quinta-feira, 2 de abril de 2009

Caça às bruxas

Inclusão implica em tirar as pessoas de quem não quer largar e entregá-las para quem não quer receber. Eugênia Fávero


Sempre falo que é próprio da natureza humana procurar culpados pelos males que nos afligem. Não é diferente no movimento inclusivo que tende sempre a uma simplificação ao apontar o dedo na direção de um culpado.

Afinal, a quem é que interessa a sociedade excludente em que vivemos? Por que será que tantos não têm interesse na inclusão de todos.

Não interessa à famílias, afinal é mais cômodo encontrar um lugar onde possam largar os filhos para que alguém tome conta e esse comportamento não depende de classe social, a diferença apenas é que os ricos pagam para alguém cuidar e os pobres esperam que isso venha do pai governo (como vem a "aposentadoria" das pessoas com deficiência que faz com que muitos pais não queiram, de forma alguma, que os filhos sejam autônomos, sob pena de perder essa renda).

Não interessa aos educadores. Inclusão implica em mudança de atitude. É um desafio à competência de escolas e de professores. E sempre é mais fácil dizer que as dificuldades são de aprendizagem...

Não interessa aos "especialistas" da deficiência. Além de colocar em risco seu faturamento, ainda coloca em xeque sua autoridade "divina" de definir o destino das pessoas.

Não interessa à classe política que vive de currais eleitorais baseados em tipo de deficiências ou em instituições assistencialistas.

Na verdade, só interessa às próprias pessoas com deficiência que, através dos diversos níveis de educação podem chegar à autonomia e à vida independente.

Mesmo esses, assim como passarinhos que nascem em gaiolas e acham que a felicidade é ter alpiste suficiente, são abafados pelo status quo que trabalha fortemente para que eles não tenham consciência disso e se satisfaçam com um punhado de privilégios, aos quais dão o nome de "conquistas".

Na próxima vez que você se sentir tentado a apontar o dedo em direção aqueles que você considera os bruxos da exclusão, pense um pouco se o seu comportamento não faz parte do mesmo clube.

Descrição da imagem : quadro retratando a execução de uma suposta bruxa na fogueira

6 comentários:

Anônimo disse...

Como sempre vi de maneira natural a inclusão de TODOS, não só de pessoas com deficiência. Moro numa cidade com maioria alemã e italiana, então imagine o que sofrem as pessoas negras e eu sempre tive uma postura muito rígida a respeito disso, não me importava de onde vinha a palavra preconceituosa eu rebatia no mesmo instante, por muitas vezes sendo grosseira ao extremo.
E não tenho negro na família assim como não tenho down, minha filha que é professora teve dois alunos com SD e vinha dela o tratamento drm didtinção, nunca falei "tem que ser assim", mas acho que ainda exemplo vem de casa...
Gostaria de saber das pessoas o antes e o depois Fabio, tu por exemplo, tinhas algum contato com a SD antes do nascimento do meu amigão Samuca?
Beijão.
Maria

Luiziane disse...

Querido Fábio,
Obrigada por este blog tão especial!
Você sempre me inspira. Nos momentos em que fico sem palavras, eu as encontro no teu blog e me sinto como em casa, já não me sinto tão Dom Quixote ou Poliana (como muitos me chamam) por acreditar que inclusão é possível!
Concordo contigo,em cada palavra! É isso que tento construir com o grupo com o qual trabalho (http://grupodecomunicacao1.blogspot.com/), que depende de cada um deles a inclusão que tanto desejam! Não adianta apontar e choramingar...e isso não diz respeito só à inclusão, não é mesmo? Diz respeito a tanto na nossa sociedade...
Eu teria tanto a comentar apenas deste post... como sempre, adoro este lugar!
Um grande abraço,
Luiziane

...EU VOU GRITAR PRA TODO MUNDO OUVIR... disse...

Fábio!!!Li seu texto que veio de encontro ao que penso,e ao mesmo tempo fez com que minha cabeça começasse a "coçar".Vou pensar e volto para comentar com mais cuidado.O que li mexeu muito comigo inteira.Volto depois...

Beijos!!!Sonia Regina.

SINDROME PÓS-POLIOMIELITE disse...

Olá Fábio!
Sabe como suas palavras ecuaram nos meus ouvidos, na minha mente? Como um forte eco, capaz de transcender os espaços, o universo.Parabéns pela inspiração! Você foi capaz de verbalizar a dor nossa de cada dia. Fazer contato com a verdade nos transforma em pessoas e não coadjuvantes do sistema. Cumprimento-o com o coração. Aplausos, aplausos...
Carinhosamente,
Eliana Aquino

Vanessa dos Santos Nogueira disse...

me senti a própria bruxa na foqueira, encontei a indicação do seu blog lá no da josi, ando tão "revoltada" com todos os discursos que nos "obrigam" a escutar todos os dias, somos anestesiados por falsas ilusões, e quando não "somos" parte do problema normalmente não questionamos nada, tenho pensado muito sobre a questão da inclusão, ainda ontem em uma aula que estava participando todos falavam que o brasil é um exemplo de inclusão, eu fico pasma, e sinceramente fico sem saber o que falar, pq quando o problema não faz parte dos nossa familia ou amigos, o nosso egoismo vai além da compreensão do realmente acontece....

Vou voltar mais vezes aqui...
Abraços

Fábio Adiron disse...

Vanessa realmente o assunto é mais complexo do que simplemente achar culpados.

A inclusão no Brasil, assim como outros temas, está super bem regulamentada. Falta vontade pessoal e política para fazer acontecer.