domingo, 28 de agosto de 2011

Não existe escola inclusiva

De tempos em tempos alguém me pede indicação de escolas inclusivas, geralmente são pais em busca de um lugar para os seus filhos mas, de vez em quando, também são professores de escolas que rejeitaram algum aluno e que tentam indicar um outro lugar para os pais que os procuraram.

Infelizmente essa é uma informação que eu não possuo, ou melhor, possuo, mas não da forma como as pessoas gostariam de ouvir.

Não existem escolas inclusivas ou, pelo menos até hoje, eu não conheci nenhuma. E não existem porque o nosso sistema educacional, seja ele público ou privado, ainda está muito longe de ser inclusivo.

Claro que quem acredita que inclusão significa apenas ter alunos com alguma deficiência na escola vai encontrar centenas de escolas inclusivas. Só na rede municipal de Sâo Paulo são mais de mil escolas. Mas não é isso que torna inclusiva uma escola.

Outros entendem que são as escolas que "aceitam", como se inclusão fosse apenas uma concessão que a escola faz aos que ela consideram como diferentes.

Não poucos entendem que a escola inclusiva é aquela que faz a sua parte, desde que a pessoa incluída se prepare para acompanhar as suas regras inflexíveis, alguns chegam mesmo a contratar profissionais para tomar conta dos seus filhos dentro da escola (e ainda chamam esses profissionais de "mediadores"...)

Quando encontram uma escola que tem uma estrutura especial para os alunos com deficiência acreditam que chegaram ao nirvana inclusivo. Quem não quer uma escola toda equipada para as necessidades ( "especiais"?!?) das pessoas com deficiência, mesmo considerando que as pessoas sem deficiência não se beneficiam disso?

Escola inclusiva só vai existir quando a educação passar por uma transformação profunda, valorizando a individualidade de cada e de todos os alunos.

Quando, ao invés de concessões, houver uma ruptura no sistema atual que conduza a uma escola que não estabeleça condições para matricular os alunos (com e sem deficiência). Quando o sistema representar a existência de uma escola que seja boa para todos.

Quando as mudanças beneficiarem toda e qualquer pessoa.

Isso só vai acontecer quando escolas, pais e alunos pararem de olhar só para os seus interesses e entenderem que o interesse de todos está acima dos seus umbigos. Isso não vai cair do céu, nem virá do planalto central.

Enquanto isso não acontece, vou continuar recomendando aos pais que procurem escolas que tenham a ver com seus valores e crenças, como procurariam para qualquer outro filho sem deficiência e que, junto com a escola, procurem transformá-la num ambiente inclusivo.

E que fujam da tentação da escola que aceita, da escola que privilegia, da escola que impõe fardos ilegais.

Descrição da imagem
: uma sala de aula perfeita, cheia de crianças de todos os tipos e super equipada.

18 comentários:

Arimar disse...

Fabio.
Realmente é isso mesmo !!!!
Isso quando não falam com orgulho: "Aquela criança é de Inclusão".
A Caminhada ainda é longa.
Beijos.
Bom Domingo.

Cesardvf disse...

Caro Amigo, não há mais o que dizer. Cabe a nós, professores, pais, sociedade, a tarefa da inclusão. Que não é só dos especiais ou deficientes, mas também daqueles ditos normais e que estão excluídos. Aliás, copiando Pierre Bourdieu: "a escola é lugar de exclusão". Um grande abraço.

www.passaportebrasilusa.com disse...

Aqui nos EUA existe a educacao inclusiva principalmente na rede publica a lei aqui diz que uma crianca so devera ir para uma sala especial se a mesma ser portadora de deficiencia grave. Mas infelizmente na rede privada as escolas tem suas proprias leis.
Nem tudo e perfeito.
Lucia Rosenblum
Mae do Lucas 5 anos Down syndrome

Sonia V. disse...

Bom...eu fui uma dessas mães que pediu ajuda e dicas ao amigo blogueiro...Ele tem razão em tudo que escreveu. Eu conheço esta realidade "de dentro"... Ainda anseio por esta escola. Ou não...

Naira Rodrigues disse...

