior audiência, do canal de maior audiência da nossa televisão, ter retratado a vida de uma criança com deficiência gerou intensos debates sobre as cenas que ocorreram na mesma. Não há dúvidas que a forma como o tema se conduziu trouxe mais benefícios do que problemas para as pessoas com Síndrome de Down, ainda que tenha gerado uma forma de "adoração" típica de modismos.

Isso não significa que não devemos ter uma leitura crítica a respeito do assunto.

Não podemos esquecer que se trata de uma novela, com todos os componentes próprios desse tipo de dramaturgia : é superficial, afeita aos escândalos e à pieguice e, definitivamente, focada nas classes mais favorecidas. É uma ingenuidade achar que qualquer assunto vá ser tratado da forma que gostaríamos que fosse (e digo, gostaríamos, porque escrevo na condição de pai de um menino com Síndrome de Down). Basta ver que um dos pontos mais importantes na vida das nossas crianças é a estimulação precoce, que foi solenemente ignorada na trama.

No entanto, um efeito colateral me chama mais a atenção no momento, pois sua recorrência nos grupos de discussão parece estar crescendo, que é a relação família e escola. Num dos capítulos, a mãe adotiva da menina identificou que ela estava sendo discriminada (de fato) na escola e partiu para a briga, inclusive com ameaças de utilização de meios legais. Claro que a escola acabou se mobilizando e, como sempre, a corda ameaçou estourar do lado mais fraco (na estrutura escolar) que é a professora.

A partir desse capítulo, pudemos acompanhar o relato de muitos pais e mães que passaram por situações semelhantes ou muito piores. Alguns nem sabiam que podiam recorrer ao Ministério Público em defesa do direto dos seus filhos (na verdade podem até dar queixa na delegacia, pois isso é crime) mas, sempre existe um mas, isso também tem o seu lado perverso, alguns pais estão achando que qualquer falta de atenção com os seus filhos "especiais" é motivo para ameaçar escolas e professores.

Como se a família fosse realmente um ambiente inclusivo....

E não é. Muitos pais de crianças com deficiência discriminam os próprios filhos ao tratá-los de forma absurdamente diferenciada porque o "coitadinho" tem isso ou aquilo....ao permitir que eles sejam os donos do mundo sem noção de limites, a não exigir que eles se desenvolvam porque é mais cômodo mantê-los como bebês (vide a própria novela, onde uma menina de 6 anos fazia as refeições num cadeirão).

Acontece que é próprio da natureza humana jogar a culpa nos outros e, nesse caso, o bode expiatório vai ser a escola. E o bode expiatório da escola é o professor. Nossas famílias, cada vez mais, terceirizam a criação dos filhos, esperam que a escola resolva o "problema" de tirar fraldas, que imponha limites que as crianças não conhecem em casa e até que aprendam a se alimentar de forma saudável (mesmo quando chegam em casa e os pais só comem porcarias).

Uma criança com deficiência não é boba. Ela observa e imita o comportamento dos pais da mesma forma que qualquer outra criança. Esses vão lhe servir de referência durante um bom tempo. Se ela percebe que é tratada de forma condescendente vai se aproveitar da situação, em casa e na escola.

Não vou defender indiscriminadamente as escolas. O padrão da grande maioria destas ainda é de discriminação e de exclusão de todos os seres que podem dar trabalho: pessoas com deficiência, com problemas de comportamento, pobres, em conflito com a lei, abusadas e surradas... a lista de "problemáticos" é imensa, aliás, esses seres humanos, são muito complicados mesmo. O grande objetivo de muitos diretores e professores é escapar dessa "encrenca" chamada inclusão.

Acho que a gente precisa também olhar para dentro das famílias e ver o que acontece antes de jogar a culpa toda na escola....

Seja em casa, seja na escola, nossas crianças não devem ser tratadas como "café com leite"...
Descrição da imagem : foto sobreposta de Regina Duarte e Joana Mocarzel, como personagens da novela Páginas da Vida da TV Globo.

quarta-feira, 11 de junho de 2008

Xiita Convidada - Marcas de professores

É lugar comum que os professores deixam marcas nas nossas vidas. Com esta constatação em mente, rebusquei algumas memórias e aqui estão exemplos de marcas que me ficaram, por experiência directa ou como espectadora, umas positivas, outras nem por isso... Como são vários os exemplos, estarão distribuídos por partes, sendo esta primeira dedicada a situações de avaliação.

