terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Tales sunt hominum mentes

Joana sempre foi uma professora que buscou a modernidade. Por isso, apesar dos seus muitos anos de prática pedagógica, nunca deixou de estudar, aliás, como fazem todos os bons profissionais.

Extensão, capacitação e pós-graduação eram palavras que sempre estavam em seu vocabulário, pois sempre estava em alguma atividade desse gênero. Além disso era assinante das principais publicações sobre educação e a internet parecia ter completados todos os seus sonhos de consumo de informação.

Ultimamente, porém, os seus filhos e o seu marido começaram a ficar preocupados. De um momento para outro ela dera para falar de uma forma que nenhum deles mais entendia.

Tudo começou quando, um dia, chegou em casa dizendo que precisava fazer uma avaliação formativa das significações imaginárias dos membros da família. Segundo ela, considerando que tinha uma turma heterogênea era preciso levantar o conhecimento prévio para promover o encontro de pares.

No começo ninguém deu muita bola para os seus excessos verborrágicos, depois começaram a ficar sérios. Falou para filha que o namorado não desenvolvia a criatividade a partir da readequação dos olhares.

Reclamou com a empregada que aquela percepção desafiadora opositiva poderia aumentar a auto estima, mas não se coadunava com seu contexto psicossocial.

Recomendou ao filho que era mister que ele trabalhasse a interdisciplinariedade com seus colegas de MSN, uma forma inequívoca de formar cidadãos com uma ferramenta onde ele poderia aprender brincando, a partir do interesse dos seus coetâneos.

Chegou ao cúmulo de dizer ao marido que ele tinha abandonado a construção de saberes por não focar na realidade conjugal, que ele precisava romper com os seus paradigmas e adquirir novas representações sociais dentro de uma cosmovisão multidisciplinar.

A família desistiu no dia em que, em frente ao fogão, preparando a farofa, ela declarou que, a partir daquele dia ela não iria mais internalizar seus desafios. Que seus novos critérios de diagnóstico a respeito da farinha de mandioca não permitiam que ela publicizasse suas conquistas, precisava de uma reconceitualização.

O marido foi embora. Os filhos aguentaram menos de um mês e foram atrás do pai. Joana passou a dizer para todo mundo que fora vítima de um conflito de discurso.

Descrição da imagem : pintura chamada Labirinto, onde se vê uma mulher por dentro e por fora e, internamente pessoas perdidas dentro do labirinto do seu corpo

5 comentários:

Vilma disse...

Paulo Freire deve estar se revirando no túmulo.Na verdade acho que ele nunca teve sossego, o que tem de professor estudando para aumentar a distância entre ele e seus educandos não está no gibi, porque não cabe.

Vilma disse...

Nada contra quem estuda, eu também estudo e pretendo estudar mais, mas não pretendo aumentar distâncias e sim encurtar caminhos.

Arimar disse...

Querido Fábio.
Sou sua leitora compulsiva,mas nem sempre dá tempo de tecer comentários , as vezes escolho um dos textos aleatoriamente e então comento (até de dias anteriores).O de hoje me remeteu a uma aula, onde a professora SÓ falava em "alinhavar".Era tanto "alinhavo",que até parecia convite a um curso de corte-costura.Pensei comigo, na próxima aula ela vai começar a cerzir...
Beijos

Ana Vanícola disse...

Estudar é preciso, mas não quero ficar uma pedaboba....uahahahaha

Será que eu vou ficar assim??? Pq de estudar eu gosto, muito.....

Rita Mendonça disse...

Como sempre, uma "belezura de texto".
Um abraço e bom dia.