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segunda-feira, 15 de setembro de 2025

Discriminando os termos

Muito se fala sobre políticas de diversidade e inclusão e, aqui, gostaria de, antes de mais nada fazer um discriminação, ainda que esse último termo lhe soe esdrúxulo nesse contexto.

Diversidade é algo incontrolável, ela está por todas as partes, basta caminhar pela rua e você estará cercado dela.

Negar a diversidade seria como entrar nos grotões da floresta amazônica e dizer que, para você, é tudo igual, enquanto está cercado do bioma mais diversamente complexo do planeta.

O que não significa que não poucas pessoas rejeitem a diversidade (qualquer diversidade) e procure restringir sua existência a espaços segregados ou, quando isso não é possível, segregar a si próprio para ficar longe dela.

A essa atitude dá-se o nome de exclusão, que pode variar das formas mais sutis, às mais violentas como as tentativas de eliminação de determinados grupos excluídos.

Não é à toa que, em defesa própria, não poucos grupos de excluídos acabem, eles mesmos se auto segregando quando saem em defesa da sua inclusão como grupo. Defender a inclusão de pessoas com as características X, Y ou Z é, na sua raiz, uma forma de segregação.

Por isso que inclusão ainda é um sonho distante em muitos contextos, afinal inclusão de verdade é onde todos participam de tudo com todos os demais. E não a questão de apenas ter o direito de participar, o que não deixa de ser importante, mas onde o cada ser humano seja bem vindo sem condições prévias.

É uma questão de mudança sociocultural que, sabemos, não se constrói da noite para o dia, também nunca se vai construir se não se começarmos.

Enquanto nossas políticas de diversidade e inclusão forem apenas decorrentes de ações afirmativas para grupos específicos (portanto, uma obrigação legal), enquanto não passarem de “greenwashing” corporativo para aparecer na mídia, enquanto forem direcionadas para esse ou aquele público, elas não passarão de uma enganação.

E como esperar isso de uma sociedade cada vez menos preocupada com o coletivo, que todo dia mata um pouco mais a alteridade?

quarta-feira, 15 de janeiro de 2025

Ah... essas generalizações

 



A palavra estereótipo tem origem nas palavras gregas stereos e typos, que significam "impressão sólida". O termo foi criado pelo gráfico francês Firmin Didot em 1794 para se referir a um processo de impressão gráfica que permitia a produção em massa de jornais, revistas e livros. 

O jornalista americano Walter Lippmann foi o primeiro a usar o termo com o sentido psicológico, em 1922. No seu livro Opinião  Pública, Lippmann usou o termo para descrever a forma como as pessoas simplificam e categorizam o mundo e as outras pessoas para facilitar a compreensão. 

 Atualmente, o termo estereótipo é usado para descrever uma ideia ou impressão fixa e generalizada de um grupo de pessoas. Essas representações sociais costumam ser a base de preconceitos e outras crenças sociais.

 Impressão fixa, generalizante é uma prática bastante generalizada (oops!), desde as diferenças mais básicas como as que opõem homens x mulheres, passando pelas de raça e cor (que o diga o comportamento das polícias em relação aos negros)  e, claro, de todas as demais sejam elas representativas ou não.

 Quando trata-se de pessoas com deficiência, a tendência é a de generalizações piedosas e/ou compensatória: “eles são tão amorosos”, “escutam que é uma beleza”, “em compensação são tão inteligentes”, e por aí vai.

 Claro, toda e qualquer generalização, acaba criando barreiras para as pessoas generalizadas e excluindo-as da possibilidade de realizar algo, ou obrigando-as a realizar algo para elas não tenham habilidade ou inclinação.

 Toda vez que você se sentir tentado a começar uma frase com “eles (ou elas) são...” pare e repense o que vai dizer

quinta-feira, 26 de agosto de 2021

O menino que até aprenderia a ler

 


Dezembro de 1998. Nascia o nosso primeiro filho, o Samuel. Logo de cara dois sustos: a síndrome de Down e uma cardiopatia que precisava ser corrigida por cirurgia. É óbvio que ficamos sem chão. Além de pais de primeira viagem, não sabíamos nada a respeito de nenhuma das duas situações. Fomos aprender.

Lembro de duas frases que me marcaram. Uma do geneticista do hospital que disse que eu não deveria entrar em pânico, pois “essas crianças” até aprendem a ler. A outra de um pai de um menino de 9 anos que disse que o Samuel seria aquilo que nós investíssemos nele, e fez questão de ressaltar que não era dinheiro, mas estimulação, atenção e nossa crença de que ele não tinha limites.

O tempo, os contatos e algumas visitas a escolas especiais nos aproximaram da educação inclusiva. Não era uma opção, era o único caminho viável. E mergulhamos sem medo naquilo que ainda era mais uma luta do que uma realidade.

E assim se passaram 22 anos, e o menino que “até iria aprender a ler” hoje se graduou em Pedagogia, para ensinar outras crianças também a ler e escrever.

Não foi superação, não foi heroísmo, não foi milagre.

Foi a convicção de que as pessoas só se desenvolvem no relacionamento com pessoas de todos os tipos.

Foi a cabeça-dura do pai que nunca deixou ele participar de atividades segregadas.

Foi a recusa em lhe dar privilégios e tratamento diferentes do que se daria a qualquer outro filho.

Ele teve algum privilégio? Certamente, e ele sabe disso. Privilégio de nascer em uma casa em que a educação era objetivo essencial. Privilégio de ter uma irmã que nunca deu moleza. Privilégio de contar com excelentes professores no caminho. Privilégio de concluir um curso superior que ainda é apenas um sonho para muitos brasileiros. E até o privilégio de ter enfrentado o preconceito da primeira faculdade onde entrou e aprender muito com isso.

Não vou me arriscar a listar todas as pessoas que contribuíram na construção desse caminho, seria um risco deixar muitos de fora (mas cada um deles sabem quem são), mas apenas mencionar duas pessoas cujos ensinamentos foram essenciais nesse processo: o Prof. Miguel Lopez Melero da Universidade de Málaga, e a Profa. Maria Teresa Mantoan da Unicamp, a quem eu chamo carinhosamente de meu guru e a minha gurua.

Agora começamos uma nova fase, a da busca de trabalho. As regras do jogo, porém, não vão mudar. Todos com todos. Sem segregação. Sem tratamento “especial”, e a expectativa de algum dia não precisar mais falar sobre inclusão.

Descrição da imagem: Samuel, um jovem magro e barbudo, vestido com a beca e o capelo de formando.


segunda-feira, 10 de maio de 2021

Só querer não é poder

 


Muitos dizem que a realidade é volátil, incerta, complexa e ambígua, e é verdade. Outros preferem dizer que é frágil, ansiosa, não linear e incompreensível, e também é verdade. Bradam que a modernidade é líquida (e é), que os sistemas são complexos (e são). Eu costumo dizer que a natureza humana é móvel, insaciável, confusa e obtusa (mundo MICO, aquele que ninguém quer segurar).

