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quarta-feira, 17 de junho de 2009

Em direção à Bastilha

Não tem cabimento o pediatra dizer ao educador como ensinar (Dr Fernando Colli - Lugar de Gente)


Lendo o texto da Flávia (pode olhar logo depois desse), os comentários e dúvidas que surgiram, me veio uma questão recorrrente : porque é que as pessoas têm tanta dificuldade em aceitar um mundo em que outras pessoas também possam participar?

Outros eventos reforçaram a minha dúvida. No Fórum de Educação Inclusiva a discussão sobre os livros acessíveis. No telefone, uma mãe me contando que a escola da filha insiste em que ela faça igual aos demais alunos, quando poderia estar aprendendo mais rapidamente com uma tecnologia assistiva.

Eu poderia chegar a uma conclusão simplista e atribuir ao fato de que tudo é uma questão de atitude, o que não deixa de ser uma grande verdade pois, sem atitude, não se dá o primeiro passo rumo à inclusão.

Mas ainda ficaria sem a resposta pois, afinal, o que é que gera esse tipo de atitude? Quais são as intenções e sentimento que erguem essas grandes muralhas que impedem que um veja o outro como um ser humano com o mesmo valor e direitos?

Avento hipóteses.

A primeira delas é a mais cética. Interesse pessoal ou de grupos que detém privilégios. Impedir o acesso a um edifício ou a uma obra cultural impede as pessoas com deficiência de alcançar conhecimento suficiente que as tornem cidadãos críticos da realidade. Uma vez alienados é mais fácil controlá-los e explorá-los através da oferta de óbulos de pseudo-realidade.

Assim dito pode parecer que estou sendo apenas cruel. Quando ouço um familiar dizer que o filho adulto com deficiência está feliz da vida porque trabalha numa cooperativa abrigada (mantida por uma empresa que utiliza a cooperativa como uma forma de trabalho escravo) e ganha um dinheirinho, como se as pessoas pudessem viver uma vida digna apenas com um "dinheirinho", isso deixa de ser uma hipótese e passa a ser uma constatação de quem realmente faz a crueldade.

Claro que essas mesmas pessoas, se tivessem acesso à cultura e ao conhecimento não se prestariam a esse tipo de exploração, o que redundaria em menos lucro para quem as explora.

Digamos que a questão não é só dinheiro. Aí penso numa segunda hipótese : a de que a atitude excludente possa ser falta de foco no que realmente é importante. As pessoas passaram tanto tempo sendo doutrinadas sobre o que é certo e o que é errado, que perderam a noção dos seus reais objetivos.

Qual é a função da escola, alfabetizar ou treinar coordenação motora? Qualquer professor me responderia que é alfabetizar, mas não é o que acontece na prática. Se a escola estivesse preocupada em ensinar a ler e escrever, não faria a menor diferença se o instrumento fosse um lápis, um teclado de computador ou um graveto na areia. Quando insiste no lápis a escola apenas está apenas negando ao aluno o que lhe é de direito, ter acesso ao conhecimento.

A terceira hipótese tem um cunho quase teológico: muitos profissionais, ditos especialistas, se arrogam o direito de serem deuses, de determinar o destino das pessoas (muitas vezes determinam mesmo, condenando-as à miséria), são médicos "renomados" prescrevendo retenção de alunos em determinadas séries, outros vaticinando aos pais que o filho não vai conseguir ir além de determinados limites que eles decretaram. Essa atitude não se restringe à classe médica, mas se estende a muitos terapeutas, diretores ou coordenadores pedagógicos ou quaisquer outras profissões que se considerem estar acima da humanidade.

Claro que essa atitude não está restrita ao contexto escolar. O "deus" da cultura acha que é dono do patrimônio, mesmo quando esse é declarado como sendo de toda a humanidade. O autor ou editor dos livros só quer que esse seja lido pelos seus escolhidos.

Certamente devem existir muitas outras hipóteses, mas todas elas me levam de volta ao mesmo ponto. Enquanto alguns seres humanos acharem que são melhores que outros, as atitudes preconceituosas e discriminatórias reinarão.

A menos que nós tomemos uma atitude marchemos em direção à Bastilha.

Descrição da imagem: quadro retratando a derrubada da Bastilha (uma fortaleza que era usada como prisão) durante a revolução Francesa. No quadro vê-se a fortaleza sendo atacada.

terça-feira, 10 de junho de 2008

Nós não queremos migalhas

...migalhas dormidas do teu pão , raspas e restos me interessam...
(Maior abandonado – Cazuza/Frejat)

O apaixonado Cazuza declarava estar satisfeito apenas com as migalhas que pudessem sobrar da mesa do objeto do seu amor, apenas um pouquinho de atenção seria suficiente para que ele deixasse de ser um maior abandonado, afinal, ter mais do que isso lhe parecia um sonho inatingível.

