quarta-feira, 23 de julho de 2008

Xiita convidada - Envelhecer...O que é isso?

Naira Rodrigues*

Quando eu era adolescente, lá pelos meus 14 ou 15 anos, vivia sonhando com os 40 anos...Em como seria ter 20 ou 25 anos a mais...

Era engraçado, pois tinha certeza absoluta que estaria muita bem casada, com dois filhos, um casal preferencialmente, claro, teria um corpo perfeito, pois faria muita ginástica e seria uma profissional muito bem sucedida...

Ainda não cheguei aos 40, porém, tenho claro que minhas previsões estavam bastante equivocadas...

Tenho 2 filhos lindíssimos, 2 meninos, já fui casada, hoje tenho uma relação estável que me faz feliz, mas não é exatamente um casamento de princesa...O corpo??? Se com 15 anos eu queria ficar longe das academias, imagine se hoje que pouco tempo tenho até para comer, gasto minhas energias com malhações ou cuidados puramente estéticos...

Profissionalmente estou muito bem, me considero bem sucedida, mas batalho muito para sustentar minha família, pois como milhares de mulheres, desempenho vários papéis ao mesmo tempo...

Agora, escrevendo tudo isso, minha vida começa a passar como um filme, quantas transformações, quantas conquistas e quanta mudança de paradigmas...

Não sei se falo de envelhecimento ou de maturidade, mas acredito que as duas coisas estejam intimamente relacionadas. Acho que tenho um certo desgaste, talvez provocado pelo tempo, talvez pelos excessos, certamente, sinto-me, apesar do tal desgaste, mais madura, mais centrada e muitíssimo mais segura e feliz.

Será que estou sendo gentil comigo mesma? Será que a realidade não bateu à minha porta?

Sei lá, sei que já não consigo mais ficar horas, muitas horas caminhando sobre meus altíssimos saltos, adoro um sapato confortável, pois meu equilíbrio já não é o mesmo.

Minha bengala me serve, além de guia, também de apoio, muitas vezes para descer ou subir escadas, ou para me segurar quando tenho minhas tonturas na rua.

Entretanto, sinto-me mais confortável ao andar em qualquer lugar, não empino o nariz diante de uma pergunta menos elaborada de alguém que nunca viu uma mulher cega, tenho mais paciência, acho que estou mais tolerante com as pessoas e, talvez, comigo também.

Admito que ver meus filhos crescer, além de maravilhoso é doloroso, pois sinto que estão formando suas próprias opiniões, seus paradigmas e preparando-se para seguir seu rumo, não posso nem pensar nisso que começo a chorar.

Chorar...Choro por qualquer coisa, com uma reportagem na tv, com uma notícia emocionante, com as perguntas de meu filho que, aos 10 anos me diz que logo estará na adolescência e vai namorar muito...

Acho que o choro está virando minha marca registrada, pois até dando aulas, quando os alunos me pedem para contar experiências do meu trabalho com inclusão, então me lembro do quanto avançamos, lembro-me do meu primeiro vestibular, quando tive que apresentar um laudo médico, com a assinatura do médico registrada em cartório para poder fazer prova “especial”, não em Braille, mas oral e que hoje, temos alunos cegos, surdos e com todo o tipo de deficiência em todos os espaços educacionais, com a garantia legal de equiparação de oportunidades.

Sei que temos muito a avançar, muitas conquistas, mas em menos de 20 anos, tanta coisa mudou, as pessoas com deficiência já podem ter referências de outras que já passaram por todo um caminho e hoje estão por aí, contando suas histórias de conquistas, ou, apenas com sua presença na sociedade fazendo acontecer a tal “inclusão”.

Bem, mas eu falava de envelhecer, ainda não cheguei a uma conclusão do que seja, mas acredito que o processo da vida nos proporciona trocas, deixamos nosso vigor físico de lado e ganhamos uma energia interior valiosa. Trocamos a preocupação extrema com as curvas do corpo e conquistamos o real prazer de ser, exatamente quem somos.

Trocamos a quantidade pela qualidade nas relações sexuais, não sei as outras mulheres da minha idade, mas prefiro uma noite muito intensa e apaixonada, do que todas as noites cumprindo tabela...

E assim caminhamos, com menos rigidez, com mais flexibilidade em todos os sentidos.

Acho que o fato de ser cega ando tendo algumas dificuldades adicionais, minha orientação espacial já não é a mesma, meu equilíbrio, minha tolerância ao cansaço, se bem que isso deva ser por conta de um hipotireoidismo que me acompanha desde a adolescência...

Minhas preferências mudaram muito, troco qualquer balada noturna por um delicioso dia em família, na praia, no parque...

Adoro festas, como sempre gostei, mas prefiro festas infantis, são mais divertidas, com comidas mais gostosas. Ai será que estou me tornando uma chata de plantão???

Na verdade, acho que equilibro melhor minhas atividades sociais, um pouco de cada coisa, sei lá, ou será que aproveito melhor cada momento?

Ainda tenho dúvidas, muitas dúvidas, sei que meu processo de envelhecimento está apenas começando, o que será que me espera pela frente?

*Naira Rodrigues é fonoaudióloga , professora de educação inclusiva na Unisantana e militante de movimentos de defesa dos direitos das pessoas com deficiência.

Descrição da imagem : duas pessoas idosas caminhando juntas numa praia

Um convite para jantar

Volte um pouco no tempo, uns vinte anos, por exemplo. Se você fosse receber amigos para jantar e eles lhe dissessem que eram vegetarianos você ia ficar sem saber o que fazer para eles comerem. Se você fosse o vegetariano, provavelmente seria considerado um chato e acabaria recebendo poucos convites para jantar. Num país de cultura carnívora como o nosso você estaria excluído.

O que isso tem a ver com as pessoas com deficiência ? Quando falamos que a inclusão de pessoas com deficiência representa um progresso para todos, que é uma prova de desenvolvimento assim como ter água potável nas casa ou um bom sistema de saúde, mudamos as referências para esse debate.