Fabio, excelente reflexão

Precisamos mesmo assumir o desafio de discutir a educação como um todo,
afinal de contas o que queremos é uma escola para todas as pessoas e não uma
escola para pessoas com deficiência ou algo que reforce os estigmas de
super-herói ou vítima

Gente! Vamos falar da educação de forma mais profunda, da reformulação dos
valores e princípios dos processos de ensino e aprendizagem

Beijos

Naira

Rosangela Gera disse...

Fábio,

adorei esse texto , não existe escola inclusiva , aliás eu sou sua fã ,

amo os seus textos, me identifico com eles , e muitas vezes voce " clareia " as coisas, sejam sentimentos , vivencias, experiencias que tenho com a educação inclusiva .
E realmente não existe escola inclusiva, procure a escola em que gostaria que seu filho estudasse e seja um agente de mudança nesse espaço para que essa educação inclusiva aconteça . Voce tem razão .

Mas, como é dificil muitas vezes ,
aproveito a oportunidade para falar sobre a última conquista na escola da Laura ,
O Conselho Estadual de Educação do ES emitiu parecer técnico dizendo que é obrigação sim da escola promover a acessibilidade fisica no que tange ao piso tátil e direcional . É que a escola tinha dúvidas .... sobre a legislação .
Bom, pretendo falar sobre isso em um e-mail separado porque acho que precisamos divulgar .
Mas, voltando ao seu texto, a escola inclusiva não existe , da maneira como se procura porque a sociedade também não é inclusiva, e a gente espera que essa escola de hoje torne essa sociedade melhor e haja o feedback para uma educação inclusiva legítima, no futuro . Por enquanto , ainda prevalece essa assertiva sim, não há escolas inclusivas, por tudo que voce descreveu .

Um abraço, Rosangela

Ione Nadu disse...

Perfeito como sempre! Não tem o que comentar! Parabéns mais uma vez!
Por isso publiquei a matéria da revista crescer em meu Blog, que está em construção. Ficarei muito grata com sua visita e estou aberta para receber suas críticas e sugestões Fábio! Vou te enviar o link por mensagem no Facebook. Abraços e bjsss nos corujados, rsrsrs.

ZéMoa disse...

!

Cleovane Selbach disse...

Saudações. A inclusão deveria iniciar no sistema educacional, porém, o nosso sistema é de ensino, não de educação, e isso é o início de vários outros problemas. Aproveitando, teria um email para entrar em contato com os autores do blog. Quero relatar uma situação de desafio para a inclusão e pelo direito de ser igual. É sobre o jovem que criou um abaixo assinado para lutar pelo direito de fazer a prova da carteira de motorista igual a qualquer outra pessoa. A história dele está no site www.sauloaugustini.com.br, Seria muito bom divulgar no blog a campanha dele. Conheço ele, e sei que merece. Meu email é cleovane.selbach@gmail.com , caso queira entrar em contato.

Eleni Moraes e Silmara Ribeiro disse...

Olá Fábio,
Concordamos com você!
Trabalhamos em um centro da Prefeitura de Artur Nogueira (CRAEE - Centro de Referência em Atendimento Educacional Especial)cujo objetivo é auxiliar professores e crianças no processo de inclusão, entretanto, o que percebemos é que, exatamente como você descreve no texto, apesar da legislação e do movimento, muito ainda precisa ser modificado. A escola precisa ser um espaço que atenda a criança em suas necessidades pedagógicas, afetivas, lúdicas e sociais, independente de sua condição.
Um abraço,
Eleni Mendes de Moraes - Terapeuta Ocupacional
Silmara de Cássia Affonso Ribeiro - psicóloga

...EU VOU GRITAR PRA TODO MUNDO OUVIR... disse...

Finalmente li um texto sobre a falada "inclusão " que disse o que eu penso e não sabia como me expressar.

Minha filha tem SD e 32 anos. Afável,alegre,alfabetizada,com muitos dons,estuda matemática(claro que ao nível dela) com prazer,mas nestes anos todos jamais encontrei esta escola que a trataria do jeito que ela se apresenta...

Hoje frequenta um Grupo de Convivência que foi o lugar que mais a incluiu na sociedade como um todo.Neste grupo fazem de tudo para que todos fiquem bem mas inclusão...não existe!

Obrigada por falar um idioma que eu entendo!

Um abraço e tenhamos fé no futuro!!!