1. Tinha-nos sido exigido, como uma das formas de avaliação para aquela disciplina, um vídeo em que simularíamos uma determinada situação profissional, feito aos pares, em que cada um dos elementos passava por dois papéis. A professora marcou um dia para nos dar feedback e o meu entusiasmo crescia à medida que ela ia falando: “estou bastante surpreendida, pela positiva, com a sua prestação”. Na minha mente começava a desenhar-se um 15... “Nunca pensei que uma pessoa com a sua deficiência visual pudesse mostrar tanta presença”. Quem sabe um 16 ou 17... afinal os pares que tinham ido antes de nós anunciavam óptimas classificações. “Saíram-se ambas muito bem, mas estou sobretudo satisfeita com o seu desempenho porque mostrou ter excelentes competências para este tipo de situação”. Será que atingiria o 18? Eu estava deliciada, feliz da vida. “Portanto, por este trabalho formidável, vou dar-lhe um 14, o que para uma pessoa como você é óptimo!”. Fiquei dormente, confusa. Infelizmente não tinha, nessa altura, a tranquilidade e a garra, que são necessárias em situações destas, para me defender. Houve, porém, muitas outras situações em que fui avaliada tal como os meus colegas, com os mesmos critérios e em que os resultados estavam em correspondência com o meu estudo e dedicação.

2. Para que exista igualdade de oportunidades na avaliação, é necessário dar determinadas condições em conformidade com as deficiências apresentadas. Assim, um estudante com deficiência pode necessitar de um período de tempo adicional para responder à sua prova. No Ensino Básico e Secundário, o Plano Educativo Individual (PEI) define o tempo que cada estudante pode utilizar, em função das suas necessidades. Para os exames nacionais, o tempo proposto pela Escola é aprovado pelo júri nacional de exames. No regulamento que prevê várias medidas de apoio relativas à frequência e à avaliação destes estudantes na Universidade do Minho, determina-se que este período de tempo suplementar vai até mais metade do total previsto para a prova.

Vejamos duas situações limite ocorridas com estudantes que apresentam deficiência visual. Um estudante foi informado, na hora da prova, pela professora (com conhecimento da condição de tempo), que ela teria um compromisso na hora prevista para o término da prova de qualquer outro estudante, pelo que ele teria de entregar também a sua prova nessa hora. Trata-se, obviamente, de um claro desrespeito dos direitos deste estudante. Mas que dizer do professor que decidiu que o aluno deveria realizar a sua prova numa sala sem vigilância, dizendo-lhe que poderia gastar o tempo que quisesse, bastava que no final entregasse as respostas a um funcionário, mas que se preferisse, poderia levar a prova para casa e entregar as respostas no dia seguinte? Estamos aqui perante uma permissividade que em nada dignifica estes estudantes, ao assumir-se que o facilitismo é o único caminho para que estas pessoas consigam progredir.

Portanto, sejam dadas condições específicas a quem delas precisa e exija-se o mesmo a todos. Só assim cada um pode mostrar o que vale.

Na primeira parte desta crónica, falei das marcas deixadas pelos professores em situações de avaliação a estudantes com deficiência, debruçando-me agora sobre algumas situações de aula.

1. É mais fácil, para qualquer um de nós, evitarmos uma situação com a qual não sabemos lidar do que procurarmos estratégias para lhe fazer face. Sendo a inclusão escolar de estudantes com deficiência um objectivo que implica iniciativa e trabalho, já soube de alguns professores que mostravam resistência à presença destes estudantes nas suas turmas. Estas reacções vão desde algum receio por não saberem bem como lidar com a situação até a negação explícita de darem aulas aquela turma. Assim foi o caso de um professor do ensino secundário que dizia num conselho de turma: “formei-me para dar esta disciplina, há vinte anos que a ensino e não tenho nada a ver com esses problemas da deficiência. Portanto, não é agora que me vão obrigar a trabalhar com deficientes nas minhas aulas”. Quão diferente é esta postura em relação com aquela de professores que perguntam aos próprios alunos, aos pais destes ou aos técnicos que lhes dão algum acompanhamento, como devem fazer para resolver uma ou outra dificuldade. Uma pergunta tão simples como esta faz que o estudante sinta que existe preocupação para com a sua situação particular e abertura para encontrar alternativas. É evidente que os próprios estudantes têm de ser também interessados e participativos de modo a reforçarem todo o trabalho e dedicação dos professores.