Apelar para o senso comum de ética ou de bondade é um erro. Seria ótimo se isso levasse as crianças para dentro da escola, ou os adultos para trabalhos decentes. Seria bom se os prédios, livros e sites fossem acessíveis, porque isso é a coisa certa a se fazer, mas não está acontecendo. Então o negócio é apelar para os próprios interesses das pessoas sem deficiência

Nos últimos anos entramos em contato com as mais variadas culinárias, mesmo em cidades menores encontramos restaurantes japoneses, chineses, vegetarianos. E não é porque ganhamos imigrantes desses países ou porque eles tem direito a sua própria dieta, mas porque as outras pessoas descobriram que a comida é saborosa e vale a pena comprar.

Nós também precisamos promover a inclusão dessa forma : de uma maneira que as pessoas a queiram.

Por que aquele executivo malhado vai se preocupar com rampas ou elevadores ? Ele ama escadas, adora fazer um “step”, o que ele ganha com rampas e elevadores ? Mas um dia ele chega cheio de pastas, carregando o notebook, cópias de uma apresentação...e eis o elevador. De noite se quiser passear no shopping com o filho pequeno, usa o carrinho e sobe a rampa. Ah, e ele tem pais, avós e um dia será um deles.

Por que pais com filhos ditos “normais” vão se preocupar se a escola aceita ou não crianças com deficiência ? Bem, pelo menos pelo fato de que os seus próprios filhos terão uma educação melhor. Um professor que é capaz de ensinar uma pessoa com algum tipo de dificuldade certamente é um professor mais criativo e melhor qualificado em estratégias pedagógicas.

Por que um cidadão saudável, produtivo e com um bom emprego vai se preocupar com a contratação de pessoas com deficiência ? Pessoas desempregadas, com ou sem deficiência, são um dreno na economia do país, as pessoas que tem emprego acabam pagando mais impostos para sustentar uma gama de benefícios os que não tem emprego. Dinheiro que poderia ser investido em benefício de todos e não só de alguns.

Isso assusta os empregadores ? Não deveria, se fala tanto em congressos de recursos humanos que horários flexíveis e trabalho em casa geram mais satisfação e consequentemente aumentam a produtividade.

A inclusão faz sentido em vários aspectos. Precisamos parar de apelar para a caridade das pessoas. Vamos reforçar e apelar para o egoísmo delas, e que elas possam aproveitar com gosto esses novos sabores.

Descrição da imagem : uma mesa preparada para a refeição, junto a uma janela de onde se vê a rua

quarta-feira, 16 de julho de 2008

Todas as ONGs deveriam ser extintas

Em 1945, os vencedores da Segunda Guerra Mundial concordaram em que era preciso algum tipo de organização supranacional e supragovernamental para “preservar as gerações futuras do flagelo da guerra” . Nacionalismos agressivos só tinham produzido desgraças e mais de 50 milhões de mortos em combates, bombardeios, massacres, bombas atômicas, soluções finais etc. Era preciso recuperar o internacionalismo. A criação da ONU partiu da trágica constatação de que sistemas de potências (centrais, nazistas, fascistas, democratas, comunistas etc.) foram responsáveis por duas guerras mundiais e mazelas adjacentes. De certa forma, foi a primeira ONG a ser criada com o objetivo de combater a injustiça e reduzir desigualdade econômica e social.

Na sua esteira vieram suas agências (Unicef, Unesco, OIT, OMS) sempre com o mesmo intuito de resolver de forma internacionalizada, aquilo que os governos locais não davam soluções. Crianças abandonadas, culturas relegadas ao décimo terceiro plano de prioridades, trabalho do trabalho, desastres na saúde pública.

No Brasil, as ONGs assistencialistas surgem também nessa época e, durante a ditadura militar outros movimentos cresceram muito como conseqüência do desmantelamento das instituições políticas clássicas, como os partidos, os sindicatos, os diretórios acadêmicos de estudantes, as entidades de bairro, assim como a interrupção abrupta de experiências educacionais e culturais junto às comunidades tradicionais e populares. Esses vazios acabaram ocupados, inicialmente de forma semi-clandestina por grupos de base, pouco estruturados, quase sempre de caráter político-religioso, que surgem nas periferias das cidades e no campo como canais de demandas das classes populares.

Estes grupos vão se constituir, num primeiro momento, com as reivindicações dos trabalhadores no âmbito da produção (salários, participação na produtividade, previdência social, etc.) e no âmbito do consumo de serviços coletivos (saúde, transporte, saneamento básico, educação etc.). Depois, estes focos se diversificam, passando a abranger outras dimensões da vida social. urgem, assim, as novas questões sociais, definidas a partir do gênero, do étnico, da livre opção sexual, da natureza; da ecologia e da deficiência.

Qualquer pessoa que se oponha às boas intenções dessas organizações pode parecer um ser de outro planeta. Afinal, todas elas (ou quase todas) lutam pela justiça social, pelos direitos dos cidadãos e pelo bem de todos. Acabamos criando uma dependência “química e psicológica” desse tipo de estrutura à medida que deixamos de acreditar que quem deveria promover o bem estar de todos possa fazê-lo. Pior, esse ceticismo faz com que deixemos de exigir dos nossos governantes os nossos direitos que estão assegurados em leis que não são cumpridas, e nos resignamos a apoiar, e até participar, de organizações que quebram nossos galhos no curto prazo.

O objetivo de toda ONG ao ser criada deveria ser sua auto-extinção, ou seja, à medida que alcançam suas metas de correção de rumos da sociedade deveriam fechar as suas portas. A única que eu conheço que tem essa proposta como lema é a Associação Carpe Diem que já abre sua página na Internet afirmando que “Esse site não deveria existir”.

