domingo, 19 de outubro de 2025

A língua que exercita o cérebro



Eu vi dos polos o gigante alado,
Sobre um montão de pálidos coriscos,
Sem fazer caso dos bulcões ariscos,
Devorando em silêncio a mão do fado!

Quatro fatias de tufão gelado
Figuravam da mesa entre os petiscos;
E, envolto em manto de fatais rabiscos,
Campeava um sofisma ensangüentado![1]

– “Quem és, que assim me cercas de episódios?”
Lhe perguntei, com voz de silogismo,
Brandindo um facho de trovões seródios.

– “Eu sou” – me disse, – “aquele anacronismo,
Que a vil coorte[2] de sulfúreos ódios
Nas trevas sepultei de um solecismo…”

(Bernardo Guimarães)

Quando ainda éramos crianças, meu pai desafiou a mim e à minha irmã a decorar esse soneto. Os dois sempre fomos muito teimosos em desafiar limites, topamos a parada e ambos alcançamos a meta. Não me lembro se havia algum prêmio envolvido nisso, mas do soneto eu jamais esqueci.

Claro que, além do exercício de memória, também nos exercitamos no uso do dicionário (no caso, um Caudas Aulete, o Aurélio só surgiria anos depois) e aprendemos um monte de palavras cujo significado nunca tinha passado pelas nossas cabeças.

Não é à toa que desde os meus tempos de antanho eu sou apaixonado pelas palavras, bem como das riquezas que elas possuem. Adoro quando me deparo com alguma que desconheço. Pesquiso o significado, a etimologia, suas relações com outros termo. Por isso prefiro sempre recorrer aos dicionários impressos que trazem muito mais informação sobre cada palavra do que o simples significado que apresentam os dicionários online. No caso de palavras estrangeiras, inclusive a pronúncia.

Só adulto entendi o porquê disso, ao me deparar no parágrafo 5.6 do Tractatus Logico-Philosophicus de Wittgenstein com a afirmação: “os limites da minha linguagem significam os limites do meu mundo”. Se tenho o objetivo de expandir minha compreensão do mundo, preciso expandir meu conhecimento da linguagem.

Pelo mesmo motivo, eu vejo com muita preocupação o movimento de simplificação da linguagem, especialmente quando se refere aos nossos petizes domésticos. Os meus foram criados ouvindo palavras incomuns, também foram desafiados a decorar poemas, até o Bernardo Guimarães. Quando recebia a avaliação da escola, desde a educação infantil eram elogiados por terem um vocabulário rico.

Também não concordo com a simplificação dirigida a pessoas com deficiência (um processo de infantilização). Meu filho tem uma deficiência intelectual, nem por isso faz sentido limitar a expansão do vocabulário dele (e sim, ele decorou não só Bernardo Guimarães como também Camões). Ele sabe o que significa seródio e sofisma, e também sabe como consultar um dicionário.

Além dessas experiências pessoais, existem outras dimensões que reforçam a importância do vocabulário amplo:

O vocabulário amplo permite distinções conceituais mais precisas. Conhecer palavras como "melancolia", "nostalgia" e "saudade" oferece ferramentas para compreender nuances emocionais que um vocabulário limitado não captaria. Isso não é apenas nomear diferente, mas perceber diferente (Dimensão cognitiva).

Palavras carregam história e cultura. Quando perdemos termos como "seródio" ou "bulcões", perdemos também as experiências e observações acumuladas por gerações. É uma forma de amnésia coletiva (preservação cultural).

Um vocabulário rico protege contra manipulação retórica. Quem conhece falácias, sofismas e silogismos tem ferramentas para identificar argumentos enganosos. A simplificação extrema da linguagem pode tornar as pessoas mais vulneráveis a discursos simplistas, especialmente em relação a quem usa  termos vagos como "sistema" ou "elite" usados para obscurecer debates políticos (autonomia intelectual).

Há uma dimensão lúdica no aprendizado de palavras novas. O jogo com a linguagem, a descoberta etimológica, o prazer sonoro das palavras, tudo isso enriquece a experiência humana para além da mera comunicação funcional (prazer estético)

Isso não significa que eu precise ficar falando difícil o tempo todo e com qualquer pessoa. Seria mera arrogância ou, pelo menos, o desejo de não ser compreendido. Cada contexto diferente permite, ou não, o uso de determinadas expressões. Particularmente eu odeio a jargonice indiscriminada de determinadas categorias profissionais[3], assim como respeito os limites de quem não teve o mesmo acesso ao aprendizado que eu e meus filhos.

Vale considerar que nem toda simplificação é empobrecimento. A clareza e acessibilidade têm seu valor, especialmente em contextos educacionais e de divulgação. O desafio está em manter a riqueza disponível sem torná-la obrigatória ou excludente.

Quando escrevi meu livro sobre inteligência artificial (e desinteligência natural) já criticava o empobrecimento do vocabulário das pessoas, um processo que, pelo que tenho visto, parece-me irreversível. Também tenho me escandalizado com erros de ortografia básicos praticados por pessoas que, em tese, não deveriam cometê-los.

A linha da mediocridade está sendo ultrapassada para baixo.

Em tempo: caso você não tenha entendido alguma palavra que usei aqui, fique à vontade para buscar o dicionário mais próximo. Seu mundo só vai ampliar, Bernardo Guimarães com seu gigante alado devorando a mão do fado, acabou sendo mais do que um exercício de memória, foi uma lição sobre como a linguagem expande horizontes.


[1] Eu mantenho a grafia original por ser um inimigo da eliminação do trema

[2] Na versão que recebemos para decorar, ao invés de coorte, constava caterva.

[3] Palavra, palavras, palavras: https://www.adiron.com.br/blog/palavras-palavras-palavras/

 

segunda-feira, 15 de setembro de 2025

Discriminando os termos

Muito se fala sobre políticas de diversidade e inclusão e, aqui, gostaria de, antes de mais nada fazer um discriminação, ainda que esse último termo lhe soe esdrúxulo nesse contexto.

Diversidade é algo incontrolável, ela está por todas as partes, basta caminhar pela rua e você estará cercado dela.