Em 1513 Maquiavel já percebera que a “virtú” é poderosa, mas está sempre condicionada à vontade da “fortuna”. Kahneman, no seu “Rápido e Devagar” deixa claro que o sucesso está mais frequentemente ligado à sorte (acaso) do que ao mérito.

Por que então algumas pessoas ainda insistem no mito do “querer é poder”?

Será que o fato de eu ainda não ter conseguido muitas coisas se deve simplesmente à hipótese de que eu não tenha querido o suficiente? Existe um querômetro capaz de medir a intensidade do querer? Qual é a maneira correta de querer algo? Se eu participei de uma corrida de 100 m rasos e cheguei em segundo lugar isso se deve ao fato que o vencedor queria mais que eu?

Indutores do mito

Alguns relacionam o conceito do “querer é poder” com a supervalorização do talento em oposição ao esforço. Admiramos mais os talentos precoces do que aqueles que chegam ao mesmo ponto depois de anos de estudo. O aluno que, num acaso da “fortuna” tira uma nota alta, em oposição aquele que sempre ia mal e começou a melhorar suas notas com o tempo.

Mas não podemos simplesmente virar a chave de um lado para o outro, com o risco de cairmos na da meritocracia, a ideia de que somos recompensados apenas pelo esforço. Não partimos todos do mesmo ponto.

Se, como eu, você nasceu numa família de classe média, foi educado em boas escolas e teve acesso aos bens culturais, você não pode comparar o quanto alcançou a quem não teve nada disso. Não foi por querer mais que a outra pessoa que você alcançou muitas das suas metas. Foi apenas circunstância. 

Também não vale apelar para o discurso da superação baseado em histórias comoventes, mas totalmente isoladas da realidade. O rapaz negro que vendia picolé e se tornou o primeiro brasileiro negro a ser aprovado no MBA do MIT é a exceção da exceção da exceção.

Basta lembrar que São Gonçalo fica a menos de 30 km de Jacarezinho.

Em suma

Não pretendo aqui desmerecer os méritos ou o esforço de ninguém - a César o que é de César – apenas lembrar que não são frases de efeito que vão resolver nossos problemas. Algumas coisas não vamos alcançar nunca.

Com dedicação muitos conseguem algo, outros conseguem mais que os outros com menos dedicação.

Acusar as pessoas que não foram bem sucedidas de falta de vontade é um modelo cruel que não respeita as diferenças. Louvar como bem sucedidas aquelas a quem a vida deu mais oportunidades para isso é ainda mais cruel para as que não tiveram a mesma “fortuna”.

Descrição da imagem: Hércules apontando uma flecha tentando combater a Aporia, o espírito da dificuldade.

terça-feira, 16 de março de 2021

Xiita convidada: “Aceitamos candidatura de pessoas com deficiência.”


Texto de Letícia Ribeiro*

“Aceitamos candidatura de pessoas com deficiência.”

Querido recrutador, parabéns por fazer o mínimo. 

Era uma segunda-feira como todas as outras e eu estava no linkedin ajudando uma amiga a encontrar uma boa vaga de emprego. Entra em vaga, sai de vaga, entra em outra, sai de mais uma, até que eu me deparo com uma vaga legal, em uma empresa legal. 

Comecei a ler o descritivo. 

E o descritivo ia perfeito, encantando em cada frase, em cada argumento, em cada explicação. Objetivos bem definidos, requisitos claros, aquele tipo de texto que dá até alegria de olhar, até que… 

“Aceitamos candidatura de pessoas com deficiência.” 

Ué, mas por que não aceitariam?

Uma vaga de estágio, em redes sociais, trabalho remoto, dentro de casa, com um computador - e que, por experiência própria, significa passar 80% do seu tempo sozinho, logado na internet -, que impedimento teria para uma pessoa com deficiência?

Para os com deficiência física, o trabalho não requer nenhuma locomoção. Para os cegos, computadores são bem adaptados. Para os surdos, mudos, comunicação por texto, no google meets, no whatsapp, no slack, nos e-mails, nas legendas de redes sociais, nas dms. E para os com deficiência intelectual talvez um pouco mais de tempo de adaptação. 

Parabéns por fazerem o mínimo, e aceitar candidaturas de pessoas tão capazes quanto quaisquer outras. 

Crescendo com uma pessoa ‘com deficiência’ eu aprendi que inclusão não está em criar oportunidades separadas e especiais para pessoas com condições diferentes às chamadas ‘normais’. Inclusão é criar um ambiente onde todos sejam aceitos, respeitados - contratados - de forma igual, respeitando suas diferenças, dificuldades, tempos e processos. 

Espero que, quando contratarem meu irmão, contratem ele pela vaga que ele tem que ser contratado: professor. Não ‘professor com deficiência’. Não ‘professor especial’.

A vaga podia ser atraente, mas o entendimento sobre inclusão da empresa não era. E eu, uma pessoa ‘normal’, posso dizer que não me senti atraída pela vaga depois disso. - e, não, também não mandei para a minha amiga, que precisa de um estágio na àrea de direito. 


*Letícia Ribeiro é estudante de produção editorial e estagiária em mídias socias na Mercado Bitcoin


Descrição de imagem: ilustração de uma mesa com crianças de diversas características.

 

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Preconceitos e diversidade



"Um navio no porto é seguro, mas não é para isso que os navios foram feitos."  William Shedd

Caro leitor: você chegou a esse texto movido pelo seu interesse pelas questões que envolvem a inclusão na escola. Caso não tenha sido interesse, pode ter sido pela necessidade o que, no final das contas, chega no mesmo objetivo.

Desse lado do papel ou da sua tela de computador está uma pessoa que há anos debate o tema e tenta propor caminhos que facilitem a sua vida e orientem como lidar com o assunto, do outro você. Professor, gestor, pai ou apenas um curioso. De qualquer forma, pessoas conversando com pessoas e, por isso mesmo, tomamos a liberdade de falar na primeira pessoa do singular, assim nosso papo fica informal.

Vamos começar?

Preconceito

Já que estamos a sós, não precisamos nos fingir de politicamente corretos, combinado? Eu tenho preconceitos, você também. Todas as pessoas são preconceituosas o que varia é que grupo incomoda cada um de nós. Para algumas pessoas cor e raça é um problema. Para outras é classe social ou nível intelectual.

O preconceito pode ser direcionado a pessoas com deficiência, pessoas com comportamento que julgamos inadequados, pessoas que tenham cometido crimes. São tantas as variações do preconceito como é a variedade do ser humano.

Não se ache uma pessoa vil por ter seus preconceitos. Freud já explicava que faz parte da natureza humana, segundo ele, ao contrário do preceito bíblico de amar o próximo como a si mesmo, costumamos amar o próximo desde que ele seja o mesmo que nós.