Além disso, muitas delas, também não têm interesse nenhum que a sociedade seja justa e igualitária, porque perderiam o seu sentido e, com isso, seus dirigentes e funcionários perderiam suas sinecuras e sua visibilidade política e social. Para evitar esse desastre trabalham fortemente pela manutenção das desigualdades e da tutela que exercem sobre os seus “assistidos”.

O mundo só vai ser realmente um lugar bom de se viver quando nós não precisarmos mais de nenhuma delas. A começar pela ONU.

Descrição da imagem : detalhe do quadro "O retirantes" de Portinaria, uma família fugindo da seca.

segunda-feira, 14 de julho de 2008

Xiita Convidada - Preparar para incluir


Vilma A. de Mello*

Preparando para incluir:

Freqüência ligada, contadores acertados, começa a contagem regressiva...
5,4,3, 2, 1 e...Opa! Para! Que o professor é irresponsável!
Novamente:
5, 4, 3, 2, 1 e... Opa! Para! Que o pai não está participando!
Mais uma vez:
5, 4, 3, 2,1 e....Opa ! Para! Que a escola não está preparada!
Outra vez:
5, 4, 3, 2,1e... Opa! Para que é o aluno que não está preparado!
Só mais uma vez, acho que agora está tudo certo:
5, 4, 3, 2, 1 e... Opa! Para tem algo errado nessa lei, precisamos consultar o advogado!

Vamos fazer um intervalo para os ajustes:

1, 2, 3,4 e, Vão os professores se prepararem!
1, 2, 3,4 e, Vão os pais para dar aquela força!
1, 2, 3,4 e, Vão as autoridades prepararem as escolas!
1, 2, 3,4 e, Vão respeitar esse aluno!
1, 2, 3,4 e, Vão cumprir a lei!

Parece que ainda não está legal, está faltando alguma coisa..., ou sobrando...Vamos ver:

Meu entendimento sobre inclusão é muito simples, nem dá para comparar a mandar foguetes para o espaço, até porque geralmente mandam foguetes para o alto, na vertical, e inclusão é uma relação horizontal, é olhar para o lado e ver seu semelhante nem igual e nem diferente, mas apenas um ser humano.

Mesmo que professores se preparem, mesmo que os pais estejam apoiando, mesmo que o governo dê condições físicas nas escolas, mesmo que as leis ditem a inclusão, ela jamais sairá do papel se nós enquanto sociedade não colocarmos as pessoas com deficiência em nosso meio, igual em direitos e deveres. Inclusão não deve ser por abrigação, nem com hora marcada, inclusão deve ser um hábito, que não depende apenas de condições externas, mas principalmente da nossa prática diária de incluir.

*Vilma A. de Mello é estudante de pedagogia na Universidade Norte do Paraná- UNOPAR e mãe de uma criança com Síndrome de Down

Descrição da imagem : foto de uma ampulheta com o tempo se esgotando

quarta-feira, 9 de julho de 2008

Criando um irresponsável


Responsabilidade, nos explicam os dicionários é a obrigação de responder por certos atos próprios ou alheios ou por alguma coisa que lhe foi confiada.

Descartando os seus conceitos comerciais (onde a responsabilidade pode ser limitada ou ilimitada, dependendo da organização societária de uma empresa), a obrigação de responder pelos seus atos pode ser de caráter civil ou penal.

Responsabilidade civil é uma obrigação, imposta pela lei, pela qual se tem de responder perante um terceiro pelos prejuízos que se lhe tenha causado. Responsabilidade penal é a obrigação imposta pela lei de alguém responder por certos atos (delitos, crimes, etc.) sofrendo as sanções nelas estatuídas, caso se prove que os praticou.

Quando eu ouço algumas pessoas repetindo o chavão de que a inclusão precisa ser feita, mas com responsabilidade concluo que responsabilidade não faz parte da formação humana dos professores e, pelo jeito, também não é uma matéria do currículo dos cursos de pedagogia e, dessa forma, precisam ser lembrados constantemente dessa necessidade nas suas práticas profissionais.

Eu não sou professor por formação, mas me coloco no lugar deles e acho isso uma ofensa. Me soa como se alguém dissesse que eu posso falar, desde que com honestidade (ou seja existe um pressuposto que eu seja desonesto ou que os professores sejam um bando de irresponsáveis).

Irresponsabilidade civil é a das pessoas que insistem em não cumprir as leis do país. Pessoas que se perpetuam causando prejuízo a milhares de outras pessoas que não são alfabetizadas (em nome de uma suposição de que não tem capacidade para isso), que não são qualificadas para o trabalho e não terão como se sustentar, que não são preparadas para a autonomia e onerarão seus familiares ou o estado, ou ambos. Pessoas que deveriam ser responsabilizadas civilmente e pagar todos os danos que causam às pessoas que excluem e ressarcir o estado pelos danos futuros.

Irresponsabilidade penal dos pais por cometerem o crime de deixar seus filhos sem escolaridade regular e comum - é crime de abandono intelectual (Art 246 do Código Penal).

Irresponsabilidade penal das escolas (Lei 7.853/89) que recusem, suspendam, adiem, cancelem a inscrição de aluno....por motivos derivados da deficiência que tem.* Se todos os pais de pessoas com deficiência estivessem realmente lutassem pelo futuro dos seus filhos, muitos diretores de escola estariam respondendo por processos criminais e, quiçá, na cadeia (o crime é punível com reclusão de 1 a 4 anos)

Eu prefiro manter a minha "irresponsabilidade" de levar meu filho todos os dias para a escola "irresponsável" que o educa, onde ele já foi alfabetizado, está aprendendo os mesmos conteúdos que os colegas (afinal, é tão gente quanto as outras crianças), tem os mesmos direitos e os deveres "irresponsáveis" de todas as pessoas.

Se cidadania, autonomia e educação fazem parte da irresponsabilidade apregoada pelos defensores do preconceito e da segregação, eu vou educar meu filho a ser um irresponsável de marca maior.