2. É compreensível que numa turma com muitos alunos, um professor se esqueça de usar todas as estratégias que lhe são recomendadas para a inclusão de determinado estudante. O que não se compreende é a ignorância propositada das necessidades visíveis. Numa aula de língua estrangeira, o aluno cego perguntou à professora como se escrevia o nome que acabava de dizer. A resposta foi imediata “está no quadro”. A experiência que passo agora a relatar é um excelente exemplo de uma atitude inclusiva. Tinha-me inscrito naquela disciplina por opção. No fim de uma aula, a professora disse-me que, na próxima, iríamos ver um vídeo e perguntou-me se me importaria que ela trouxesse uma gravação em cassete áudio (naquela altura os mp3 não estavam massificados), com a descrição do filme. Tal sugestão pareceu-me quase irrealista, tantas as vezes em que foram passados vídeos nas aulas e nenhuma vez aquela em que os professores se haviam preocupado muito com a minha presença ali, no máximo, lamentarem eu não poder vê-lo e sugerirem que pedisse a um colega para mo descrever, ou simplesmente dispensarem-me da aula. Assim, pensei com os meus botões se aquela ideia não seria apenas uma boa intenção sem consequências. Na aula seguinte, muni-me de leitor de cassetes e de auscultadores, mas estava já a preparar-me para uma sessão de divagação pessoal, caso a cassete não viesse. Enganei-me, felizmente. No amontoado de cassetes áudio que guardo com material escolar, está essa relíquia, gravada com a voz da professora com a descrição de um vídeo que, por uma vez, me foi dado acompanhar em simultâneo com os meus colegas.

3. No livro “Educação Inclusiva – o que o professor tem a ver com isso?”, coordenado por Marta Almeida Gil , é-nos dito que não existem receitas feitas para a inclusão e que as soluções vão sendo construídas, sendo-nos oferecidas muitas dicas e testemunhos de práticas inclusivas. Fica a sugestão.

Para terminar as crónicas dedicadas a marcas deixadas por professores em estudantes com deficiência, ficam algumas reflexões sobre como as expectativas, ou a falta delas, deixam as suas marcas.

1. A deficiência de uma pessoa produz muitas vezes nos outros expectativas ora negativas, ora demasiado positivas face às suas possibilidades de acção. Explicando melhor, ou assume-se como certo que a pessoa não conseguirá realizar a maior parte das actividades, devido a enormes dificuldades que se lhes antecipam, ou acredita-se que o conseguirão por ter características muito especiais, compensatórias, quase geniais, desvalorizando-se as necessidades que derivam de condições físicas ou sensoriais deficitárias. Assim, os professores poderão ter também este tipo de percepções, traduzidas em expectativas negativas ou excessivamente positivas. Ainda recentemente um colega cego contou-me que um professor, tendo conhecimento da sua boa nota num exame de admissão à Licenciatura, minimizava as suas dificuldades, inerentes à cegueira, para aceder à informação, afirmando que certamente ele iria sair-se sempre bem. Uma das coisas que conduz a estas crenças é a projecção que cada um de nós faz quando se imagina com as dificuldades de outro, supondo que para as superar são necessárias competências extraordinárias. Além disso, o facto dos estudantes com deficiência utilizarem tecnologias que são estranhas a muitos professores podem contribuir para esta ideia de que a pessoa é realmente excepcional.

2. Só nos dedicamos verdadeiramente naquilo face ao que temos expectativas positivas. Estas expressam-se num apoio efectivo por parte dos professores, quer através de estratégias pedagógicas flexíveis, de cedência dos materiais de estudo e de avaliação adequados, ou através de um simples estímulo numa palavra de encorajamento.

3. Pior do que a falta de formação específica sobre a temática, a falta de empenho e de imaginação, pior mesmo que tudo é o preconceito, expresso em expectativas negativas, que abalam a auto-estima de qualquer estudante. Exemplo disso são os professores que se perguntam, ou se atrevem mesmo a perguntar ao próprio estudante, o que está ali a fazer, que devia pensar noutra coisa para se ocupar, e que lhe apresentam o veredicto de incompetência perpétua. Quanta mágoa percebi em duas estudantes, utilizadoras de cadeira de rodas devido a paralisias distintas que afectaram a sua motricidade, ao contar-me que a sua professora da escola primária, num caso, e vários professores do Ensino Secundário, no outro, lhes haviam dito que não conseguiriam ir longe. E quanta dor naquela estudante universitária que relatava como uma sua professora a instigava a desistir ou a mudar de curso, alegando que a sua deficiência (note-se, a deficiência, não a competência) era incompatível com o desempenho de futuras funções profissionais.