Negar a diversidade seria como entrar nos grotões da floresta amazônica e dizer que, para você, é tudo igual, enquanto está cercado do bioma mais diversamente complexo do planeta.

O que não significa que não poucas pessoas rejeitem a diversidade (qualquer diversidade) e procure restringir sua existência a espaços segregados ou, quando isso não é possível, segregar a si próprio para ficar longe dela.

A essa atitude dá-se o nome de exclusão, que pode variar das formas mais sutis, às mais violentas como as tentativas de eliminação de determinados grupos excluídos.

Não é à toa que, em defesa própria, não poucos grupos de excluídos acabem, eles mesmos se auto segregando quando saem em defesa da sua inclusão como grupo. Defender a inclusão de pessoas com as características X, Y ou Z é, na sua raiz, uma forma de segregação.

Por isso que inclusão ainda é um sonho distante em muitos contextos, afinal inclusão de verdade é onde todos participam de tudo com todos os demais. E não a questão de apenas ter o direito de participar, o que não deixa de ser importante, mas onde o cada ser humano seja bem vindo sem condições prévias.

É uma questão de mudança sociocultural que, sabemos, não se constrói da noite para o dia, também nunca se vai construir se não se começarmos.

Enquanto nossas políticas de diversidade e inclusão forem apenas decorrentes de ações afirmativas para grupos específicos (portanto, uma obrigação legal), enquanto não passarem de “greenwashing” corporativo para aparecer na mídia, enquanto forem direcionadas para esse ou aquele público, elas não passarão de uma enganação.

E como esperar isso de uma sociedade cada vez menos preocupada com o coletivo, que todo dia mata um pouco mais a alteridade?

terça-feira, 19 de agosto de 2025

A demolição ainda necessária

Há anos temos lutado por uma educação que seja genuinamente inclusiva, ou seja, que atenda todas as pessoas, independentemente das suas características, dentro dos mesmos espaços.






Muitos progressos, legais e comportamentais, foram alcançados, mas ainda no final do primeiro quarto desse século, muitos ainda entendem que colocar as pessoas ditas "especiais" em escolas comuns, é uma forma de ditadura...

Temos de admitir que a inclusão continua sendo uma "ditadura" terrível. Primeiro porque insiste em oferecer às famílias a escolha de educar seus filhos junto com todas as outras crianças, conforme garante a lei. Que absurdo permitir que as pessoas decidam sobre seus próprios caminhos! Além disso, a inclusão obriga escolas a repensar suas práticas, a formar professores, a derrubar barreiras físicas e pedagógicas. Isso é perigosíssimo para quem lucra com a separação.

Pior ainda: vai fazer com que todas as crianças convivam naturalmente com a diversidade humana, aprendendo desde cedo que diferenças não são defeitos. Imaginem o caos social quando uma geração inteira crescer sem preconceitos, questionando por que alguns espaços ainda excluem pessoas com deficiência!

A inclusão ameaça todo um mercado construído sobre a segregação. Instituições "especiais" que faturam milhões, profissionais que se especializaram em manter pessoas separadas, toda uma indústria da exclusão disfarçada de cuidado.

Uma vez li o texto de uma pessoa que questionava a acessibilidade física: "Seria difícil adaptar-se ao modelo proposto, pois teria para isso de construir uma nova fábrica".

Inclusão não é pôr as pessoas dentro das "fábricas" existentes (escola, trabalho), mas derrubar as paredes e construir uma nova estrutura onde todos possam passar pelas portas, usar os banheiros e também ter acesso ao conhecimento, à cultura, ao lazer e ao prazer, em suma, ao desenvolvimento da dignidade humana.


terça-feira, 12 de agosto de 2025

O teto continua caindo


 Muito se fala sobre políticas de diversidade e inclusão. Antes de mais nada, preciso fazer uma discriminação entre esses conceitos, ainda que o último termo possa soar estranho num primeiro momento.

Diversidade é algo incontrolável. Ela está por todas as partes. Basta caminhar pela rua e você estará cercado dela.

Negar a diversidade seria como entrar nos grotões da floresta amazônica e dizer que, para você, é tudo igual, enquanto está cercado do bioma mais diversamente complexo do planeta. É possível? Claro. Inteligente? Nem um pouco.

Isso não significa que muitas pessoas não rejeitem a diversidade (qualquer diversidade) e procurem restringir sua existência a espaços segregados. Quando isso não é possível, segregam a si próprias para ficar longe dela.

A essa atitude dá-se o nome de exclusão. Ela pode variar das formas mais sutis às mais violentas, como as tentativas de eliminação de determinados grupos excluídos.

Não é à toa que, em defesa própria, muitos grupos de excluídos acabem se auto segregando quando saem em defesa da sua inclusão como grupo. Defender a inclusão de pessoas com as características X, Y ou Z é, na sua raiz, uma forma de segregação. Irônico? Muito. Compreensível? Talvez.

Por isso inclusão ainda é um sonho distante em muitos contextos. Inclusão de verdade é onde todos participam de tudo com todos os demais. Não é apenas ter o direito de participar (o que não deixa de ser importante), mas onde cada ser humano seja bem-vindo sem condições prévias.

É uma questão de mudança sociocultural que, sabemos, não se constrói da noite para o dia. Também nunca se construirá se não começarmos.

E aqui chegamos ao x da questão: estamos realmente começando?

Enquanto nossas políticas de diversidade e inclusão forem apenas decorrentes de ações afirmativas para grupos específicos (portanto, uma obrigação legal), não passarão de cumprimento de tabela.

Enquanto não passarem de "greenwashing" corporativo para aparecer na mídia, continuarão sendo maquiagem.

Enquanto forem direcionadas para esse ou aquele público, permanecerão sendo uma enganação bem-intencionada.

Vou ser mais direto: a maioria das políticas de diversidade e inclusão que vemos por aí não passam de teatro. Um teatro bem montado, com roteiro bonito e atores convincentes, mas ainda assim teatro.

O problema não está apenas nas empresas que fazem esse teatro. O problema está numa sociedade cada vez menos preocupada com o coletivo, que todo dia mata um pouco mais a alteridade.