*Lei 7.853/89
Art. 8º Constitui crime punível com reclusão de 1 (um) a 4 (quatro) anos, e multa:
I - recusar, suspender, procrastinar, cancelar ou fazer cessar, sem justa causa, a inscrição de aluno em estabelecimento de ensino de qualquer curso ou grau, público ou privado, por motivos derivados da deficiência que porta;
II - obstar, sem justa causa, o acesso de alguém a qualquer cargo público, por motivos derivados de sua deficiência;
III - negar, sem justa causa, a alguém, por motivos derivados de sua deficiência, emprego ou trabalho;
IV - recusar, retardar ou dificultar internação ou deixar de prestar assistência médico-hospitalar e ambulatorial, quando possível, à pessoa portadora de deficiência;
V - deixar de cumprir, retardar ou frustrar, sem justo motivo, a execução de ordem judicial expedida na ação civil a que alude esta Lei;
VI - recusar, retardar ou omitir dados técnicos indispensáveis à propositura da ação civil objeto desta Lei, quando requisitados pelo Ministério Público.

Descrição da imagem : Samuel, meu filho, fazendo uma demonstração de química na feira de ciências da sua escola;

segunda-feira, 7 de julho de 2008

Xiita Convidada - Equívocos sobre a exclusão

Tereza Cristina Rodrigues Villela

Vejo com indignação esse uso generalizado de comportamentos que ameaçam ao bem-estar de todos, como pretexto para que a inclusão seja feita ou não, apenas quando o educador assim desejar, sendo chamada de “inclusão responsável”.

Vamos falar sobre o que é responsabilidade docente então. Falo como pessoa com deficiência e como educadora, que começa a atuar em educação especial, procurando subsidiar a inclusão dos alunos que atende, em período contrário ao que freqüentam as escolas regulares, embora não tenha especialização na área, porque ainda sou graduanda do curso de Pedagogia.

Creio que mais irresponsável do que "jogar" crianças com ou sem deficiência em uma sala de aula e deixá-las à mercê de um ensino que não respeita seus saberes e não estimula suas potencialidades, é mantê-las em escolas sem conviver com os colegas de sua geração com e sem deficiência e também não ter suas capacidades estimuladas.

Acho uma pena que ainda estejamos discutindo se é direito legítimo de toda criança estar nos mesmos ambientes que seus pares, ao invés de discutirmos como isso pode ser feito.
E não consigo entender por qual razão os educadores que afirmam não ter subsídios do Estado para dar uma boa aula preferem cobrar que este envie os alunos com deficiência às escolas especiais em período integral, ao invés de exigir o preparo que afirmam não ter, como se não estarem preparados servisse como subterfúgio para não se prepararem.

A meu ver, a formação de professores deixa muito a desejar na questão principal que é o olhar para o aluno; ainda dependemos muito do bom-senso do educador, que muitas vezes não tem conhecimentos básicos para ensinar quem quer que seja, tomando as aulas como forma de aprendizado constante tanto dos alunos como de si próprio, tendo metas globais de desenvolvimento, ou seja, pensando na questão das inteligências múltiplas, nas diferentes formas de comunicação e expressão, tanto por parte do aluno, como por parte do educador para a socialização do conhecimento.

Não é fácil, mas é possível e aos poucos vamos conseguindo com conhecimento das etapas do desenvolvimento humano, diálogo sobre práticas que obtiveram bons resultados e muita pesquisa, mas sobretudo com uma mudança de olhar da deficiência, dificuldade de aprendizagem, do aluno-problema, para o ser humano rico em potencialidades, com metas que o desafiem.Conhecimentos específicos sobre as deficiências ajudam e muito, claro, mas sua falta não pode limitar as possibilidades de quem quer que seja.

Supondo que haja casos em que a inclusão seja impossível: quem pode ser tão matematicamente capaz de mensurá-los a ponto de que saibamos que a inclusão lhes traria malefícios, ou que seria negativa para os colegas de sala de aula? Aliás, os estudos apontam justamente para o contrário disso, nos locais em que a inclusão é efetiva e não fictícia.

A inclusão não serve apenas para socialização, como alguns professores desinformados pensam e, claro, fica muito mais difícil fingir que as turmas são homogêneas quando a diversidade torna-se gritante e a cultura em muitas escolas e universidades, como é socialmente, ainda não está voltada à diversidade. Mas isso não pode servir de pretexto para que a inclusão não seja feita e incentivada, tanto quanto não se pode pretender fechar escolas pelo fato de muitas delas não terem profissionais qualificados.Creio, discordando de muitos educadores e pais, que a redução do número de alunos em sala de aula auxiliaria sim na melhoria da qualidade da educação, mas concordo; não se pode atribuir toda a responsabilidade pelo fracasso escolar, que muitas vezes é de "ensinagem" à superlotação das salas.

O grande problema da educação brasileira, creio eu é que tornou-se uma batata quente; os pais atribuem seu fracasso aos educadores, que por sua vez o atribuem aos familiares e ao estudante, que é sempre "um problema" do outro ou de si próprio, mas nunca do professor.

Se as escolas não forem capazes de envolver as famílias na educação de seus filhos, tendo o respeito necessário para ouvir e acatar sugestões, continuaremos nesse ambiente, em que, no caso dos estudantes com deficiência há ainda mais um componente para que escola regular e família, por desconhecimento ou por comodismo queiram mandá-lo pelo maior tempo possível: a escola especial, que serve como pretexto para que o aluno não seja "problema" nem da escola e nem da família, afinal, ele não aprende mesmo...

Admitindo que haja alunos com comportamentos impossíveis de se lidar, isso ainda assim não serviria para tamanha negativa à inclusão... E é o que ocorre; tenho acompanhado alunos com baixa visão, para quem bastaria uma mudança de contraste de letra e fundo ou ampliação de textos e os professores, mesmo contando com orientações, continuam dizendo que não sabem o que fazer, ou que é muito difícil, porque têm muitos alunos em suas salas e não estão preparados.