O problema do preconceito não é você preferir um loirinho de olhos azuis ou uma negra para namorar. Não é você ter amigos que gostem das mesmas coisas que você. Também não é você não querer ter os mesmos modos ou comportamentos que algumas pessoas.

O preconceito se torna um problema quando você impede que determinados grupos de pessoas tenham acesso aquilo que faz parte dos seus direitos inalienáveis como seres humanos, como talvez aconteça na sua escola.

O preconceito é um problema quando você se recusa a ensinar um aluno, partindo do princípio que pessoas “desse tipo” não vão aprender mesmo. Quando você faz isso, você está fazendo com que o seu preconceito fraude os direitos individuais. Isso deixa de ser preferência e passa a ser crime.

Diversidade

Já que concordamos que todas as pessoas têm direito à educação em todos os níveis, vamos conversar um pouco sobre quem são essas pessoas e o que é diversidade.

Afinal de contas, o que é essa tal diversidade que tanto ouvimos falar? Como é que ela se manifesta? O que isso implica na organização das escolas e das aulas?

Se formos até um dicionário vamos encontrar muitas definições. Eu não vou cansá-lo com semântica ou etimologia, mas aprendemos que existem duas maneiras de olharmos a diversidade.

A primeira delas parte da desigualdade natural que existe entre todas as pessoas. No entanto, os seres humanos possuem mais coisas em comum do que diferenças, ou seja, essencialmente somos todos semelhantes com pequenas variações.

A desigualdade natural muitas vezes é aparente, quando observamos apenas os aspectos físicos, mas também existem desigualdades naturais que não estão à flor da pele. De qualquer forma essa variação é objetiva, perceptível de uma forma ou de outra e não obrigatoriamente carrega consigo um juízo de valor.

Mas também existem as desigualdades sociais. Essas são socialmente construídas, estão carregadas de juízo de valor e podem mudar de acordo com o local ou com a época da história.

Esse julgamento social, estabelece uma hierarquia entre seres humanos onde alguns são considerados ideais e os demais são classificados em outros degraus da pirâmide. Esse pensamento é formado nas nossas mentes pela educação que recebemos em casa, na escola, nos grupos de amigos, uma transmissão que vem de longa data e se solidifica de tal forma que, mesmo que não usemos essa terminologia, olhamos para as pessoas como cidadãos de 2ª. 3ª ou 4ª categoria.

Pessoas que, nas nossas mentes, são inferiores, estão cheias de defeitos, afinal, não são iguais a nós. Quando encontramos uma pela frente, nosso olhar (ou o nosso pensamento) se direciona imediatamente para aquilo que esse outro tem de déficit, o que ele precisaria corrigir em si mesmo para poder se tornar um de nós – seres de primeira.

O curioso é que isso pode acontecer com você também: dependendo do lugar onde está, você pode tornar-se um ser de segunda ou de terceira, isso sempre variará segundo o ponto de vista.

Você acha que estou exagerando? Lembre-se da última vez que encontrou com um menino de rua ou com uma criança cega, sua primeira reação não foi de pena? Não olhou para os defeitos dessa criança antes mesmo de admitir que ela fosse apenas um ser humano?

Por isso que dizemos que esse olhar deficitário é um problema ideológico, o que se esconde atrás dessa atitude é a rejeição da diversidade como valor humano e a perpetuação dos preconceitos entre as pessoas, determinando a priori que essas desigualdades são insuperáveis.

Essa incompreensão da diversidade implica que os educadores pensem que os processos de ensino deveriam se dividir de acordo com a escala hierárquica que construímos na nossa sociedade.

Passamos a acreditar que é melhor que existam especialistas em lidar com crianças de rua, outros que entendam de pessoas com deficiência (na verdade vários, um para cada tipo de deficiência), pessoas que sabem ensinar em cárceres. Da mesma forma que, no passado, a sociedade defendia escolas separadas para meninos e meninas.

Antes, várias pessoas não tinham acesso à educação, pois eram vistas como ineducáveis; tempos depois, foi surgindo a preocupação pela sua educação, mas a segregação continuava pois tal educação era paralela à educação regular. Hoje, embora se proponha que todos os alunos devam estudar, preferencialmente, em escolas regulares, são muitos os que torcem seu nariz ao ver um aluno com transtornos de desenvolvimento ou com deficiência em salas comuns

Pior, como educadores, perpetuamos esse sistema de castas de aprendizagem. Chegamos até a defender que a escola pública é boa mesmo para os pobres. Isso não deixa de ser um reflexo da nossa própria crença de que a elite, por sua capacidade superior, deve conduzir esse monte de gente ignorante que existe por aí?

Ah...você está começando a perceber que o que você faz na sua escola é uma prática discriminatória. Que é uma forma de manter a tutela sobre aqueles que a sociedade considera inferiores? Espero que você perceba que é de dentro da sua sala de aula que essa construção histórica pode mudar. Que a escola pode e deve ser boa para todos.

É a cultura da diversidade que vai nos permitir construir uma escola de qualidade, uma didática de qualidade e profissionais de qualidade. Todos teremos de aprender a “ensinar a aprender”. A cultura da diversidade é um processo de aprendizagem permanente, onde TODOS devemos aprender a compartilhar novos significados e novos comportamentos de relações entre as pessoas.

Para isso, nada mais importante que esse compartilhar constante entre profissionais, familiares e comunidade. Um dos maiores entraves da prática docente é o cartorialismo da classe: há sempre 2 ou 3 que fazem seu trabalho de forma extraordinária, e outros 7 que o fazem de qualquer jeito.

A cultura da diversidade é uma nova maneira de educar que parte do respeito à diversidade como valor. E que traz no professor a emergência de seu potencial criativo e criador.

Tudo bem. Você ainda pode escolher quem vai namorar.


quinta-feira, 10 de março de 2016

Infinitas possibilidades perdidas


Faz parte da essência de um publicitário brincar com as palavras, imagens e sons. Ao redor deles é que esse profissional vai desenvolver a sua criatividade com o objetivo de vender um produto, serviço ou ideia.

Os melhores publicitários são aqueles que manipulam bem os seus recursos e, principalmente, como diria Ogilvy, aquele que atinge o objetivo de quem o contratou.[1]

O que não significa que todos trabalhem assim. Como em qualquer profissão existe gente com e sem competência. Um ex-chefe meu odiava o que ele chamava de síndrome de criatividade de alguns publicitários, para quem era mais importante a “sacada genial” (o genial fica por conta vaidade desses profissionais) do que aquilo que eles estavam anunciando.

A nova campanha do FIATToro me lembrou muito disso.

A sacada “genial” dos números que geram infinitas possibilidades sendo usada como metáfora de um carro que, segundo a propaganda, também seria detentor dessa infinitude, derrapou na lama de alguma das estradas de terra por onde ele passa no filme.