Como esperar inclusão real de uma sociedade que não consegue nem incluir a si mesma numa reflexão honesta sobre suas próprias contradições?

A inclusão real exige coragem para sair da zona de conforto. Exige reconhecer que talvez sejamos nós mesmos os primeiros a precisar ser incluídos numa nova forma de pensar e agir.

Enquanto não tivermos essa coragem, continuaremos apenas mudando a decoração da sala enquanto o teto desaba.

 

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2025

Simulacros inclusivos



Existem momentos em que você imagina que já tenha visto, ouvido ou lido todas as besteiras que o ser humano é capaz de inventar. Só que não.

Caminhando pelas ruas de certo bairro chique aqui de São Paulo, me deparei em uma das muitas construções que estão em andamento pela cidade. Como todas elas, era protegida por um tapume.

Mas não era um tapume qualquer. Segundo a mensagem escrita em letras grandes, aquele era um tapume inclusivo!!!

Eu fiquei em dúvida se ria ou sentava no chão e chorava, mas não quis sujar minha roupa com os restos de concreto que uma betoneira tinha deixado escorrer pela calçada.

O que afinal é um tapume inclusivo, em um oceano de exclusões?

A primeira é a de que se trata de um prédio bem metido a besta numa das regiões de metro quadrado mais caro da cidade. Portanto, uma explícita, exclusão sócio-econômica.

Segundo, como é comum nesse tipo de mercado, os produtos que serão oferecidos são produzidos majoritariamente por mão de obra preta ou parda, para depois serem habitados pelos mauricinhos e patricinhas do pedaço.

A terceira, é que a obra destruiu a calçada, além dos restos de concreto, com todo tipo de resto de material, ou seja, a calçada está intransitável (cadê a acessibilidade?) não só para pessoas com dificuldade de locomoção, como para qualquer outro humano.

Ah...no tapume, pintado em cores variadas, predominam manchas verdes simulando (ou serão simulacros) um propósito ESG. Eles se acham inclusivos por terem sido pintados por pessoas com deficiência de uma ONG.

Se isso é inclusão eu sou o mico-leão dourado, também risco de extinção.

A imagem é meramente ilustrativa de tapumes que invadem calçadas, e não d tapume mencionado acima

quarta-feira, 15 de janeiro de 2025

Ah... essas generalizações

 



A palavra estereótipo tem origem nas palavras gregas stereos e typos, que significam "impressão sólida". O termo foi criado pelo gráfico francês Firmin Didot em 1794 para se referir a um processo de impressão gráfica que permitia a produção em massa de jornais, revistas e livros. 

O jornalista americano Walter Lippmann foi o primeiro a usar o termo com o sentido psicológico, em 1922. No seu livro Opinião  Pública, Lippmann usou o termo para descrever a forma como as pessoas simplificam e categorizam o mundo e as outras pessoas para facilitar a compreensão. 

 Atualmente, o termo estereótipo é usado para descrever uma ideia ou impressão fixa e generalizada de um grupo de pessoas. Essas representações sociais costumam ser a base de preconceitos e outras crenças sociais.

 Impressão fixa, generalizante é uma prática bastante generalizada (oops!), desde as diferenças mais básicas como as que opõem homens x mulheres, passando pelas de raça e cor (que o diga o comportamento das polícias em relação aos negros)  e, claro, de todas as demais sejam elas representativas ou não.

 Quando trata-se de pessoas com deficiência, a tendência é a de generalizações piedosas e/ou compensatória: “eles são tão amorosos”, “escutam que é uma beleza”, “em compensação são tão inteligentes”, e por aí vai.

 Claro, toda e qualquer generalização, acaba criando barreiras para as pessoas generalizadas e excluindo-as da possibilidade de realizar algo, ou obrigando-as a realizar algo para elas não tenham habilidade ou inclinação.

 Toda vez que você se sentir tentado a começar uma frase com “eles (ou elas) são...” pare e repense o que vai dizer

segunda-feira, 7 de outubro de 2024

Por menos heróis



Você vibrou quando aquele atleta com deficiência múltipla foi campeão de alguma modalidade paraolímpica. A imprensa também, afinal, aquele ser que no cotidiano era relegado a ser um cidadão de terceira classe, de repente virou um herói nacional.

Talvez sua heroína seja aquela moça preta e pobre que saiu da periferia da periferia e agora está se graduando em Harvard ou no MIT.

Também pode ser o jovem autista que ganhou um prêmio num concurso de televisão.

Por incrível que ainda pareça, pode até ser aquela mulher que tornou-se CEO de uma multinacional importante.

Em todos esses (e outros) casos, o que circula no seu consciente ou inconsciente, é de que essas pessoas nunca poderiam ter chegado aonde estão, e por isso devem ser louvadas e adoradas.

Pior do que esses casos, chamados de notáveis, também se repetem nas atividades mais elementares, e tratamos como heróis até aquelas pessoas com deficiência intelectual que aprenderam a ler e escrever (se foram além disso, começam até a aparecer nos jornais e nos filminhos do Instagram.

Vamos combinar uma coisa? Se esse é o seu olhar sobre a diversidade, você está sendo profundamente preconceituoso. O seu pré conceito é justamente é de que pessoas assim não poderiam fazer o que fazem, ou chegar onde chegaram.

Ah...sei, mas você é uma pessoa do bem e gosta de afagar o ego daqueles que você mesmo marginaliza, assim você pode juntar muitos likes reproduzindo esses posts piegas e, quem sabe, até virar um especialista em diversidade.

Poupe-me!

 Como diria  o filósofo Herbert Spencer: “O culto dos heróis é mais forte onde a liberdade humana é menos respeitada.”

Descrição da imagem: figura do herói Hércules, em desenho animado da Disney. Um homem forte e confiante.

quinta-feira, 8 de agosto de 2024

Inclusões excludentes


Aparentemente o termo inclusão virou moda e, como sói acontecer com todas esses modismos terminológicos, acaba tornando-se algo que não representa as suas reais intenções.

Das definições da palavra, a que sempre mais me agradou foi a de “pertencer entre os outros”, é a que melhor representa a minha crença de que só existe inclusão quando ela é de todos com todos.

