quarta-feira, 24 de março de 2010

Xiita Convidada - O efeito não terapêutico de algumas terapias.

Carla Codeço*

Fico, a cada dia que passa, mais surpresa com os efeitos nada terapêuticos que algumas terapias provocam. Crianças sem espontaneidade, sem a alegria, o senso de humor e a peraltice próprios da infância.

São crianças ensinadas em cada atendimento a se encaixar, a exibir um comportamento normal. É como se nascessem com uma “dívida” em seu desenvolvimento, sendo obrigadas a recuperar esta defasagem evidenciada pela comparação a outros indivíduos de mesma idade. Ao invés de receberem as condições necessárias para aprender são condicionadas através das simulações da vida real dentro de consultórios. A estas crianças é mostrado, desde a mais tenra idade, como devem se comportar para se encaixarem ao padrão aceitável.

As crianças normalizadas podem ser reconhecidas a distância, acabam se parecendo com aqueles andróides dos filmes de ficção científica, que parecem humanos mas têm um que de robô.

Não quero com isso dizer que não devemos propiciar as terapias necessárias para que os potenciais de nossos filhos possam ser melhor desenvolvidos, mas devemos lembrar sempre que eles têm direito a infância, ao seu tempo de ócio. Devem vivenciar a conversa em família, ao invés de apenas terem acesso a conversa simulada na seção de terapia, devem aproveitar seu tempo de ócio em casa para recortar, rabiscar, pintar, livremente, não apenas no ambiente simulado do consultório da TO e assim por diante. Devemos ter cuidado ao estender o ambiente terapêutico para dentro de nossas casas, para que não nos tornemos também profissionais padronizadores dos nossos filhos.

Ao imputarmos aos nossos filhos a obrigação de passar no funil normalizador estamos retirando-lhes a alegria e a espontaneidade infantis. Ao invés de aceitarmos as limitações que a síndrome impõe, estaremos, nós mesmos, impondo várias outras limitações emocionais que a própria síndrome não acarreta. Falo da síndrome de Down.

A partir de um determinado momento, no acompanhamento das terapias do meu filho, percebi que os profissionais e métodos me ofertavam dois caminhos a seguir: ou nos esforçaríamos para passá-lo pela forma normalizadora ou daríamos a ele a liberdade de ser como ele é e, de mãos dadas, ajudaríamos no que fosse preciso para o seu crescimento global. Optei pela última e hoje vejo meu filho feliz, espontâneo, e levado, como toda criança de sua idade que tem o privilégio de viver uma infância saudável.

*Carla Codeço, moderadora dos grupos Sindrome de Down e RJDown e mãe do Rafael e da Joana.

Descrição da imagem : cena do filme Eu, robô onde aparece uma série de robôs humanóides numa linha de produção.

8 comentários:

Tchela. disse...

Parabéns, Carla, pela escolha que fez! Seu filho, com certeza, será grato por isso. Eu sou muito grata a minha mãe.

Abraço

Vilma Mello disse...

Concordo com você, ás vezes é tanta terapia que até os pais também precisam fazer algumas.Como em tudo na vida vale o bom senso de cada um.

Um abraço

Cristiana Soares disse...

minha filha sempre evolui mais durante as férias. não sei por quê.

sobre a "normatização", ela já é imposta às crianças sem deficiência. imagine o que não fazem com as com.

Cristiana Soares disse...

ps; o pior é que nós, pais, caímos muito facilmente nessa armadilha.

Zelinda Martins disse...

Concordo! Em outras participações, já comentei a importância do ócio, do simplesmente brincar, do fluir da imaginação. Um exemplo: Julia pinta e desenha da forma que ela quiser; nossa função, minha e de Natanael, é oferecer-lhe diferentes materiais. Minha mãe, a vó Wilma, diz para Julia pintar 'dentro do contorno'. Ou seja: ela não percebe a beleza dos traços e cores difusos de Julia. Para ela, o que vale é o desenho ficar 'normalizado'. Daí, a gente ouve: 'Mas, vó, eu quero assim...'. E sigamos calibrando, sempre atentos à forma de ser de nossos filhos. Sorte de quem se deixa ser ensinado por eles!

Fernanda disse...

adorei a mensagem!!! pensei que era a única que pensava assim, visto que os pais q tenho contato, preferem muito mais levar o filho a mil e uma terapias, período integral na escola, do que ficar 1 horinha brincando de pintar,dançando, ou deixando o filho livre de tudo isso...nota mil pra vc carla!! seu filho é lindo!!!

Dirlene Moreira disse...

Adorei a postagem, sou fonoaudióloga e sei que o meu trabalho como terapeuta pouco representa sem a participação dos pais, estes sim são capazes de promover o desenvolvimento de seus filhos. Não desconsidero em momento algum a necessidade do trabalho terapêutico, que se faz sim necessário, mas este deve se orientar no sentido de auxiliar os pais nas dificuldades encontradas e não no condicionamento e padronização de comportamentos, todos somos seres únicos e temos o direito de manifestar nossa subjetividade. Parabenizo a cada uma das mães que deixaram seus comentários, uma família bem estruturada capaz de reconhecer a necessidade e individualidades da criança é com todo certeza o mais importante. Parabéns ao autor do blog pelas postagens riquíssimas!

giba disse...

Pois é , tenho um filho Down , O Luigi, hoje com 21 meses, e concordo sim com sua opinião quando vejo tantos pais ansiosos e as vezes até desesperados, cultivando dúvidas, a procura das mais variadas formas de terapia, sonhando com filhos trissômicos totalmente autossuficientes (não que eu duvide dessa possibilidade e também não deseje para o meu bebê)..
Minha opinião é que as terapias são importantes , sim ,é lógico, mas o direito de SER criança, o direito da convivência diária saúdavel, num lar harmonioso , feliz, com aceitação plena, sem luto e com MUITO amor corresponde a 90% de qualquer terapia...é a melhor, a mais prazerosa e, no tocante à retribuição da criança tanto em desenvolvimento quanto em cumplicidade,amor, gratidão , afeto e tudo mais de bom faz esse paizão de 44 anos já emocionalmente bem calejado se desmanchar em lágrimas ...