Pequenos estímulos e adaptações de materiais, ou na forma de ensinar a turma toda podem fazer toda a diferença. Mas é preciso que educadores e familiares estejam dispostos e abertos a isso.Na cidade em que vivo, muitas vezes, o diálogo resolve, vários educadores procuram parceria conosco e isso tem sido imensamente positivo, porque depois de algum tempo, desenvolvem suas próprias estratégias e nossa atuação vai se tornando menos necessária, mas muitas vezes, os educadores das escolas regulares são displicentes com os alunos que atendemos e os pais querem evitar briga judicial, para evitar trabalho, porque é desgastante para eles. E raramente resolve esclarecer-lhes sobre os direitos de seus filhos.

É necessário que se deixe de tomar os estudantes como joguete e que nosso olhar esteja voltado a eles enquanto seres humanos, se com ou sem deficiência, ou dificuldade de aprendizagem, isso, ao meu ver vem em segundo lugar.

Conseguimos que o Senado ratificasse a Convenção da ONU, mas ao que parece, teremos bastante trabalho para colocá-la em prática, como já é com a legislação existente...

Tereza Cristina Rodrigues Villela, graduanda do curso de pedagogia da Universidade do Sagrado Coração, em Bauru.

Descrição da imagem : uma roda de bonecos de papel dançando enquanto um boneco fica de fora da brincadeira.

quarta-feira, 2 de julho de 2008

Vidas paralelas

Os jogos Parapanamericanos acabaram. Ufa. Apesar da pouca cobertura da mídia, a que existia era para mostrar o lado heróico desses coitadinhos dos deficientes que "a despeito" das suas limitações, muitas vezes severas, conseguiram vencer na vida e ter os seus 5 minutos de fama (ah, você me corrige e diz que na frase do Warhol eram 15 minutos de fama, mas eu descobri que no caso das pessoas com deficiência 10 desses minutos foram amputados, ops, será que posso usar esse termo aqui ?).

Mas os jogos dividiram a opinião da comunidade das pessoas com deficiência. De uma lado aqueles que defendiam os jogos como uma forma de luta contra a discriminação. De outro (onde me incluo) aqueles que perceberam que os jogos eram ainda mais discriminatórios que o dia-a-dia.

O prefixo "para" , vem do grego e quer dizer algo que está "ao lado de" algo, paralelo a , mas que não é o mesmo algo, ainda que compartilhe parte da sua essência. A parapsicologia estuda os eventos psíquicos, assim como a psicologia, mas se restringe aqueles que tem aparência sobrenatural. Um parâmetro é uma medida ou referência paralela ao que se mede. Um livro paradidático pode até ajudar no ensino, mas é considerado algo fora do eixo formal do aprendizado.

Uma das coisas que eu nunca esqueço das minhas aulas de geometria do ginásio é que as linhas paralelas só se encontram no infinito. Quando lembro que o Para-Pan é o que ocorre em paralelo ao Pan, isso só está me dizendo que as linhas paralelas ("normais" e "estranhos") nunca vão se tocar...exceto no infinito.

Porque é que precisamos ser "Para" , se nós acreditamos que não podemos continuar vivendo em mundos separados ??

Se eu aceito o Parapan, dentro da mesma lógica, eu aceito a Para-escola, o Para-emprego , o Para-seguro-saúde....

Por quê que atender a diversidade se eu posso isolar as pessoas em grupos homogêneos ??

Agora se eu luto por uma escola/emprego/sociedade de todos juntos respeitando a diversidade e as limitações de cada um, o que eu preciso é de uma vida que não seja "para-nada” com todas as pessoas incluídas.

Inclusão é traçar linhas diagonais, ortogonais , assimétricas, aleatórias. Rabiscar o papel da vida de uma forma que as linhas se toquem e se encontrem o tempo todo. Usar as mais variadas cores de grafite, tinta e o que mais houver.

Até o limite onde não se saiba mais qual linha teve origem aonde.

Descrição da imagem : céu estrelado com dois fachos de luz paralelos indo em direção ao infinito

quarta-feira, 25 de junho de 2008

A novela, as famílias e as escolas

O fato da novela de maior audiência, do canal de maior audiência da nossa televisão, ter retratado a vida de uma criança com deficiência gerou intensos debates sobre as cenas que ocorreram na mesma. Não há dúvidas que a forma como o tema se conduziu trouxe mais benefícios do que problemas para as pessoas com Síndrome de Down, ainda que tenha gerado uma forma de "adoração" típica de modismos.

Isso não significa que não devemos ter uma leitura crítica a respeito do assunto.

Não podemos esquecer que se trata de uma novela, com todos os componentes próprios desse tipo de dramaturgia : é superficial, afeita aos escândalos e à pieguice e, definitivamente, focada nas classes mais favorecidas. É uma ingenuidade achar que qualquer assunto vá ser tratado da forma que gostaríamos que fosse (e digo, gostaríamos, porque escrevo na condição de pai de um menino com Síndrome de Down). Basta ver que um dos pontos mais importantes na vida das nossas crianças é a estimulação precoce, que foi solenemente ignorada na trama.

No entanto, um efeito colateral me chama mais a atenção no momento, pois sua recorrência nos grupos de discussão parece estar crescendo, que é a relação família e escola. Num dos capítulos, a mãe adotiva da menina identificou que ela estava sendo discriminada (de fato) na escola e partiu para a briga, inclusive com ameaças de utilização de meios legais. Claro que a escola acabou se mobilizando e, como sempre, a corda ameaçou estourar do lado mais fraco (na estrutura escolar) que é a professora.