No entanto, o que se vê todos os dias e com uma frequência absurda é a prática de incluir as pessoas do tipo X, Y ou Z. E aqui cabe uma ressalva, a realidade mostra que essas pessoas X, Y e Z realmente fazem parte de grupo que, historicamente, foram e ainda são excluídos em diversos contextos sociais e econômicos.

Por outro lado, se eu milito para só incluir X, e não tenho a menor preocupação com Y e Z,  eu estou sendo tão, ou mais, segregacionista que as classes privilegiadas.

Pior, muito pior, é quando eu crio situações ditas inclusivas que permitem só a participação das pessoas X. Quando eu exalto fatos ou notícias a respeito daquele lugar que só contrata ou admite pessoas Y, quando eu me emociono com relatos de um grupo de pessoas Z que teve sucesso (seja lá o que se entende por isso).

Essa postura é um problema ideológico, por que o que se esconde atrás dessa atitude é a não-aceitação da diversidade como valor humano e a perpetuação das diferenças entre pessoas, ressaltando que essas diferenças são insuperáveis e que cada grupo só pode jogar dentro do seu próprio quadrado.

Quando falamos de uma sociedade inclusiva, pensamos naquela que valoriza a diversidade humana e fortalece a aceitação das diferenças individuais. É dentro dela que aprendemos a conviver, contribuir e construir juntos um mundo de oportunidades reais (não obrigatoriamente iguais) para todos.

Se você se pretende autodenominar inclusivo, comece a se preocupar com todas as pessoas e não apenas com seu grupo de interesse.

O que passa disso, é enganação.

quinta-feira, 18 de agosto de 2022

Tempos doentios


Vivemos em tempos em que tudo virou doença ou, para usar um termo menos agressivo, tudo virou patologia. 

Seja uma apatia do tornozelo ou uma dor no lóbulo esquerdo, para qualquer coisa existe uma pílula, um comprimido, uma formula manipulável (ou será manipuladora? não sei)

O ditado que diz que o que não tem remédio, remediado está, perdeu completamente o seu sentido em um mundo em que sentimentos, comportamentos e o pensamento heterodoxo podem ser medicalizados.

Eu prefiro o termo medicalizado a medicado, que o corretor ortográfico aqui diz que não existe, mas que é definido como sendo o processo que transforma, artificialmente, questões não médicas em problemas médicos.

Problemas de diferentes ordens são apresentados como “doenças”, “transtornos”, “distúrbios” que escamoteiam as grandes questões políticas, sociais, culturais, afetivas que afligem a vida das pessoas.

Para cada um deles existe uma solução imediatista (um dos sintomas da doença como pensamento como bem define o físico David Böhm) ou uma solução mágica. Cá entre nós, se mágica resolve, eu prefiro os truques do Marcos Mandrake que, pelo menos, são bem humorados.

Na sociedade da busca do conforto a qualquer custo, as pessoas, cada vez menos, são capazes de lidar com o fato de que a vida também tem seus aspectos negativos.

O que muitos chamam de sociedade tóxica está, na verdade, transformando-se me sociedade intoxicada. Uma epidemia nada silenciosa que se alastra, sem nenhuma vacina que possa contê-la.

Em 1978, isso já me espantava, e compus um poemeto chamado Farmacopeia amorosa.

Calmantes
Revigorantes
Vitaminas
Tiaminas.
Bulas , engulas.

Para o tédio
Há remédio
No coração
Uma injeção
Se tens pena
Cibalena.

Se me rogas
Tome drogas
Se és altivo
Um curativo
Na paixão
Põe-se algodão.

Vives mal?
Um melhoral
Antipatia
Homeopatia
Mal afamado
Agora é tarjado.

Depois de tantos anos, a situação só se agravou mas, em breve, a pílula azul estará disponível para todos.

 *Disclaimer: autor desse texto reconhece que o avanço da medicina e da farmacologia já poupou várias vidas, mas entende que esse recurso deveria ser exclusivo para as doenças de fato.

Descrição da imagem: uma mão estendida oferecendo uma pílula azul

quarta-feira, 1 de dezembro de 2021

Por um mundo menos humano



Algumas manchetes dessa semana, extraídas de jornais tradicionais (e não de tabloides sensacionalistas):

 Ambientalistas denunciam recompensa a quem matar tubarões em Ubatuba

Jovem denuncia estupro dentro de camarote de rodeio em SP

Mulher descongela geladeira e encontra corpo de bebê escondido

 Explosão em Munique deixa feridos

 Atentado em escola de 2º grau em Michigan deixa 4 mortos e 8 feridos

Não sei exatamente em que universo você vive, nem qual é a sua relação com a realidade, mas eu vivo em um universo e em uma realidade em que as pessoas vivem pedindo atitudes mais humanas.

Querem relacionamentos mais humanos, gestões humanizadas, atendimento humano e, pasmem, alguns até esperam que os robôs possam ser mais humanos.

Como se o ser humano fosse um ideal de perfeição ou humanizar algo fosse o nirvana a ser alcançado por uma espécie que nesses últimos 10 mil anos demonstrou ser um retumbante desastre (ainda que, como diz o mestre Mariotti, possa ter tido surtos intermitentes de lucidez).

Humanidade que, desde as suas origens mitológicas, teológicas ou históricas se pautou pela violência, pelo homicídio, pelas guerras, pela destruição do seu entorno.

Animais que evoluíram, dizem alguns. Se isso é evolução, teria sido melhor se não tivéssemos ultrapassado a fase dos aminoácidos (tudo bem, eu concordo, vários outros seres vivos ultrapassaram essa fase sem terem se tornado o que somos, alguns são até bichos bem simpáticos).

Humanos que somos arrogantes, vaidosos, egoístas, manipuladores, agressivos, interesseiros...e o restante da lista eu deixo por conta da sua imaginação.

As chamadas virtudes morais, éticas, teologais ou filosóficas não passam daquilo que os falantes da língua inglesa chamam de wishful thinking, um pensamento desejável, mas ilusório, como se a humanidade fosse uma legião de anjinhos carinhosos.

Não conheço outros seres vivos que agridam ou matem seus semelhantes por prazer. Nem que destruam seu habitat.