Sem perder tempo lembrando que um piano pode ter mais de 88 teclas (eles poderiam se ater ao dodecafonismo dos instrumentos temperados que teriam sido mais felizes), ou que muitos alfabetos superam[2] de longe o nosso limitado a 26 letras, o que me chamou a atenção foi excluir das possibilidades infinitas as pessoas que tem um número de cromossomos diferente de 46.

Pessoas com síndrome de Turner podem ter um cromossomo a menos. Pessoas com síndromes de Down, Patau, Warkany, triplo X e Klinefelter, tem um cromossomo a mais. Algumas síndromes raras podem provocar a ocorrência de tetra ou pentassomias e, nesses casos, serão pessoas com 48 ou 49 cromossomos.

E não são poucas, estamos falando de alguns milhões de pessoas ao redor do mundo, só no Brasil, onde a propaganda está sendo veiculada, a estimativa é de mais de meio milhão de pessoas (e suas famílias)

Pessoas que também possuem infinitas possibilidades de vida, de potencial e de sucesso. Se alguém quiser brincar de análise combinatória pode calcular que quem tem cromossomos a mais tem um número bem maior de possibilidades, diga-se de passagem.

Fiquemos apenas nas três possibilidades do que originou essa mancada (e sim, foi uma mancada, basta ler os comentários do vídeo no youtube para perceber que desagradou muita gente):

A primeira é a desinformação. Quem criou e quem aprovou a campanha (criação, planejamento, atendimento e o próprio cliente) não sabe nada a respeito das variações cromossômicas.

E se não sabem nada, antes de usar essa referência no texto, deveriam ter feito a lição de casa e estudado melhor o que estavam colocando no papel. Mas, e sempre há um mas, para que alguém que tem “sacadas geniais” precisa estudar algo? Gênios não precisam de pesquisa.

A segunda possibilidade é a do esquecimento. Alguém falou algo a respeito, mas como o redator ficou trabalhando durante toda a madrugada na campanha que o atendimento tinha de apresentar as 9 da manhã do dia seguinte para ser produzida no mesmo dia e veiculada na mesma noite, ninguém checou o material e esse “detalhe” passou em branco. As velhas e péssimas desculpas do meio.

A terceira possibilidade é mais assustadora, mas não pode ser descartada, ou seja, agência e cliente sabiam, lembraram, mas deliberadamente excluíram da mensagem. Afinal, a propaganda precisa passar uma imagem de gente feliz em situações perfeitas para tornar o produto um objeto de desejo. Associar o produto a essa gente esquisita que tem cromossomos a mais ou a menos não vai fazer bem para a marca.

Nesse caso, a situação seria de clara discriminação e preconceito e precisaria de um tratamento de choque. O único problema é que não seria possível provar isso somente pela veiculação do filme.

Por outro lado, a marca perdeu a grande possibilidade de associar seu nome a defesa da diversidade. Criou um público de inimigos e ainda vai gastar dinheiro vindo à mídia para se desculpar pela gafe.

Nesse momento, fica apenas o nosso repúdio.

Descrição de imagem: uma das salas da instalação "Além do infinito" de Serge Salat, montada sobre formas, cores e espelhos que dão a sensação de infinidade. No centro da instalação uma pessoa é reproduzida em infinitas imagens espelhadas.





[1] “Sua função é vender, não deixe que nada te distraia do único propósito da publicidade”. (David Ogilvy)
[2] O alfabeto russo tem 33 letras. Os dicionários chineses indicam a existência de 47 a 85 mil diferentes sinogramas, na escrita japonesa existem mais de 6 mil kanji

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Não é notícia

Ninguém notou
Ninguém morou na dor que era o seu mal
A dor da gente não sai no jornal
(Chico Buarque – Notícia de jornal)

 

Todos os jornais de hoje se preocuparam em noticiar que a menina atleta, além de ter se tornado uma pessoa com deficiência também assumiu o fato de ser gay.

E eu fiquei me perguntando: e eu com isso? Afinal de contas é uma questão de foro íntimo da moça. Por que esse destaque todo?

Eu que sou um homem sem deficiência, branco, cristão, heterossexual e monogâmico não sou notícia.

Se me tornasse cego, negro, xintoísta, transgênero e poligâmico talvez merecesse uma nota nas colunas de pessoas exóticas dos jornais.

Ou melhor, já fui notícia porque tenho um filho com deficiência que, pasmem, estuda desde sempre numa escola comum.

E tem gente que acredita que o preconceito está diminuindo ou se diluindo. Pura ilusão de quem acredita nas histórias da carochinha.

A ênfase que as pessoas dão para esses estranhos que participam de um mundo diverso só reforça o fato de que o preconceito é que, de fato, é amplo, geral e irrestrito.

Se fossem considerados comuns ou (arghhh) normais, não seriam notícia. E nem seriam alvo dos comentários de grande parte da população.

“- Você viu? Fulano de tal saiu do armário...”

“- Quem diria, um negro foi o primeiro colocado no vestibular da universidade X....”

“- Aquela moça com síndrome de Down se superou e agora até canta no You Tube...”

No dia em que o comportamento e as conquistas corriqueiras das chamadas “minorias” deixarem de ser notícia poderemos, talvez, acreditar que alguma coisa mudou no mundo.

Mas não é o que parece que vai acontecer.


Descrição de imagem: um dos seres estranhos de Greg Petchkovsky, artista surrealista que cria ilustrações, esculturas e animações. O bizarro e grotesco estão presentes em suas obras. Nessa imagem o monstro são estranho está comendo sushi

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Engaiolados

Eles poderiam estar aí agora trabalhando a seu lado no escritório, na fábrica, no campo.


Poderiam estar à sua frente para atender na loja em que você entrou para comprar o seu presente de Natal.


Poderiam estar sentados a seu lado num banco escolar de primeiro, segundo, terceiro ou infinito graus.


Eles poderiam estar na mesma balada que você ou seus filhos vão. Ouvindo a mesma música, bebendo o mesmo energético.


Eles poderiam nadar na mesma piscina, frequentar as mesmas quadras, passear nos mesmos parques.


Eles poderiam ter amigos, namoradas, namorados, cônjuges e, por que não, até amantes.


Eles poderiam estar entre pessoas brancas, negras, amarelas. Gordas, magras, altas, baixas. Loiras, morenas, ruivas, de cabelo liso ou muito encaracolado.


Eles poderiam tudo que todos podem.


Mas ainda não podem...


Pois alguns muitos se beneficiam deles estarem confinados em gaiolas reais ou virtuais.


Pois não poucos acreditam que eles só podem fingir de viver entre iguais, não estudar entre iguais, não trabalhar entre iguais.


Pois tantos crêem que a superproteção é uma forma de amor, quando não passa de uma forma de destruir vidas.


E vão continuar engaiolados enquanto os donos das gaiolas receberem dinheiro para mantê-los nelas.


Enquanto os especialistas sustentarem o mito da incompetência dos generalistas.


Enquanto os generalistas não acreditarem na sua capacidade de lidar com a diversidade.


Enquanto a população achar mais barato uma doação caridosa que uma aceitação incondicional.