A partir desse capítulo, pudemos acompanhar o relato de muitos pais e mães que passaram por situações semelhantes ou muito piores. Alguns nem sabiam que podiam recorrer ao Ministério Público em defesa do direto dos seus filhos (na verdade podem até dar queixa na delegacia, pois isso é crime) mas, sempre existe um mas, isso também tem o seu lado perverso, alguns pais estão achando que qualquer falta de atenção com os seus filhos "especiais" é motivo para ameaçar escolas e professores.

Como se a família fosse realmente um ambiente inclusivo....

E não é. Muitos pais de crianças com deficiência discriminam os próprios filhos ao tratá-los de forma absurdamente diferenciada porque o "coitadinho" tem isso ou aquilo....ao permitir que eles sejam os donos do mundo sem noção de limites, a não exigir que eles se desenvolvam porque é mais cômodo mantê-los como bebês (vide a própria novela, onde uma menina de 6 anos fazia as refeições num cadeirão).

Acontece que é próprio da natureza humana jogar a culpa nos outros e, nesse caso, o bode expiatório vai ser a escola. E o bode expiatório da escola é o professor. Nossas famílias, cada vez mais, terceirizam a criação dos filhos, esperam que a escola resolva o "problema" de tirar fraldas, que imponha limites que as crianças não conhecem em casa e até que aprendam a se alimentar de forma saudável (mesmo quando chegam em casa e os pais só comem porcarias).

Uma criança com deficiência não é boba. Ela observa e imita o comportamento dos pais da mesma forma que qualquer outra criança. Esses vão lhe servir de referência durante um bom tempo. Se ela percebe que é tratada de forma condescendente vai se aproveitar da situação, em casa e na escola.

Não vou defender indiscriminadamente as escolas. O padrão da grande maioria destas ainda é de discriminação e de exclusão de todos os seres que podem dar trabalho: pessoas com deficiência, com problemas de comportamento, pobres, em conflito com a lei, abusadas e surradas... a lista de "problemáticos" é imensa, aliás, esses seres humanos, são muito complicados mesmo. O grande objetivo de muitos diretores e professores é escapar dessa "encrenca" chamada inclusão.

Acho que a gente precisa também olhar para dentro das famílias e ver o que acontece antes de jogar a culpa toda na escola....

Seja em casa, seja na escola, nossas crianças não devem ser tratadas como "café com leite"...
Descrição da imagem : foto sobreposta de Regina Duarte e Joana Mocarzel, como personagens da novela Páginas da Vida da TV Globo.

quarta-feira, 18 de junho de 2008

Xiita convidada - Incluindo na comunidade

*Claudia Grabois


Muitos dos nossos heróis bíblicos e rabinos renomados tinham reconhecidamente algum tipo de deficiência. Moises tinha um problema na fala, Isaac e Jacó se tornaram deficientes visuais com a idade, o rabino Nahum de Ginzo era cego, e muitos outros poderiam ser citados, se contrapondo ao grandes heróis da cultura greco romana.

Nossa tradição primou desde o inicio pela proteção das pessoas com deficiência, enquanto na Grécia bebes nascidos com deficiência eram abandonados e por conseqüência não sobreviviam. Na nossa cultura tal ato jamais foi admitido, pois matar uma criança por qualquer que fosse a razão constituía assassinato
Não obstante leituras preconceituosas de textos bíblicos, primamos desde sempre pelos direitos humanos de todas as pessoas, onde estão inclusas as pessoas com deficiência.

Pela nossa tradição, reconhecendo que somos todos criados a imagem e semelhança de D’us, reconhecemos também o valor individual de cada um(a) com a unicidade e plenitude inerentes à pessoa humana, levando em conta todas as suas características individuais, seja ela uma pessoa com ou sem deficiência.

As pessoas com ou sem deficiência são iguais mas lamentavelmente as que tem algum tipo de deficiência são privadas de muitas coisas, principalmente nos ditos países em desenvolvimento.

No mundo existem aproximadamente 600.000.000 de pessoas com algum tipo de deficiência sendo que aproximadamente 25.000.000 delas vivem no Brasil, segundo estatísticas da ONU. Deste número 27% vive em situação de pobreza extrema e 50% em situação de pobreza.

Outro dado importante é que a pobreza por si só produz 1/3 de todas estas deficiências que poderiam ser evitadas com o aumento das políticas públicas de prevenção e inclusão social, bem como com a não discriminação.

O direito de ir e vir para as pessoas com deficiência ainda está longe de se tornar realidade, e isto impede também o direito à livre expressão, pois quem não chega, não fala.

Mas há também aqueles que conseguem chegar mas não podem se expressar pela falta de um interprete, também de direito, para sua própria língua, que aqui chamamos de Libras-Lingua Brasileira de Sinais. E também aqueles que não são ouvidos nunca, os deficientes intelectuais, privados do convívio social pela segregação imposta, e se analisarmos bem, imposta a todas nós, pois em outro ângulo pessoas sem deficiência também acabam segregados pela impossibilidade desta convivência.

Os tipo de deficiências são: Física, Sensorial, Múltiplas e Intelectual e denominamos as pessoas com deficiência simplesmente de “pessoas com deficiência” e as pessoas sem deficiência de “pessoas sem deficiência”.

Em todas as culturas e tradições existe um grande número de pessoas com deficiência que interagem com suas comunidades na proporção que as comunidade interagem com elas, ou seja, de acordo com a acessibilidade proporcionada, pois quanto mais acessível, maior
participação de pessoas com deficiência e entende-se como meio para tornar acessível, o desenho universal, Libras(Brasil), Braille, acesso tecnológico e mudança de atitudes.

A comunidade judaica , inserida no contexto social brasileiro, apresenta as mesmas dificuldades para visualizar a pessoa com deficiência como um ser pleno e sujeito de direitos, assim como todos somos. Talvez por ser mais fácil “filantropizar” do que promover o acesso e reconhecer a cidadania, continuamos a promover atendimentos segregados e por conseqüência segregadores que nos levam a um preconceito ainda maior com a infantilização de pessoas com algum tipo de deficiência e desmerecimento do seu valor social.