Portanto, na próxima vez que for defender mudanças, refira-se a elas como um mundo menos desigual, uma liderança mais respeitosa, uma gestão menos exploradora. Mas não como algo mais “humano”.

De humanista já basta a estupidez.


Descrição de imagem: crianças fugindo da guerra em uma paisagem de seca

quinta-feira, 26 de agosto de 2021

O menino que até aprenderia a ler

 


Dezembro de 1998. Nascia o nosso primeiro filho, o Samuel. Logo de cara dois sustos: a síndrome de Down e uma cardiopatia que precisava ser corrigida por cirurgia. É óbvio que ficamos sem chão. Além de pais de primeira viagem, não sabíamos nada a respeito de nenhuma das duas situações. Fomos aprender.

Lembro de duas frases que me marcaram. Uma do geneticista do hospital que disse que eu não deveria entrar em pânico, pois “essas crianças” até aprendem a ler. A outra de um pai de um menino de 9 anos que disse que o Samuel seria aquilo que nós investíssemos nele, e fez questão de ressaltar que não era dinheiro, mas estimulação, atenção e nossa crença de que ele não tinha limites.

O tempo, os contatos e algumas visitas a escolas especiais nos aproximaram da educação inclusiva. Não era uma opção, era o único caminho viável. E mergulhamos sem medo naquilo que ainda era mais uma luta do que uma realidade.

E assim se passaram 22 anos, e o menino que “até iria aprender a ler” hoje se graduou em Pedagogia, para ensinar outras crianças também a ler e escrever.

Não foi superação, não foi heroísmo, não foi milagre.

Foi a convicção de que as pessoas só se desenvolvem no relacionamento com pessoas de todos os tipos.

Foi a cabeça-dura do pai que nunca deixou ele participar de atividades segregadas.

Foi a recusa em lhe dar privilégios e tratamento diferentes do que se daria a qualquer outro filho.

Ele teve algum privilégio? Certamente, e ele sabe disso. Privilégio de nascer em uma casa em que a educação era objetivo essencial. Privilégio de ter uma irmã que nunca deu moleza. Privilégio de contar com excelentes professores no caminho. Privilégio de concluir um curso superior que ainda é apenas um sonho para muitos brasileiros. E até o privilégio de ter enfrentado o preconceito da primeira faculdade onde entrou e aprender muito com isso.

Não vou me arriscar a listar todas as pessoas que contribuíram na construção desse caminho, seria um risco deixar muitos de fora (mas cada um deles sabem quem são), mas apenas mencionar duas pessoas cujos ensinamentos foram essenciais nesse processo: o Prof. Miguel Lopez Melero da Universidade de Málaga, e a Profa. Maria Teresa Mantoan da Unicamp, a quem eu chamo carinhosamente de meu guru e a minha gurua.

Agora começamos uma nova fase, a da busca de trabalho. As regras do jogo, porém, não vão mudar. Todos com todos. Sem segregação. Sem tratamento “especial”, e a expectativa de algum dia não precisar mais falar sobre inclusão.

Descrição da imagem: Samuel, um jovem magro e barbudo, vestido com a beca e o capelo de formando.


segunda-feira, 10 de maio de 2021

Só querer não é poder

 


Muitos dizem que a realidade é volátil, incerta, complexa e ambígua, e é verdade. Outros preferem dizer que é frágil, ansiosa, não linear e incompreensível, e também é verdade. Bradam que a modernidade é líquida (e é), que os sistemas são complexos (e são). Eu costumo dizer que a natureza humana é móvel, insaciável, confusa e obtusa (mundo MICO, aquele que ninguém quer segurar).

Em 1513 Maquiavel já percebera que a “virtú” é poderosa, mas está sempre condicionada à vontade da “fortuna”. Kahneman, no seu “Rápido e Devagar” deixa claro que o sucesso está mais frequentemente ligado à sorte (acaso) do que ao mérito.

Por que então algumas pessoas ainda insistem no mito do “querer é poder”?

Será que o fato de eu ainda não ter conseguido muitas coisas se deve simplesmente à hipótese de que eu não tenha querido o suficiente? Existe um querômetro capaz de medir a intensidade do querer? Qual é a maneira correta de querer algo? Se eu participei de uma corrida de 100 m rasos e cheguei em segundo lugar isso se deve ao fato que o vencedor queria mais que eu?

Indutores do mito

Alguns relacionam o conceito do “querer é poder” com a supervalorização do talento em oposição ao esforço. Admiramos mais os talentos precoces do que aqueles que chegam ao mesmo ponto depois de anos de estudo. O aluno que, num acaso da “fortuna” tira uma nota alta, em oposição aquele que sempre ia mal e começou a melhorar suas notas com o tempo.

Mas não podemos simplesmente virar a chave de um lado para o outro, com o risco de cairmos na da meritocracia, a ideia de que somos recompensados apenas pelo esforço. Não partimos todos do mesmo ponto.

Se, como eu, você nasceu numa família de classe média, foi educado em boas escolas e teve acesso aos bens culturais, você não pode comparar o quanto alcançou a quem não teve nada disso. Não foi por querer mais que a outra pessoa que você alcançou muitas das suas metas. Foi apenas circunstância. 

Também não vale apelar para o discurso da superação baseado em histórias comoventes, mas totalmente isoladas da realidade. O rapaz negro que vendia picolé e se tornou o primeiro brasileiro negro a ser aprovado no MBA do MIT é a exceção da exceção da exceção.

Basta lembrar que São Gonçalo fica a menos de 30 km de Jacarezinho.

Em suma

Não pretendo aqui desmerecer os méritos ou o esforço de ninguém - a César o que é de César – apenas lembrar que não são frases de efeito que vão resolver nossos problemas. Algumas coisas não vamos alcançar nunca.

Com dedicação muitos conseguem algo, outros conseguem mais que os outros com menos dedicação.

Acusar as pessoas que não foram bem sucedidas de falta de vontade é um modelo cruel que não respeita as diferenças. Louvar como bem sucedidas aquelas a quem a vida deu mais oportunidades para isso é ainda mais cruel para as que não tiveram a mesma “fortuna”.