Infelizmente as minorias excluídas da nossa sociedade demonstram, a cada dia, que as migalhas dos serviços públicos e privados lhes tem sido satisfatórias, depois de tanto tempo sem ter acesso sequer às sobras, tudo que vem é lucro.

Alguns alegam que essa postura é apenas a cautelosa forma de comer a sopa quente pelas bordas, mas será que isso não é apenas conformismo ? Nós, que estamos envolvidos em um movimento que busca a inclusão, não deveríamos aceitar as migalhas do poder, mas dividir o pão com todos.

> Não queremos o favor e a comiseração de transporte público gratuito, queremos ônibus , trens e metrôs que sejam acessíveis a todos.

> Não queremos isenção de impostos, queremos uma distribuição de renda mais justa que permita a todos participarem do mercado de consumo.

> Não queremos cotas que nos concedam vagas em universidades, queremos uma educação de qualidade que nos dê as mesmas chances e oportunidades que as classes privilegiadas.

> Não queremos cotas que obriguem as empresas a nos empregar (coitadinhos de nós...), queremos formação profissional para nos candidatarmos de forma digna aos empregos.

> Não queremos filas especiais, queremos atendimento decente para todos.

> Não queremos educação especial que segregue aqueles que a sociedade prefere fingir que não vê. Queremos uma educação que seja especialmente qualificada para atender cada ser humano.

> Não queremos beneficência. Queremos respeito e acesso aos bens e serviços.

Enquanto continuarmos a pedir migalhas, o máximo que a sociedade vai nos conceder são exatamente elas. Pior, o poder vai continuar acreditando que está nos fazendo um grande favor.

Manter esse discurso é um problema ideológico, por que o que se esconde atrás dessa atitude é a rejeição da diversidade como valor humano e a perpetuação das diferenças entre cidadãos de primeira e segunda classes, ressaltando que suas diferenças são insuperáveis de uma forma determinista e, mesmo que dividam o mesmo ônibus, a mesma mesa e a mesma cadeira, seguem caminhos diferentes e, às vezes, opostos.

Descrição da imagem : cartoon de um pedinte dizendo : "uma esmola pelamordedeus"

quarta-feira, 14 de maio de 2008

Um movimento sem proprietários


Toda relação política é uma relação de poder. Quem tem não quer largar, quem não tem fica o tempo todo tentando pegá-lo.

Não é diferente nos movimentos sociais. Alguns se julgam donos do movimento. Outros querem tomar o brinquedo dos outros.

O movimento pela Ratificação da Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência, que culminou com uma expressiva votação a favor do mesmo, em primeiro turno, na Câmara Federal, mostrou dois lados dessa questão.

Um dos lados é daqueles que procuram se capitalizar com o resultado, como se fossem eles os únicos responsáveis pelo sucesso. São pessoas e organizações que se avocam a posse dos ideais inclusivos. Que fazem questão de auto citar nominalmente em todas as suas manifestações.

Acreditam que, com isso, vão garantir a liderança que acreditam ter. Certamente muitos serão candidatos a algum cargo público e usarão suas próprias notícias para mostrar como são paladinos da justiça e da liberdade.

Quando contrariados se tornam ferozes. No momento em que o movimento andou mais rápido que seus cronogramas alguns ficaram inconformados. Como se os direitos das pessoas só pudesse ser conquistado de acordo com as suas agendas.

Sem contar aqueles que depois de se calarem durante muito tempo apareceram de última hora, quando a vitória já parecia certa, e tentaram agarrar os louros. Heróis só aos seus próprios olhos.
No entanto, o movimento pela ratificação mostrou uma face muito mais valiosa para todos que participaram dela : o poder que existe na participação de todos, como indivíduos ou coletivos.

Espalhados pela internet e pelas calçadas, nos parques e nas feiras, centenas de indivíduos se mobilizaram. Coletaram assinaturas, mandaram mensagens e telefonaram para os deputados, provocaram a mídia, foram para o corpo a corpo com os parlamentares.

Descobriram que são cidadãos e, como tal, não podem ficar esperando que alguém faça alguma coisa por eles. Direitos são conquistados, não caem do céu.

Principalmente, mostraram aqueles que querem assumir a liderança na base da imposição, que esse também é um direito que se conquista com trabalho, não com discurso vazio ou com elogio em boca própria.

A luta não tem donos porque pessoas não têm donos. Esse é o espírito da convenção : que cada um seja valorizado como um ser humano pleno, autônomo e independente.

Luta que continua, temos mais um turno na Câmara e dois no Senado, depois começa a batalha diária para que as regras da Convenção sejam efetivamente implementadas.

Descrição da imagem : desenho mostrando o rosto de diversas pessoas diferentes