Enquanto os pais acreditarem mais na mídia do que nos seus filhos.


"Mas o que eles não sabem


Não sabem ainda não


É que na minha terra

Um palmo acima do chão

Sopra uma brisa ligeira

Que vai virar viração

Ah mas eles não sabem

Que vai virar viração"*
*parte da letra de Viração de Kleiton e Kledir Ramil

Descrição da imagem: pássaro saindo de uma gaiola com a porta aberta

sábado, 31 de março de 2012

Comemorar ou lamentar?

No próximo dia 21 de Março será comemorado mais um dia internacional da Síndrome de Down

O evento que começou há sete anos agora tem status oficial, reconhecido pela ONU (graças ao esforço da Patricia Almeida).

Teremos caminhadas, encontros, sessões solenes em casas legislativas e palestras, muitas palestras.

E são exatamente essas palestras que me provocam uma dúvida recorrente: estamos comemorando ou lamentando a síndrome de Down?

Os temas em debate apontam para uma permanente busca da cura da condição genética. Mas, se é uma condição genética (como a cor dos olhos ou a curvatura do nariz) por que lidamos com o assunto como se fosse uma doença?

Protocolos médicos, tratamentos, pesquisas genéticas são a tônica no Brasil e no mundo.

Se é uma doença precisamos de dias de luta, como existem os dias de luta contra o câncer ou contra a AIDS.

Se a SD faz parte da essência e da natureza das pessoas e, se dizemos que as consideramos como qualquer outro ser humano, porque essa necessidade de achar caminhos para combater os efeitos da trissomia?

Seria a mesma coisa que propor a cura da homossexualidade...ops, é verdade, tem bastante gente que ainda acha que é algo curável.

Seria a mesma coisa que buscar métodos de clareamento dos negros...ops, é verdade, ainda tem muita gente que quer lhes dar uma "alma branca".

Como é que podemos sair pelas ruas exaltando as diferenças que, no íntimo, queremos eliminar ou minimizar?

Se nós, pais e parentes de pessoas com síndrome de Down, continuamos a olhar para ela como uma dor de cabeça, como podemos esperar que o resto do mundo abandone seus preconceitos?

Como defender a capacidade de aprendizado dos nossos filhos se insistimos em lidar com isso de uma forma terapêutica?

Como preparar para autonomia pessoas que nós mesmos apresentamos para o mundo como incapazes?

Se o nosso objetivo é acabar com a síndrome de Down não faz o menor sentido comemorar sua existência ou, pelo menos, precisamos repensar criticamente os nossos objetivos a esse respeito.

Descrição da imagem: foto de Fábio junto com Samuel e Letícia

Texto publicado originalmente dia 21/03/2012 no blog da NEPPD UFAM

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Amores perfeitos

Em 1958, aos 17 anos, Mildred Jeter, uma jovem negra, casou com Richard Loving, um operário da construção civil de 23 anos, numa época em que casamentos interraciais eram proibidos na Virginia, seu estado natal. Mildred e Richard foram então à capital, Washington, onde se casaram, para em seguida retornar à Virginia.

Pouco depois do casamento, foram acordados no meio da noite no seu quarto por xerifes e presos pelo 'crime' de terem se casado com o tipo errado de pessoa
.

Um juiz da Virginia ameaçou prender o casal caso eles não deixassem o Estado e ficassem fora pelos próximos 25 anos.


O casal Loving se mudou para a capital americana, e com a ajuda da União Americana de Liberdades Civis e da Associação Nacional pelo Avanço dos Negros defenderam seu direito de se casar perante a Suprema Corte dos Estados Unidos.


No histórico julgamento do caso "Loving versus Estado da Virginia", em 1967, a Suprema Corte americana decidiu que a proibição do casamento interracial era inconstitucional - decisão que afetou as leis na Virginia e em 16 outros estados americanos.

O estado do Alabama, no sul, foi o último a abolir as leis que proibiam o casamento inter-racial - o que só ocorreu no ano 2000.


Do outro lado do Atlântico, a África do Sul proibia, até 1985, qualquer tipo de relacionamento sexual entre pessoas de etnias diferentes. A lei tinha o nome de Lei da Imoralidade.


Qualquer semelhança com o preconceito existente a respeito das pessoas com deficência, não é mera coincidência, é mero preconceito mesmo.


Preconceito que não é exclusivo das pessoas sem deficiência, diga-se de passagem. A criação de um portal de namoro destinado aos "deficientes" é a prova de que as pessoas acreditam que esses não podem se misturar com aqueles.


Pode-se alegar que, pela exclusão social, as pessoas com deficiência tem poucas chances de conhecer outro tipo de gente, o que não justifica a criação de mais guetos segregados além dos já existentes.


Ainda mais quando o espaço reforça a idéia de que o relacionamente entre as pessoas vai ser, ele mesmo, deficiente.


Deficiente, segundo o Aurélio, é aquele em que há deficiência, carência, insuficiência. Falho, imperfeito.


Logo, um namoro deficiente é aquele que é falho, imperfeito. Talvez pela falta de amor de alguma das partes, ou pela imperfeição da paixão, tão necessária a um relacionamento amoroso.


Um namoro não é deficiente pelo fato de uma, ou ambas as pessoas, terem ou não deficiência.


Conheço pessoas com deficiência casadas com pessoas sem deficiência. Relacionamentos que, se não são perfeitos, são muito felizes.


Conheço relacionamentos que não são deficientes entre casais onde ambos tem alguma deficiência.


E conheço relacionamentos deficientes entre pessoas sem deficiência nenhuma.


E continuo torcendo para que o amor entre as pessoas não seja definido pela CID ou pela CIF
.

Descrição da imagem: fotografia do casal Mildred e Richard Loving

domingo, 28 de agosto de 2011

Não existe escola inclusiva

De tempos em tempos alguém me pede indicação de escolas inclusivas, geralmente são pais em busca de um lugar para os seus filhos mas, de vez em quando, também são professores de escolas que rejeitaram algum aluno e que tentam indicar um outro lugar para os pais que os procuraram.

Infelizmente essa é uma informação que eu não possuo, ou melhor, possuo, mas não da forma como as pessoas gostariam de ouvir.

Não existem escolas inclusivas ou, pelo menos até hoje, eu não conheci nenhuma. E não existem porque o nosso sistema educacional, seja ele público ou privado, ainda está muito longe de ser inclusivo.

Claro que quem acredita que inclusão significa apenas ter alunos com alguma deficiência na escola vai encontrar centenas de escolas inclusivas. Só na rede municipal de Sâo Paulo são mais de mil escolas. Mas não é isso que torna inclusiva uma escola.

Outros entendem que são as escolas que "aceitam", como se inclusão fosse apenas uma concessão que a escola faz aos que ela consideram como diferentes.