Descrição da imagem: Hércules apontando uma flecha tentando combater a Aporia, o espírito da dificuldade.

terça-feira, 16 de março de 2021

Xiita convidada: “Aceitamos candidatura de pessoas com deficiência.”


Texto de Letícia Ribeiro*

“Aceitamos candidatura de pessoas com deficiência.”

Querido recrutador, parabéns por fazer o mínimo. 

Era uma segunda-feira como todas as outras e eu estava no linkedin ajudando uma amiga a encontrar uma boa vaga de emprego. Entra em vaga, sai de vaga, entra em outra, sai de mais uma, até que eu me deparo com uma vaga legal, em uma empresa legal. 

Comecei a ler o descritivo. 

E o descritivo ia perfeito, encantando em cada frase, em cada argumento, em cada explicação. Objetivos bem definidos, requisitos claros, aquele tipo de texto que dá até alegria de olhar, até que… 

“Aceitamos candidatura de pessoas com deficiência.” 

Ué, mas por que não aceitariam?

Uma vaga de estágio, em redes sociais, trabalho remoto, dentro de casa, com um computador - e que, por experiência própria, significa passar 80% do seu tempo sozinho, logado na internet -, que impedimento teria para uma pessoa com deficiência?

Para os com deficiência física, o trabalho não requer nenhuma locomoção. Para os cegos, computadores são bem adaptados. Para os surdos, mudos, comunicação por texto, no google meets, no whatsapp, no slack, nos e-mails, nas legendas de redes sociais, nas dms. E para os com deficiência intelectual talvez um pouco mais de tempo de adaptação. 

Parabéns por fazerem o mínimo, e aceitar candidaturas de pessoas tão capazes quanto quaisquer outras. 

Crescendo com uma pessoa ‘com deficiência’ eu aprendi que inclusão não está em criar oportunidades separadas e especiais para pessoas com condições diferentes às chamadas ‘normais’. Inclusão é criar um ambiente onde todos sejam aceitos, respeitados - contratados - de forma igual, respeitando suas diferenças, dificuldades, tempos e processos. 

Espero que, quando contratarem meu irmão, contratem ele pela vaga que ele tem que ser contratado: professor. Não ‘professor com deficiência’. Não ‘professor especial’.

A vaga podia ser atraente, mas o entendimento sobre inclusão da empresa não era. E eu, uma pessoa ‘normal’, posso dizer que não me senti atraída pela vaga depois disso. - e, não, também não mandei para a minha amiga, que precisa de um estágio na àrea de direito. 


*Letícia Ribeiro é estudante de produção editorial e estagiária em mídias socias na Mercado Bitcoin


Descrição de imagem: ilustração de uma mesa com crianças de diversas características.

 

domingo, 17 de janeiro de 2021

Pafúncio* , o preconceituoso

Pafúncio, o personagem dos quadrinhos, um homem branco de meia idade, vestido de terno e fumando um charuto

 

Pafúncio é o nome fictício para o ser real que vou descrever aqui. Como é uma pessoa conhecida e renomada e o meu objetivo aqui é didático e não de “lacrar” ninguém, vou mantê-lo anônimo.

Pafúncio é uma pessoa que eu respeito muito, ou melhor, respeitava até sábado passado. Músico brilhante e de carreira importante, professor muito querido pelos seus alunos e defensor da arte e da cultura.

Eu o acompanhava em seus canais digitais e sempre aprendia muito com ele. Eventualmente comentava algo e ele sempre teve a educação de responder.

Também é uma pessoa de posições políticas fortes e com as quais eu, na maioria das vezes, concordava.

No sábado passado ele estava muito furioso com algumas dessas questões políticas e publicou dois posts em seguida:

(descrição da imagem - reprodução de um post que diz: "O mito falando para Jovem Pan, hoje, Será possível que tenha ainda um bando de cegos que o apoiam?"

(descrição da imagem - reprodução de um post que diz: "...E o pior que ainda tento falar com os cegos...que idiota que sou.)

Claro que como ogro inclusivo eu não poderia deixar isso passar batido. Mandei para ele uma mensagem educada explicando por que não se deve usar a deficiência como um adjetivo. É da minha índole sempre tentar explicar as coisas para as pessoas e não atacar com os dois pés no peito.

Para detalhar melhor, enviei o link de um artigo que escrevi junto com o saudoso MAQ em 2008 (se quiser ler o original clique aqui) chamado “Deficiência não é adjetivo”.

Apesar da resposta dele também ser educada, foi absurda demais para que eu a levasse a sério. Segundo ele, o uso de “cego” “era apenas uma metáfora, um uso quase poético e que evitar esse tipo de palavra nesse contexto empobrecia a língua.”

“Bando” de cegos é poético? Será que é um acaso a palavra bandido ter a mesma origem? É uma idiotice metafórica falar com cegos? Não me parece que a cegueira foi colocada de forma, no mínimo, neutra. Foi pejorativa mesmo.

Fico imaginando se ele usaria da mesma forma metafórica e poética, termos que denotassem preconceito de cor, raça, nacionalidade, gênero ou orientação sexual.

Claro que não! Mas em relação às pessoas com deficiência não é preconceito ou desprezo, é metáfora, é riqueza da língua.

Respondi que nossa língua, que talvez ele não conheça suficientemente bem por ser estrangeiro, é rica o suficiente para não precisar ser inconveniente. E me desconectei desse ser que se tornou abjeto para mim.

O que fazer?

Durante a minha caminhada no universo das pessoas com deficiência eu dei várias mancadas. Um mundo que me era completamente estranho até ser envolvido por ele.

A coisa mais importante que eu aprendi foi que sempre devemos ensinar as pessoas antes de criticá-las. Continuo agindo dessa forma, como aconteceu nesse caso.

Tive excelentes professores. Pessoas cegas, surdas, com deficiência física, com deficiência intelectual, com autismo. Aprendi com o Paulo, com o MAQ, com a Naira, com a Anahi, com a Tchela, com o Gregor, com a Leandra, com o Francisco, com a Flávia, com a Jéssica, com a Izabel. Recentemente ganhei novas professoras a Marcela Jahjah e a Daniele Avelino. A lista seria imensa se citasse todos.