A luta pelos direitos das pessoas com deficiência tem avançando muito nos últimos anos e acredito que as comunidades, sob pena de ficarem ultrapassadas em matéria de reconhecimento aos direitos humanos, precisam se apressar para acompanhar este rico processo.

Adaptações e mudanças podem ser feitar para modificar consciências, corações, computadores, entendimentos, espaços e acessos a todos que queiram e precisem, a todas que por direito pertencem. São pequenas e grandes medidas , listo algumas delas abaixo, algumas dispendiosas, outras de baixo ou mesmo sem custos.

1-Criar um grupo de inclusão em sua instituição para traçar políticas inclusivas para pessoas com deficiência, tendo pessoas com deficiência participando deste processo e levando a discussão para dentro da comunidade

2-Fazer pelo menos a cada dois meses para toda a instituição uma atividade que envolva pessoas com deficiência, ou seus representantes e levar a sério o lema” Nada Por Nós Sem Nós”

3-No caso de sinagoga, pedir também que regularmente seu rabino fale sobre a importância da inclusão ampla, geral e irrestrita de todas as pessoas com deficiência em suas prédicas

4- Tenha nos serviços a lingua brasileira de sinais, sinalizando que surdos são bem vindos,
tenha também material impresso da instituição em braille

5- No caso de Sinagoga, fazer um projeto para conseguir também Tora e Sidur em braille, para que os deficientes visuais sejam igualmente bem vindos. As recomendações valem também para instituições políticas, sociais e de juventude.

6- Verificar se a Bimah é acessível e verificar também se a mezuzá está colocada ao alcance de alguém em um cadeira de rodas. Fazer o mesmo com a caixa de kipot, com o armário dos sidurim e tudo o mais que pode ser alcançado por quem é cadeirante..

7- Verificar se os jornais comunitários podem ser acessíveis com o uso das modernas ferramentas da internet, para os deficientes visuais, colaborando para que se torne realidade.

8- Chamar pessoas com deficiência, de todos os tipos para participar da sua instituição e insista, pois esta participação é importante não apenas para ela, mas principalmente para os demais

9- Incluir imediatamente todas as crianças , adolescentes e jovens com deficiência e reúna os jovens da instituição para participar deste processo e fazer o que for preciso para que isto aconteça. Realizar oficinas, tratar também do assunto com enfoque judaico, não deixar de lembrá-los que “nada faz uma pessoa ser melhor ou pior que a outra” e que mesmo vivendo em comunidade somos diversidade e mostrare que é possível. A convivência com as diferenças nos torna mais aptos para a vida .

10- Propor que no curriculo de estudo para bar mitzvah/batmitzvah seja adicionado a inclusão de pessoas com deficiência à luz do judaismo

11- Ensinar aos seus filhos em casa que as pessoas com deficiência não são doentes, ensinar também aos professores das escolas, aos monitores e madrichim, aos lideres, e transmita isto a todos. Ensinar o mesmo em todas as Instituições.

12- Pedir que as escolas coloquem nos seus currículos desde o maternal a convivência com a diversidade e a aceitação das pessoas com deficiência e incluam as famílias neste trabalho. Lutar pela escola inclusiva para todas as crianças, escola que não atende a todas não é Escola, pelo menos de acordo com as nossas leis de nosso pais, e do pirkei avot. Lembre sempre dos benefícios que uma criança que não tem deficiência leva para sua vida adulta ao poder crescer ao lado de uma criança com deficiência, aprendendo a respeitar as diferenças, e portanto aprendendo a exigir ser respeitado. Pois em algum momento da vida, cada um de nós sempre será colocado como o diferente. Mas principalmente tenha claro que a inclusão é um direito amplo, geral e irrestrito, onde não cabem uma negação. E as escolas devem entender isto completamente.

13- Tornar os lugares acessíveis, com rampas, elevadores, banheiros , espaços adequados e o que mais for necessário. Levar em frente esta idéia. A persistência leva ao êxito. Mantenha palcos acessíveis bem como locais de reuniões, e se for necessário perca um pouco do seu conforto para o bem de todos. Impedir uma única pessoa de participar de atividades por conta de nosso egoísmo em não facilitar o acesso, contraria nossa própria existência.

14-Fazer intensamente um trabalho para que as pessoas com deficiência sejam vistas com
naturalidade, mas tendo claro que inclusão só se aprende fazendo, é uma luta diária contra preconceitos e por direitos aparentemente básicos, mas nem sempre claros para a maior parte das pessoas.

15-Promover acessibilidade nos meios de comunicação, entendendo que o direito à
informação é para todos e sem ele não existe igualdade de oportunidades.

16-Tenha claro que todas as mudanças estruturais que vierem a ser feitas beneficiarão todas as pessoas, diminuirão riscos de acidentes para grávidas, crianças e idosos, diminuirão o número de doentes, pois a exclusão provoca inúmeras doenças,diminuirão a violência, pois a inclusão caminha na contramão e diminuirão as distâncias, pois a inclusão rompe inúmeras barreiras e muito embora seja trabalhosa, torna a vida mais bonita.

Muito embora as sugestões tenham sido feitas visando a inclusão das pessoas com deficiência,o direito à inclusão é para TODOS. Se para as crianças é direito inalienável, para jovens,adultos e idosos é o verdadeiro exercício da cidadania, é o ir e vir ,a livre expressão, saúde física e mental,a busca pela dignidade,pela justiça social e o caminho para valorização total da diversidade e legitimação das diferenças com respeito a características individuais e coletivas.Inclua-se, inclua o outro e o aceite no seu TODOS , assim estaremos também construindo a paz

*Claudia Grabois
Diretora de Inclusão Social da FIERJ
Membro da equipe técnica do Forum de Educação Inclusiva do Estado

Descrição da imagem : foto do filme “Praying With Lior", história de um jovem com Síndrome de Down que se prepara para o seu Bar Mitzvah

Ser normal é uma normose

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Durante o 1º. Friscap*, em Serra Negra, eu tive a feliz oportunidade de ouvir novamente o Dr José Moacir falando dos conceitos de Normose, usando as tiras e as charges do Quino como referência. Não poderia ter sido uma combinação mais feliz. Foi uma pena que a lei de Murphy onipresente em eventos que usam recursos tecnológicos (ou seja, todos) não permitiu ouvirmos a trilha sonora da apresentação, conhecendo o gosto musical do José Moacir, seria a cereja do bolo.