Não poucos entendem que a escola inclusiva é aquela que faz a sua parte, desde que a pessoa incluída se prepare para acompanhar as suas regras inflexíveis, alguns chegam mesmo a contratar profissionais para tomar conta dos seus filhos dentro da escola (e ainda chamam esses profissionais de "mediadores"...)

Quando encontram uma escola que tem uma estrutura especial para os alunos com deficiência acreditam que chegaram ao nirvana inclusivo. Quem não quer uma escola toda equipada para as necessidades ( "especiais"?!?) das pessoas com deficiência, mesmo considerando que as pessoas sem deficiência não se beneficiam disso?

Escola inclusiva só vai existir quando a educação passar por uma transformação profunda, valorizando a individualidade de cada e de todos os alunos.

Quando, ao invés de concessões, houver uma ruptura no sistema atual que conduza a uma escola que não estabeleça condições para matricular os alunos (com e sem deficiência). Quando o sistema representar a existência de uma escola que seja boa para todos.

Quando as mudanças beneficiarem toda e qualquer pessoa.

Isso só vai acontecer quando escolas, pais e alunos pararem de olhar só para os seus interesses e entenderem que o interesse de todos está acima dos seus umbigos. Isso não vai cair do céu, nem virá do planalto central.

Enquanto isso não acontece, vou continuar recomendando aos pais que procurem escolas que tenham a ver com seus valores e crenças, como procurariam para qualquer outro filho sem deficiência e que, junto com a escola, procurem transformá-la num ambiente inclusivo.

E que fujam da tentação da escola que aceita, da escola que privilegia, da escola que impõe fardos ilegais.

Descrição da imagem
: uma sala de aula perfeita, cheia de crianças de todos os tipos e super equipada.

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Senzala 2.0

Se eu falasse para uma famíla negra que seus filhos deveriam ser encaminhados para escolas ou atividades sociais só com outras pessoas negras, eu seria imediatamente taxado de racista e, muito provavelmente processado por tamanha besteira.

Não seria diferente se disser para algum conhecido gay que ele deveria procurar a sua turma, mesmo sem lei anti-homofobia eu seria exacrado publicamente.

No entanto, pais, professores, amigos e inimigos das pessoas com deficiência sempre estão em busca de guetos exclusivos.

Bailes para pessoas com síndrome de Down, aulas de judô para cegos, escolas para autistas...e o pior é que a própria comunidade das pessoas com deficiência acha que isso é ser normal.

Além de serem pseudo-defensores da diversidade essas pessoas acabam reforçando as superestruturas discriminatórias dominantes.

Acham que estão conscientizando o mundo sobre os direitos de todos com manifestações públicas quando estão apenas ressaltando a percepção de que "esses estranhos" devem viver apenas entre eles mesmos.

Defendem a perenização da senzala, do gueto, do manicômio em moldes mais moderninhos (versão 2.0 ou será 4G?), travestidos de clubes, redes sociais e até sites de namoro para pessoas com deficiência.

A alegação conceitual é que pessoas com mesmas características biológicas podem construir sua identidade no contato com os seus iguais. Que identidade, cara pálida? (ou de qualquer outra coloração).

A minha identidade é a de ser humano e é no contato com outros seres humanos que ela vai se construir. Minha humanidade não se define pela cor da minha pele, pelo número de cromossomos ou pela minha capacidade de ver ou ouvir.

Homem, ser social, realiza o desenvolvimento da sua identidade através da interação que mantém com o meio em que vive. A cada experiência vivida, a cada problema enfrentado, se está alimentando o processo de construção da identidade.

Se o meio for segregado é esse tipo de identidade que um indivíduo terá. Uma identidade pobre e limitada.

Certa estava a Cláudia Werneck quando lançou em 1992 o livro "Quem cabe no seu todos?" mostrando que preconceito e discriminação só mudavam de nome e endereço, mas estavam em todas as mentes e corações (inclusive daqueles que são excluídos)

Se, ao invés de defendermos a inclusão de todos, defendermos a inclusão ou os direitos de pessoas do tipo X, Y ou Z, deixamos de lutar contra a discriminação. Viramos parceiros dela.

Descrição da imagem : propaganda de uma empresa italiana de roupas dividida em 3 quadros: um só com mulheres loiras, outro só com morenas e o outro só com mulheres negras.

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Em busca do Santo Graal

Tem horas que a pergunta é tão repetitiva que parece brincadeira de mau gosto. Todo mundo quer uma solução mágica, a resposta de uma única pergunta que resolveria todos os problemas do mundo.

Muitas vezes tenho a impressão que isso funciona como o último pedido dos condenados à morte. A resposta final dos shows de TV onde pode-se ganhar ou perder tudo de uma única vez.

O que todos querem saber qual é o maior empecilho para que a educação seja, de fato, inclusiva. Quando uso essa expressão estou sempre pensando na educação de todos. Educação das pessoas com deficiência não tem nada de inclusiva. Inclusão, ou é para todo mundo, ou não é.

Essa tentativa de simplificação não leva a lugar nenhum. Educação é algo muito mais complexo que a solução de uma charada.

Não adianta dizer que a boa formação de professores seria o suficiente para que a educação fosse boa. Infraestrutura física das escolas ajuda muito, mas também não resolve nada de forma isolada (conheço péssimas escolas em edifícios maravilhosos).

Pedagogia genial não funciona com professores medíocres. Projeto pedagógico exemplar não resolve as questões sociológicas.

Poderia escrever a noite inteira sobre todas as questões que envolvem a construção de um sistema educacional de qualidade e, certamente, não esgotaria o assunto. Currículo? Metodologia? Avaliação?

Mas eu acredito ter descoberto a resposta para a famosa pergunta.

O maior problema da educação é a busca incessante da receita de bolo que não falhe nunca. O bolo que atenda a todos os gostos, sirva para educar todas as crianças de forma homogênea e que, principalmente, não demande nem das famílias, nem dos alunos, nem dos professores, algum trabalho.

Que não obrigue as pessoas a pensar. Daqueles bolos de pacote de supermercado que é só adicionar leite e bater no liquidificador (se bem que, mesmo esses, muitas vezes dão errado também).

Educação se faz com seres humanos. Alunos, famílias e professores. Quando esse negócio chamado "ser humano" entra no processo, o bolo desanda. Cada um deles é diferente de todos os outros. Cada um assa numa temperatura diferente, cada um dá ponto num momento diferente.

O que não significa que a busca pelo santo Graal da educação não vai continuar. Ainda que todos saibam que o cálice mágico nunca será encontrado.

Descrição da imagem : pintura retratando uma mulher ruiva, supostamente Maria Madalena, segurando o cálice denominado de santo Graal

quarta-feira, 24 de março de 2010

Xiita Convidada - O efeito não terapêutico de algumas terapias.

Carla Codeço*

Fico, a cada dia que passa, mais surpresa com os efeitos nada terapêuticos que algumas terapias provocam. Crianças sem espontaneidade, sem a alegria, o senso de humor e a peraltice próprios da infância.