Se acontecer algo parecido com você, não seja um Pafúncio, autossuficiente e arrogante:

1.    Entenda que quem chama a atenção não é seu inimigo, mas alguém que quer te ajudar e evitar mancadas

2.    Reconheça a mancada. Pode acontecer com qualquer um

3.    Se fez isso por escrito, edite o que escreveu

4.    Procure não repetir o erro

5.    Eduque outras pessoas.

Quanto ao Pafúncio, provavelmente continuará sendo um excelente profissional no que faz e continuará com muitos contatos e seguidores (certamente eu não vou fazer falta). Como ser humano tornou-se irrelevante para mim.

*Pafúncio é um personagem de quadrinhos criado por George McManus em 1913, o nome original das tiras era Bringing up father e, no Brasil, Pafúncio & Marocas


quarta-feira, 17 de junho de 2020

Tráfico de ilusões




We are the hollow men 
We are the stuffed men 
(T.S. Eliot) 



Todo mundo quer ser diferente ou, pelo menos, todo mundo que parecer diferente do resto do mundo.

Não somente se diferenciar, mas conseguir colocar-se como alguém de destaque no seu contexto social em função dessa diferenciação.

Essa é uma questão que faz parte da essência e da natureza humana e não é nenhum pecado mortal pensar assim. Somos parte de um todo enquanto sociedade e, ao mesmo tempo, cada um de nós é um indivíduo peculiar.

Segundo Norbert Elias “esse ideal faz parte de uma estrutura de personalidade...e essa forma de ideal de ego e alto grau de individualização são partes integrantes do seu ser, uma parte de que não podem livrar-se, quer aprovem ou não.”[1]

Traços de personalidade podem trazer egos de diversas potencias e graus de individualização também, mas os dois traços são controláveis e educáveis de forma crescente a depender do nível de consciência e de práticas específicas de longo prazo. Por isso nas educações familiares podemos ter pessoas mais ou menos competitivas a depender do tipo de educação que tiveram em casa.[2]

O que não significa que todos vão conseguir se destacar por algum desses diferenciais. Contexto, formação e oportunidades para tanto não estão disponíveis para os 8 bilhões de habitantes do planeta.

Diferentemente das expectativas individuais, só uma pequena minoria vai conseguir atingir uma posição de destaque, seja ele intelectual, econômico-financeiro ou profissional.

Vários estudos convergem para uma distribuição de população mundial onde somente até 5 % são pessoas com perfil para provocar mudanças e liderar mudanças. Outros 20 + % estão prontos para seguir as mudanças, na outra ponta somente 5% são pessoas não afeitas a mudanças e não mudam mesmo com estímulos e outros 5% são contra , tipo pau na roda , e a diferença muda com a tempo pela influência dos 25 + primeiros , os puxadores e seguidores.[3]

A questão gira em torno de ter a chance de atingir tal posição. Não se trata apenas de querer, nem poder, mas de atrapalhar alguns a chegarem lá. Não dá para negar que uma grande parte da população tem tudo contra ela. Partem do -10, enquanto outros partem do zero.[4]

Esse é um conflito real existente em toda e qualquer sociedade. O desejo de ser em disputa com a impossibilidade de ser. É um dos trágicos elementos fundamentais da vida com os quais o ser humano precisa aprender a lidar: perda, tristeza, dor, já explicava Freud.

Quanto mais rica uma sociedade, mais presente é essa busca competitiva por uma posição de destaque, e mais feroz a competição para alcançá-la.

De qualquer forma, desenvolvimento é diferente de crescimento econômico. Nas nações mais desenvolvidas, o apetite existe, mas é menos exacerbado, justamente pelo fato dos cidadãos terem um bom colchão social, justiça, bons serviços públicos e pouca disparidade salarial. É justamente nos menos desenvolvidos (sejam economias grandes ou não), isso é muito mais feroz pois, mais que status, esse destaque é necessário para não sofrer com as agruras dos "normais”.[5]

Nesse percurso pululam as histórias de sucesso de todos os tipos, como se os exemplos dos bem sucedidos servissem como a poção mágica de Panoramix[6] dando poder e força a todos que a bebessem.

A falsa ilusão de que todos podem tudo. A deslavada mentira que apregoa que os que não alcançaram o Olimpo do sucesso, são derrotados por falta de vontade ou de positividade.

Aqui começa a epidemia de frustrações que abrange pelo menos 50% da população das pessoas que trabalham. Frustração gera o estresse e esse, se forte e durável, só joga contra quem já não chegou onde queria chegar.[7]

Como vimos acima, a vontade é inerente a todos, então o problema do insucesso passa a ser essa visão cética, pessimista, derrotista que permeia os que não atingiram suas metas.

A força que leva ao vício

Eu tenho a força, bradaria o He-Man[8]. A força esteja com você, desejavam os personagens de Star Wars[9].

Desde que Norman Vincent Peale lançou o seu “Poder do pensamento positivo” na década de 1950, esse tem sido o mantra de muitos motivadores de pessoas. Querer é poder, basta ter uma atitude positiva em relação a seus desafios.

Os pseudo humanistas da auto ajuda (não confundir com os humanistas do Renascimento), que defendem a ideia de que o ser humano é o seu próprio deus, prometem poderes ilimitados a quem seguir suas recomendações.

Os humanos que não encontram nenhum outro caminho para atingir seu sonho de destaque diferenciado o que, como vimos, não são poucos, acabam enredados nessa trama.

Experimentam um, não funciona. Tentam outro mais potente, não funciona. A cada dia buscam uma vertente mais forte, até estarem irremediavelmente dependentes desse tipo de doping.

A positividade tóxica

Em “A sociedade do cansaço”, o filósofo Byng-Chul Han descreve uma sociedade que está sendo intoxicada pelo excesso de positividade.[10]

É um livro curto, denso, cruel e, em não poucos momentos, chocante.

Muito chocante, eu diria, não pela linguagem ou pelas imagens que evoca, mas pelo fato de que, à medida que o lemos, vamos associando sua descrição com a realidade cotidiana que vemos, especialmente, mas não somente, na redes sociais.

