segunda-feira, 6 de abril de 2009

Nossa inclusão cotidiana


Eu adoro falar em seminários, congressos, fóruns. Aliás, quem me conhece, sabe que eu adoro falar.

O que não significa que eu não seja um ótimo ouvinte. Não acredito em ninguém que ache que não tem mais nada a aprender, em qualquer campo do conhecimento.

Nos últimos dias estive em duas situações onde tive a oportunidade de fazer as duas coisas. Uma, no seminário de educação inclusiva que aconteceu durante a Reatech. Outra em dois encontros com professores da EMEI João Paulo II.

Sem nenhum demérito ao primeiro (aliás aprendi muito com o Prof Davi, de Portugal), tenho de reconhecer que aprendi mais no segundo.

Essa EMEI (caso alguém não saiba, significa Escola Municipal de Educação Infantil, que abrange crianças de 3 a 6 anos) está num contexto onde teria tudo para não dar certo. Fica num bairro pobre já nos limites extremos da zona oeste de São Paulo - muita gente já ouviu falar na Parada de Taipas e nunca esteve perto de lá. Funciona em 3 turnos e com classes no limite máximo do número de alunos dessa idade.

Durante quase 5 horas eu conversei com duas turmas de professores, merendeiras, condutores e outros profissionais da escola. Como de hábito falei muito, como de hábito ouvi muitas coisas interessantes - e não existe nada mais interessante do que ouvir como a inclusão acontece na vida real, especialmente onde as situações de exclusão são múltiplas e complexas.

Aprendi, de uma professora, que ela tem um aluno com uma síndrome genética cujo laudo médico dizia que ele não teria possibilidade de fazer um monte de coisas, inclusive de falar. Só que, com ela, o menino fala. E não estava se referindo a simplemente pronunciar uma ou outra palavra esporádica, mas de construir frases, rebater argumentos de forma simples, mas lógica.

De outra professora, com um aluna com um Transtorno Global do Desenvolvimento, que ela, por conta própria, leu tudo que poderia a respeito da deficiência da menina e que até enxerga nela muitas das características apontadas nos livros, mas que nenhuma das receitas de bolo que ela leu funciona, pois a menina não é um produto de confeitaria. O dilema dessa professora nesse momento é: como é que ela convence a mãe da menina a mantê-la numa escola comum (está na última série da EMEI) ao invés de matriculá-la numa instituição segregada.

Fui questionado por uma merendeira a respeito de tratamento diferenciado para as crianças com deficiência. A pergunta era muito simples, mas cheia de conteúdo conceitual : tem um menino que não gosta de bolacha e só quer comer pão. Como ele tem deficiência, eu dou pão para ele... mas e as crianças "normais" que também não gostam de bolacha? Por que eu não posso fazer a mesma coisa? Ou eu dou pão para todos que não gostam de bolacha, ou todos (incluindo a que tem deficiência) ficam sem nada.

Outra pessoa veio me contar de um moleque cujo desenvolvimento, depois que foi para a escola, deu um salto de qualidade que surpreendeu os próprios pais que não acreditavam que ele fosse conseguir fazer ou aprender muita coisa.

Saí de lá com a certeza que, apesar das muitas dificuldades atitudinais, estruturais e financeiras, a inclusão pode acontecer em qualquer lugar, desde que os profissionais envolvidos nessa questão estejam sinceramente interessados em seres humanos. Que estejam abertos à reflexão. E que acreditem que ninguém pode ser abandonado pelo caminho.

Ah...você gostaria de saber o que foi que eu falei? Nada que fosse mais relevante do que o que eu ouvi.

Cheguei em casa bastante cansado, depois desse tempo todo em pé e de enfrentar o trânsito pesado da cidade. Mas hoje eu durmo feliz.

Descrição da imagem: crianças na fila de entrada da EMEI João Paulo II, do bairro de City Jaraguá em São Paulo

3 comentários:

Glaucia disse...

Olá, Fábio!
Excelente experiência e obrigadíssima pelo relato. Ele me fez lembrar daquele ditado:"Vivendo e aprendendo!"Onde existe amor, interesse e empenho,a resposta será surpreendente e positiva!Parabéns a todos os envolvidos neste processo de mudança de valores, conceitos e atitudes!
Ab,
Gláucia Grochocki.

Anônimo disse...

Lendo o relato da professora lembrei com carinho de quando a daniela (filha) foi ajudandte de classe, esqueci o nome dque se da a professora que cuida só de uma criança com deficiência, desculpe... Então, o aluno tinha 7 ou 8 anos, diversas paralisias, não tinha nenhuma comunicação com ninguém nos dois anos que ja tinha frequentado a escola. Foi difícil porque não acreditavam no que ela estava fazendo, diziam que ele não entendia o que ela falava etc... deram-se muito bem, infelizmente a mãe é quem decidiu tirá-lo da escola, achou que não valia a pena, não percebeu a grandeza do primeiro sorriso dele pra Dani quando conseguiu fazetr um "desenho", já que tinha os dedos atrofiados.
Mas por outro lado, fico indignada com pessoas esclarecidas que se dizem inclusivas e aceitam comentários preconceituosos, não percebem ou não querem perceber isso.
Beijo, Fabio. Que mais escolas, professores e merendeiras assim venhamos a conhecer.
Maria.

Christiane Forcinito Ashlay Silva de Oliveira disse...

Fábio

E mais uma vez só tenho a agradecer...

Quando puder entre aqui e dê uma lida... http://astrologiaecatolicismo.blogspot.com/

Mesmo que não acredite só observe pela ótica educacional...

Confesso amigo que as vezes eu me canso e quando leio seu blog consigo recuperar uma parte de minhas forças...

Grande abraço.

Chris.