São crianças ensinadas em cada atendimento a se encaixar, a exibir um comportamento normal. É como se nascessem com uma “dívida” em seu desenvolvimento, sendo obrigadas a recuperar esta defasagem evidenciada pela comparação a outros indivíduos de mesma idade. Ao invés de receberem as condições necessárias para aprender são condicionadas através das simulações da vida real dentro de consultórios. A estas crianças é mostrado, desde a mais tenra idade, como devem se comportar para se encaixarem ao padrão aceitável.

As crianças normalizadas podem ser reconhecidas a distância, acabam se parecendo com aqueles andróides dos filmes de ficção científica, que parecem humanos mas têm um que de robô.

Não quero com isso dizer que não devemos propiciar as terapias necessárias para que os potenciais de nossos filhos possam ser melhor desenvolvidos, mas devemos lembrar sempre que eles têm direito a infância, ao seu tempo de ócio. Devem vivenciar a conversa em família, ao invés de apenas terem acesso a conversa simulada na seção de terapia, devem aproveitar seu tempo de ócio em casa para recortar, rabiscar, pintar, livremente, não apenas no ambiente simulado do consultório da TO e assim por diante. Devemos ter cuidado ao estender o ambiente terapêutico para dentro de nossas casas, para que não nos tornemos também profissionais padronizadores dos nossos filhos.

Ao imputarmos aos nossos filhos a obrigação de passar no funil normalizador estamos retirando-lhes a alegria e a espontaneidade infantis. Ao invés de aceitarmos as limitações que a síndrome impõe, estaremos, nós mesmos, impondo várias outras limitações emocionais que a própria síndrome não acarreta. Falo da síndrome de Down.

A partir de um determinado momento, no acompanhamento das terapias do meu filho, percebi que os profissionais e métodos me ofertavam dois caminhos a seguir: ou nos esforçaríamos para passá-lo pela forma normalizadora ou daríamos a ele a liberdade de ser como ele é e, de mãos dadas, ajudaríamos no que fosse preciso para o seu crescimento global. Optei pela última e hoje vejo meu filho feliz, espontâneo, e levado, como toda criança de sua idade que tem o privilégio de viver uma infância saudável.

*Carla Codeço, moderadora dos grupos Sindrome de Down e RJDown e mãe do Rafael e da Joana.

Descrição da imagem : cena do filme Eu, robô onde aparece uma série de robôs humanóides numa linha de produção.

quinta-feira, 4 de março de 2010

Laranja estranha

Mariana era louca por laranjas. Não qualquer laranja, era louca por laranja pera.

Era tão fanática que costumava comprar no atacado. Toda semana ía ao Ceasa e comprava um saco de laranja pera.

Delas fazia suco, saladas de frutas de uma fruta só, as chupava puras. Fazia doces, bolos e tortas.

Nem sempre todas as laranjas vinham perfeitas, algumas chegavam mais secas, outras um pouco amassadas. Mesmo assim Mariana aproveitava todas, de uma forma ou de outra.

Até o dia em que, no meio do seu saco de laranjas pera veio um exemplar de laranja bahia. Para muitos seria apenas mais uma laranja, não para Mariana que ficou perplexa e confusa com um tipo de laranja diferente.

A casca era mais fina, o tamanho maior, o suco com teores diferentes de açúcar e de ácido cítrico.Ela não estava preparada para isso. Não sabia nem por onde começar. Fez uma busca na Internet sobre a tal da laranja estranha. Só encontrou informações sobre os aspectos fenotípicos do citro. Isso não ajudava.

Começou a ligar para amigas. O máximo que descobriu foi que essas laranjas não tinham sementes. Pior foi ter de ouvir da melhor amiga que era uma laranja, e laranjas são laranjas. Que diferença isso ia fazer?

Concluiu que não teria outra alternativa a não ser partir em busca de especialistas. Como iria descascar aquela pele mais fina? Se eram mais doces, como procederia no açúcar da sua famosa compota de laranja? Os gomos maiores não enroscariam no seu processador?

Descobriu várias pessoas que se dedicavam ao estudo e manuseio de laranjas bahia. Uma mulher que era descascologista, com doutorado em bahias. Um agrônomo que tratava de distúrbios de desenvolvimento de citros e até um chef compoteiro que tinha uma instituição dedicada ao desenvolvimento da tal laranja.

Pensou em mandar seu exemplar de laranja bahia para um desses especialistas. Mariana, no entanto, era uma mulher persistente, não poderia admitir que tinha sido derrubada por uma laranja.

Matriculou-se num curso à distância, de capacitação em laranjas. Na primeira aula descobriu que a bahia era só uma das dezenas de espécies de citrus sinensis: Lima, Westin , Rubi, Valencia, Hamlim e Kinkan. O curso não lhe ensinou o que fazer com as diferentes laranjas, mas abriu seus olhos para todo um mundo diverso do que ela conhecia. Também constatou que só com prática de uso de tanta variedade é que ela descobriria como tirar o melhor de cada um dos tipos.

Não perdeu seu amor antigo pela laranja pera, mas descobriu que a vida era muito mais interessante quando as laranjas se misturavam. Era possível fazer sucos usando combinações de frutos mais ácidos com outros mais doces e, até mesmo enriquecer seu bolo de laranja com calda de uma laranja diferente.

Empolgadas partiu para o estudo de tangerinas, depois limões e até mesmo grapefruit.

E, assim como fazia com a laranja pera, Mariana nunca desperdiçou nenhum dos seus cítricos.

Uma verdadeira mestra.

Descrição da imagem: uma laranja bahia ainda presa no galho da laranjeira.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Os meus desiguais

Mais uma vez, durante essa semana, fui confrontado com a tese de que as pessoas precisam conviver com os seus iguais para desenvolver a sua identidade.

Eu não entendo nada de psicologia e de psicanálise. Também não entendo porque esse tema de identificação com os iguais só surge quando se refere a pessoas com deficiência ou com aquelas que são consideradas desviantes da normalidade.

Nunca ouço que os gordos barbados como eu precisam formar um grupo de encontros para que possam exercitar suas identidades. Nem que mulheres morenas de olhos verdes deveriam criar uma associação para garantir os seus direitos.
Se eu preciso ver quem eu sou um espelho não é suficiente? Por que preciso me enxergar em outro? Além do que, nem mesmo entre gêmeos, dito idênticos, existe essa "igualdade" preconizada pelos defensores de grupetes segregados.

E aí eu me pergunto: que, afinal de contas é o meu desigual?

A Marta que é mulher enquanto eu sou homem?

O MAQ ou o Paulo que não enxergam?

A Anahi que precisa de um implante para escutar? Ou será a Flávia que não anda?

Será que meu desigual é o Nathan que é negro? Será o Richard que é homossexual? O filho autista da Valéria?

Na verdade são todos e nenhum deles. Todos são meus iguais enquanto seres humanos detentores de direitos e deveres. Todos são meus desiguais enquanto seres humanos únicos e insubstituíveis.

