segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Amores perfeitos

Em 1958, aos 17 anos, Mildred Jeter, uma jovem negra, casou com Richard Loving, um operário da construção civil de 23 anos, numa época em que casamentos interraciais eram proibidos na Virginia, seu estado natal. Mildred e Richard foram então à capital, Washington, onde se casaram, para em seguida retornar à Virginia.

Pouco depois do casamento, foram acordados no meio da noite no seu quarto por xerifes e presos pelo 'crime' de terem se casado com o tipo errado de pessoa
.

Um juiz da Virginia ameaçou prender o casal caso eles não deixassem o Estado e ficassem fora pelos próximos 25 anos.


O casal Loving se mudou para a capital americana, e com a ajuda da União Americana de Liberdades Civis e da Associação Nacional pelo Avanço dos Negros defenderam seu direito de se casar perante a Suprema Corte dos Estados Unidos.


No histórico julgamento do caso "Loving versus Estado da Virginia", em 1967, a Suprema Corte americana decidiu que a proibição do casamento interracial era inconstitucional - decisão que afetou as leis na Virginia e em 16 outros estados americanos.

O estado do Alabama, no sul, foi o último a abolir as leis que proibiam o casamento inter-racial - o que só ocorreu no ano 2000.


Do outro lado do Atlântico, a África do Sul proibia, até 1985, qualquer tipo de relacionamento sexual entre pessoas de etnias diferentes. A lei tinha o nome de Lei da Imoralidade.


Qualquer semelhança com o preconceito existente a respeito das pessoas com deficência, não é mera coincidência, é mero preconceito mesmo.


Preconceito que não é exclusivo das pessoas sem deficiência, diga-se de passagem. A criação de um portal de namoro destinado aos "deficientes" é a prova de que as pessoas acreditam que esses não podem se misturar com aqueles.


Pode-se alegar que, pela exclusão social, as pessoas com deficiência tem poucas chances de conhecer outro tipo de gente, o que não justifica a criação de mais guetos segregados além dos já existentes.


Ainda mais quando o espaço reforça a idéia de que o relacionamente entre as pessoas vai ser, ele mesmo, deficiente.


Deficiente, segundo o Aurélio, é aquele em que há deficiência, carência, insuficiência. Falho, imperfeito.


Logo, um namoro deficiente é aquele que é falho, imperfeito. Talvez pela falta de amor de alguma das partes, ou pela imperfeição da paixão, tão necessária a um relacionamento amoroso.


Um namoro não é deficiente pelo fato de uma, ou ambas as pessoas, terem ou não deficiência.


Conheço pessoas com deficiência casadas com pessoas sem deficiência. Relacionamentos que, se não são perfeitos, são muito felizes.


Conheço relacionamentos que não são deficientes entre casais onde ambos tem alguma deficiência.


E conheço relacionamentos deficientes entre pessoas sem deficiência nenhuma.


E continuo torcendo para que o amor entre as pessoas não seja definido pela CID ou pela CIF
.

Descrição da imagem: fotografia do casal Mildred e Richard Loving

2 comentários:

Elizabet Dias de Sá disse...

Fábio, agradeço por expressar com propriedade o que penso sobre a criação deste portal.
Elizabet Sá

Ione Nadu disse...

Aliás, "relacionamentos deficientes entre pessoas sem deficiência nenhuma", é o que mais vemos hoje em dia.
O relacionamento entre o criador(a) do portal e as pessoas com deficiência, com certeza é deficiente.
É linda a luta que travaram pelo amor, Mildred e Richard Loving.
Muito antes de ter uma filha com deficiência, eu já lutava contra o racismo e a homofobia, algumas vezes dentro do meu próprio círculo familiar.
Atitudes como essa, da criação do portal, é um exemplo a NÃO ser seguido.