Sonia Regina

Augusto Galery disse...

Olá, Fábio,

Parabéns pelo texto, mas, se me permite um aparte: como você mesmo disse no post anterior, é necessário cuidado com as generalizações...
Concordo com você: não existe uma escola para todos, hoje. Mas também enxergo iniciativas importantes, embora às vezes isoladas, de se repensar o modelo de educação. E em escolas públicas.
Te convido a conhecer o projeto Diversa www.diversa.org.br, onde buscamos conhecer essas experiências nas quais uma das grandes barreiras para a sociedade inclusiva - a das atitudes - está sendo vencida.
Abraços!

Augusto Galery disse...

Gostaria de comentar a fala da Lucia. Tivemos a oportunidade de conhecer uma escola de Boston, a Henderson School, que tem um ótimo trabalho no sentido de escola para todos. No entanto, a pesquisadora que relatou sobre essa escola - seu nome é Lara Malpass - nos disse que escolas como a Henderson ainda são raras nos Estados Unidos. O "Least Restrictive Environment" (ambiente menos restritivo ou LRE) equivale, muitas vezes, ao terrível "preferencialmente" imposto pela lei 7611... Essa mesma pesquisadora havia elogiado a lei brasileira exatamente por não ter o "preferencialmente", pois o que acontece em grande parte dos EUA é que se formam escolas "especialistas" em determinadas deficiências.
Pelo que temos estudado, estamos o mundo todo no mesmo barco: aprendendo do zero a respeitar as pessoas que são diferentes...

cRiPpLe_rOoStEr a.k.a. Kamikaze disse...

O sistema educacional brasileiro está falido, tanto estruturalmente quanto moralmente. E ainda tem a questão do bullying que é um problema sério e por conta dessa "castração moral" que se faz de tratar a vítima como culpada quando revida de forma agressiva só piora a situação, como que uma consolidação do "direito" de se praticar bullying.

Hermes disse...

Excelente artigo. Gosto muito do assunto educação. Tomei a liberdade e publiquei no meu blog, espero não haver nenhuma objeção. Havendo me avise.

Fabrício Sereia disse...

Entendo que é muito difícil uma escola estar preparada para todos os tipo de deficiências que os alunos podem ter (são muitos tipos).
Nossa tarefa (como pais e tutores) é encontrar uma escola que aceite se adaptar as necessidade que apresentamos, e devemos acompanhar o desenvolvimento DE PERTO.
Acredito que a inclusão esteja mais relacionada com a adaptação da criança ao ambiente de maneira geral (espaço físico, professores, colegas, metodologia) e não a perfeição ao estilo "cartão postal" que buscamos nas instalações e profissionais com doutorados.

Gostei do seu Blog! Parabéns! Coloquei no favoritos ;)

Amélinha Muñoz disse...

Eu fico muito anciosa, perdida, impotente qdo se fala em buscar uma escola que aceite a matricula de uma criança especial,a minha filha é portadora da Síndrome de Rubinstein-taybi, passou pela escola pública por 4 anos e foi só para o social, para o convívio, para o se ajustar as regras. As escolas particulares regulares não aceitam. Pelo que entendi era mais fácil aceitar um deficiente físico a um com atraso mental. Quero o direito da milnha filha ir a uma escola, conviver com crianças com e sem comprometimento, para aprender a viver, conviver, se fortalecer, tornar-se independente tb...complementar, dar sequencia expandir o que a família oferece, se dá pra entender...Temos que analisar, discutir e modificar a educação de hoje. Torná-la acessível a todas as crianças e fazer dela o instrumento de transformação. Não acho correto por ex. passar de ano um aluno que não tem condições nenhuma, qua profissioanis teremos no futuro????
Há tanto pra falar, antes me sentia sózinha nessa questão, agora descobri esse blog. Grata, Amélia

Ana Silvia Peixoto P. Machado disse...

Nossa, como esse tema é realmente difícil. Estou as voltas para encontrar uma escola comprometida realmente com o tema inclusão, para minha filha. É muito blá blá blá e pouco esclarecimento. Quando encontro algo que atenda de certa forma essas expectativas, os valores das mensalidades são cruéis demais para o bolso dos que já investem muito em reabilitação. Ou seja, falta muito nessa caminhada.