4. Estas são memórias que ficam gravadas a ferro e fogo e podem servir como estímulo, incentivo, desinvestimento, raiva. Quanto mais vivencio e observo estas situações, mais comprovo que o que os estudantes anseiam é que acreditem neles. Não que os professores acreditem que um estudante com paraplegia ultrapassará qualquer obstáculo físico com boa vontade ou que um estudante com deficiência auditiva acompanhará as aulas sem ser necessária qualquer adaptação pedagógica. Apenas que se acredite nas suas possibilidades de avançar, de crescer. Faço votos que as expectativas realistas e o apoio eficaz ganhem terreno e destronem práticas e crenças destrutivas.


Sandra Estêvão Rodrigues, 34 anos, é psicóloga, trabalha no Gabinete de Apoio ao Estudante com Deficiência da Universidade do Minho em Portugal. É uma pessoa cega.

*Esse texto foi publicado originalmente em crônicas no Jornal Académico da Universidade do Minho

Descrição da imagem : foto de professora ensinando aluno a escrever na lousa

quarta-feira, 30 de abril de 2008

O primeiro passo para uma Educação Inclusiva

Toda criança tem direito à escola. Entretanto, na hora de matricular um filho com deficiência em uma escola regular, o que muitos pais escutam é : "Desculpe, mas não estamos preparados para receber o seu filho". Mas o que, exatamente, significa esse preparo ?

A frase acima está baseada em uma conceituação ultrapassada : a da "reabilitação" ou "integração", segundo a qual caberia à pessoa com deficiência preparar-se para ingressar na sociedade. Esse conceito, surgido após a Segunda Guerra Mundial e que perdura até os dias de hoje, deu origem às escolas e classes especiais. Mas foi posto em discussão no início dos anos 90. Nosso paradigma é outro : é a inclusão, ou seja - é a sociedade que deve se preparar para receber qualquer pessoa."

Questão de atitude

Cabe à escola compreender que todos os alunos tem ritmos de aprendizado diferentes. E o professor precisa criar estratégias pedagógicas para que cada um consiga aprender o que ele quer ensinar. A escola tem de ser de qualidade para todos os alunos, sem distinção. No fundo, o primeiro passo para a inclusão é uma questão de atitude : quero ou não quero receber alunos com deficiência ? Mais que isso, reconheço nessa pessoa com deficiência um ser humano ou a encaro como um subnormal ?

Essa mudança de atitude não acontece de uma hora para outra. É um processo e, como tal, cheio de dificuldades. Mas estas podem ser superadas em conjunto pelo corpo diretivo da escola, professores e pais. Inclusive quanto à avaliação sobre se é necessário algum preparo específico dos educadores e qual seria, em cada caso, essa especialização.

A inclusão de alunos com deficiência em salas regulares não minimiza os cuidados que a criança deve ter de acordo com a sua deficiência. Mas a função principal da escola não é terapêutica, é educacional. Outro aspecto importante é perceber que crianças com a mesma deficiência não são iguais entre si e o professor, portanto, não pode querer seguir receitas prontas.

O papel dos pais

Por fim, a inclusão implica em quebrar, muitas vezes, a resistência apresentada pelas próprias famílias : a criança tem que estar incluída também em casa. Se os pais acham que seu filho é um "coitadinho" , "especial" ou um "anjo", ele sempre será excluído na sociedade.

Quem ganha com isso ?

A proposta da Educação Inclusiva beneficia todos os envolvidos :

As pessoas com deficiência têm a acesso à Educação formal e a perspectiva de uma vida autônoma.

Os demais alunos aprendem que a sociedade é repleta de diversidade e conseguem, assim, adquirir valores de vida melhores.

O terceiro beneficiado é o educador : a presença de uma criança com deficiência na sala de aula, faz com que o professor perceba que tem 30 alunos que são diferentes entre si, e não um que é diferente dos outros, com isso exercita sua capacidade pedagógica e se torna um professor melhor.

Descrição da imagem : Samuel e colegas numa atividade escolar mexendo em um sapo