Num determinado momento, depois de falar sobre o conceito de normose, ele perguntou ao público o que eles consideravam normótico. Notem, ele não estava falando para um público acadêmico, a maioria das pessoas presente eram aquelas que alguns chamam de “gente simples” (como se algum ser humano fosse simples). Surgiram várias respostas e, sem exceção, todas demonstravam ter compreendido perfeitamente o conceito. A melhor, na minha opinião, foi um senhor que disse que normótica era a indiferença das pessoas – perfeito !

Eu fiquei com a minha pulga de estimação atrás da orelha procurando algo que eu considerasse normótico. Concluí que ser normal é uma normose.

Você deve estar se perguntando, mas afinal, que raios é Normose ?

Segundo Pierre Weill temos uma crença bastante enraizada de que tudo o que a maioria das pessoas pensa, sente, acredita ou faz, deve ser considerado como normal e deve servir de modelo para o comportamento de todo mundo. E se é modelo para todo mundo, isso deve servir de base para a educação.
O problema é que a normose é uma doença. Não é apenas um consenso sobre valores equivocados mas um “conjunto de normas, conceitos, valores, estereótipos, hábitos de pensar ou de agir que levam à sofrimentos, doenças ou mortes.” O que define um comportamento normótico é que ele é :

  • Consensual em torno da sua normalidade.

  • Inconsciente quanto ao fato de ser algo doentio

  • Provocador de danos sérios e reais
Já escrevi uma vez sobre a falsa idéia que exista uma normalidade. Mas nunca tinha me atentado ao fato dessa busca pela mesma ser uma normose. Vejam por que :

Consensual em torno da sua normalidade : com raras exceções (eu devo ser uma das 3 ou 4 delas), todo mundo acredita que existam pessoas normais, que determinados comportamentos sejam normais, que o desenvolvimento humano segue padrões de normalidade (aliás, existem centenas de livros que parametrizam essa normalidade).

Muitos repetem ad nauseam que “de perto ninguém é normal”, mas preferem olhar todo mundo de longe. É mais cômodo. Olhar os seres humanos de perto incomoda o nosso lado narciso. De longe, como diria o senhor que mencionei acima, é mais fácil manter a indiferença.

Inconsciente quanto ao fato de ser algo doentio : você pode ter concordado comigo até agora, o que não significa que, sem perceber, tanto você quanto eu, continuamos a ter as nossas réguas de normalidade. Continuamos a nos medir e medir as demais pessoas por essas réguas.

Inconscientemente, todos nós acreditamos na normalidade e a buscamos cotidiana e incessantemente. Pior, censuramos, consciente e inconscientemente, as pessoas que não se enquadram. Olhamos feio para aqueles que se vestem de forma incomum, criticamos quem não gosta ou pratica as mesmas coisas que todo mundo – especialmente aquele vizinho que diz que não tem um computador.

Pais de outras crianças olham com piedade para os meus filhos quando digo que eles não vão ao McDonald´s nem assistem a Xuxa. Uma das tiras da Mafalda que o José Moacir mostrou era da escola toda em volta dela assombrada com o fato dela não ter televisão. Ele esqueceu de mostrar a tira em que o Manolito diz que não gostava dos Beatles (nunca esquecendo que a Mafalda foi publicada na segunda metade dos anos 60)

Provocador de danos sérios e reais : aqui entra o aspecto mais grave dessa história toda. Em busca da normalidade as pessoas tem perpetrado verdadeiras agressões contra seus filhos e seus alunos.

Apesar de estar muito envolvido com as questões da pessoas com deficiência (também massacradas pelos ideais e métodos de busca de normalidade), não são só elas que tem sido, literalmente, perseguidas naquilo que são consideradas desviantes.

Crianças de 6, 7 anos já começam a ser bombardeadas por volumes abusivos de conteúdo nas escolas. Precisam se preparar para esse mundo globalizado, o que é normal. Além disso têm uma agenda de atividades extra-curriculares de dar inveja a qualquer executivo de multinacional, claro, para ser normal precisa falar mais de uma língua, estudar alguma forma de arte, praticar esportes de forma organizada e competitiva (brincar em casa ou no páteo da escola não é considerado como atividade física saudável...). Isso é apenas o básico, o mais sofisticado inclui ainda aulas de informática, robótica, kumon...

E no final, são chamadas de crianças hiperativas ou com déficit de atenção. Ah, atualmente ser hiperativo é normal. Uma dose diária de ritalina resolve o problema, acompanhado, é claro, de mais atividades, as terapias.

Não importa que isso gere stress, mau comportamento, atitudes agressivas. Isso também é normal. Ainda que cause sofrimentos, doenças e, no limite, até mortes (ou acham que jovens dependentes de drogas, adolescentes que se matam no trânsito ou estudantes que entram em escolas armados são só anormais ?)

Qual a conclusão disso tudo ?

Eu não tenho nenhuma conclusão. Uma coleção de preocupações a respeito, mas não consigo visualizar algum caminho que possa mudar esse processo.

O mais grave é que eu estou começando a achar que esse meu ceticismo é normal.


*Fórum Regional de Inclusão Social do Circuito das Águas Paulista

Descrição da imagem : tira do Quino que mostra todas as crianças da escola da Mafalda olhando com espanto para o Manolito ao saber que ele não gosta dos Beatles.