Mesmo o ser humano mais parecido comigo ainda será meu desigual e é nesse ponto que as pessoas não conseguem compreender o que é, efetivamente, o conceito de diversidade.

Meu diferente é qualquer um e não um grupo específico vítima da exclusão. Meu diferente é você que está me lendo.

Diversidade não é defender os interesses de coletivos de gênero, de etnia, de condição física ou de orientação sexual. Ou entendemos que todos são diversos, ou admitimos que todos são iguais, não existe meio termo (ainda que muita gente acredite que "nós somos iguais e eles diferentes")

Ainda assim, muita gente vai continuar procurando criar guetos de seres supostamente iguais. Vai colocar os filhos em encontros de pessoas com as mesmas deficiências que eles tem, educando-os para acreditarem que são seres de um planeta diferente, que só podem conviver com seus espelhos fenotípicos.

Essa é a identidade que eles vão construir, a identidade que a sociedade quer que eles tenham, a identidade que os rotula e os exclui da convivência com todos os demais seres humanos.

Descrição da imagem: uma caixa de botões de roupa de diversas formas e cores

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

A deficiência é uma vergonha

As notícias geralmente repetem um discurso muito parecido: "apesar da deficiência ele conseguiu fazer isso ou aquilo". "fulana supera suas limitações", "fulano trabalha como se fosse um funcionário normal"... e por aí vamos.

Que esse discurso parta de pessoas que acham normais e se surpreendam com as conquistas de pessoas com deficiência me incomoda, mas é compreensível. Afinal de contas elas não estão acostumadas com o fato de que alguém considerado subnormal tenha capacidade para realizar uma série de coisas.

O que incomoda mesmo é esse discurso na boca das pessoas com deficiência ou dos seus parentes.

Pessoas que se dizem convertidas ao credo da diversidade, que reclamam quando a diversidade não é respeitada, que xingam os leigos quando usam expressões como as que citei acima.

E são as mesmas pessoas que dariam a vida para não ser como são. Diversas.

Para elas a diversidade tem valor, mas poderia ter valor nos outros ou nos filhos dos outros, não nelas ou nas suas casas.

Pessoas que entendem que a única solução aceitável para a deficiência com as quais convivem é a busca incessante da cura (se achassem mesmo que a diversidade tem valor, para que curar?)

Pessoas que só vêem valor quando as pessoas com deficiência desempenham atividades que as iguale à normalidade em que acreditam.

Sim, são pessoas que acreditam que "deficiente bom é deficiente quase normal". Que se envergonham das suas deficiências.

Nunca vão lutar pela construção de um mundo que seja bom para todos. Acreditam que esse mundo já existe, e é o mundo dos normais.

Alguém pode me retrucar dizendo: "mas não é bom ter uma deficiência". E eu questionaria o por quê. A deficiência não faz parte da natureza daquela pessoa?

Se o objetivo é mudar a natureza das pessoas, eu poderia declarar (com o mesmo conceito) que não é bom ser negro, não é bom ser baixo, não é bom ser careca, portanto preciso "curar" essas pessoas para que elas sejam felizes.

Amanhã se comemora o dia internacional da pessoa com deficiência. Exatamente o que vamos comemorar? O reconhecimento da diversidade como valor, ou a conquista de normalidades?

Acompanhem o noticiário e depois me digam.

Descrição da imagem: foto de um homem de braços cruzados, com um saco de papel escondendo o seu rosto.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Nenhuma disposição em contrário

De todos os artigos da Resolução Nº4 de 24 de setembro de 2009, o mais importante é o Art 14 que diz: "....revogam-se as disposições em contrário".

(para ser lido como num jogral)

Todo ser humano, é humano

Revogam-se as disposições em contrário

Toda criança é um ser humano

Revogam-se as disposições em contrário

Direitos inalienáveis não são opcionais

Revogam-se as disposições em contrário

Educação é um direito inalienável

Revogam-se as disposições em contrário

Todas as crianças são humanas, e iguais em direitos a todos os outros

Revogam-se as disposições em contrário

As diferenças não diminuem a humanidade de nenhuma criança

Revogam-se as disposições em contrário

Toda criança na escola, escola para todas as crianças

Revogam-se as disposições em contrário

Nenhuma criança pode ser separada de outras crianças

Revogam-se as disposições em contrário

Acesso, permanência e qualidade

Revogam-se as disposições em contrário

Descrição da imagem: desenho de um adulto (professor) com crianças coloridas, sem uma, uma criança com deficiência.

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Toda loira é burra.

Tinha certeza que você viria aqui para ler que asneira eu poderia ter escrito com esse título. Antes que que me apedrejem eu já aviso que não acredito na afirmação do título, não me consta que a cor dos cabelos (naturais ou artificiais) influenciem sinapses.

Mas é assim mesmo que o mundo funciona, as pessoas adoram fazer generalizações, seja para aparecerem, seja para fomentarem polêmicas, ou , simplesmente porque não sabem raciocinar de outra forma.

E não sabem raciocinar de outra forma, pois foram educadas a ver pessoas como massas homogêneas a partir de determinadas características, geralmente físicas. Isso é resultado da crença quase dogmática no determinismo biológico ( a idéia de que tudo na vida é resultado das nossas condições genéticas).

Por esse raciocínio toda pessoa gorda é bem humorada. Todo baixinho é autoritário. Todo negro tem grande força muscular (sim, muita gente ainda pensa em escravos). Todo japonês é esforçado. Todo italiano é romântico.

Apesar dessa origem, as generalizações há muito deixaram de ser apenas sobre tipos físicos e se espalham por todas as categorias de pessoas que possam ser agrupadas. E aí começam as generalizações por formação acadêmica, por profissão, por tipo de hobby que tenha.

O maior problema é que são justamente essas generalizações que fazem com que tratemos as pessoas como se fossem um grande pastiche onde todos reagem da mesma forma. A começar da nossa educação.

Toda vez que faço palestra para professores peço que eles me falem das suas classes homogêneas. Sempre me dizem que classe homogênea não existe.

Bem, se não existe classe homogênea, porque as aulas, o material didático, as avaliações são iguais para todos? Porque os professores ficam tão assustados quando tem algum aluno que fuja ao padrão dessa homogeneidade que eles dizem não existir.

Eu poderia até cometer a insanidade de dizer que todas as escolas são iguais, ou que todos os professores não sabem lidar com a diversidade. Mas seria outra generalização burra.

Felizmente, eu não preciso generalizar aqui. Existem professores e escolas que não são iguais a todas as outras. Nessas, os alunos, tratados como indivíduos, têm aprendido que nem todo mundo é igual, e que a vida é bem mellhor assim.

Descrição da imagem : numa sala de aula com alguns alunos sentados e um deles em pé, a professora diz: Parabéns Joãozinho. Você conseguiu repetir exatamente o mesmo absurdo que eu acabei de ensinar para vocês.