Todo o enredo aplicado em meritocracias mal formuladas, o modelo de gestão de pessoas nas empresas e tudo o mais veio antes das redes . Mas estas sem dúvida alavancam frustrações adicionais e aceleram os efeitos perversos das narrativas alucinantes e ilusórias.[11]

Humanos que perdem todas as suas defesas imunológicas em relação ao negativo e, assim como vírus e bactérias, coisas negativas estão à nossa volta o tempo todo, prontas para atacar os mais vulneráveis.

Pessoas que insistem em mostrar o tempo todo que tudo está bem. Criação contínua de personas[12] que necessitam desesperadamente fingir que, como são positivas, nunca sofrem derrotas.

Sem anticorpos para o negativo isso acaba afetando a saúde mental dessas pessoas. Até porque, saúde mental não é viver em um estado positivo permanente, mas saber lidar com o outro lado da força.

A metáfora é ingênua e simplista, no entanto, é válida. Uma pilha comum não vai transmitir energia se não estiver conectada, simultaneamente, nos seus polos positivo e negativo.

É uma questão dialética, assim como o conflito entre a vontade de individualização e suas forças contrárias, o que constrói o sistema de defesa da saúde mental é o conflito positivo-negativo. Sem esse sistema, não existem barreiras de proteção.

A positividade excessiva é tóxica pois destrói (ou deixa de construir) esse sistema de defesa, abrindo as portas para todo tipo enfermidades mentais e emocionais: depressão, déficit de atenção, Burnout, pânico.

Han mostra como o excesso de desempenho, para sustentar a persona é intoxicado pelo excesso de positividade, conduzindo para um infarto da alma, “a perda da energia essencial que permeia corpo, mente e espírito de tal forma que é condição de uma morte do ser humano essencial por falta de irrigação de energia.”[13]

Positivo com positivo só dá positivo na matemática. Na vida real “quem vive do igual, também perece pelo igual”.[14]

Estamos construindo, seguindo esse percurso, a tal da sociedade do cansaço que vai acabar desaguando na sociedade do esgotamento completo.

Existe cura?

“...o que nos humaniza é o fracasso, homens e mulheres muito felizes não são homens e mulheres.”[15]


Já nos primeiros textos existencialistas, constatamos que somos seres em um mundo cheio de possibilidades, sem que algo anterior (uma essência) nos defina e, uma vez que a nossa vinda à existência acontece antes de construirmos a nossa essência, caímos num vácuo de significado.

Nós somos jogados em um mundo inundado de escolhas para sermos o que quisermos, mas em meio a essa infinidade de caminhos nos perdemos na angústia de não saber qual trilhar.[16]

O risco de tentar fugir dessa angústia através de mecanismos de escape – e, nesse aspecto, a positividade tóxica nada mais é que uma tentativa de fuga – não funciona.

Não funciona porque, inevitavelmente, a positividade tóxica (ou qualquer outro mecanismo de escape) vai fracassar e, ao voltarmos ao ponto de partida, a angústia se transforma em desespero, e conduz às doenças psicológicas mencionadas.

Não pretendo aqui defender as teorias conformistas que defendem a total falta de ação diante de um mundo hostil.

Entendo que o único caminho para a cura ou, pelo menos, a reconstrução de um sistema imunológico mental, é o desenvolvimento (ou recuperação) da capacidade de lidar com o lado negativo da vida e, no confronto dialético com o positivo, atingir um equilíbrio mentalmente saudável.

Recuperação sem ajuda é muito difícil. Estamos falando de um processo que pode e deve levar anos de esforço permanentes pois precisa de novos caminhos sinápticos, novos hábitos que transformem comportamentos e modelo mental de pensamento. Por isso o esforço solitário é quase um fracasso garantido , o sucesso será para minorias privilegiadas no cérebro que inclui a flexibilidade , adaptabilidade ,controle emocional ,empatia consigo mesmo, ou seja , muito auto conhecimentos e diversos cardápios recomendados para cada ponto a desenvolver , cardápio este baseado em ampla base de pesquisa no campo da psicologia, psiquiatria, pedagogia , antes mesmo de falar em receituário tópico para patologias instaladas, pois se este for o caso a farmacologia pode ser chamada também. [17]

Isso não se constrói com manuais de instrução e receitas de bolo. Não está no radar dos traficantes da ilusão da felicidade completa e permanente, até porque não gera a dependência que os enriquece.

É um exercício crítico individual. Cada pessoa deve procurar seus próprios caminhos para se equilibrar. Sejam eles solitários para os que assim o conseguem, seja com ajuda séria e, obrigatoriamente, do ramo. Ajuda dos vendedores de ilusão não é considerada séria.

Não é uma garantia de um mundo melhor, só a possibilidade de um mundo menos doente.


© Fábio Adiron 2020

Agradecimentos

Além das preciosas intervenções do Ricardo Costa e do Marcos da Cunha Ribeiro citadas durante o texto, gostaria de agradecer as não menos preciosas colaborações da Virginia Susana Fantoni, da Atena Nardy e do Volney Faustini e seus olhos de lince.

[1] ELIAS, Norbert. Problemas de autoconsciência in A sociedade dos indivíduos. Rio de Janeiro. Zahar. 1994
[2] Contribuição de Marcos da Cunha Ribeiro
[3] Contribuição de Marcos da Cunha Ribeiro
[4] Colaboração de Ricardo Costa MBA
[5] Colaboração de Ricardo Costa MBA
[6] Panoramix é um personagem das histórias de Asterix, o gaulês de Uderzo e Goscinny. Um druida que tem o segredo da poção mágica que torna todos os que a bebem, invencíveis. (NA)
[7] Contribuição de Marcos da Cunha Ribeiro
[8] Originalmente um brinquedo da Mattel, atingiu sua popularidade na série de desenhos animados na década de 1990
[9] Star Wars é uma série de filmes de George Lucas. O primeiro deles foi lançado em 1977 e se tornou uma das franquias cinematográficas mais bem sucedidas da história.
[10] HAN, Byung-Chul. A sociedade do cansaço. Petrópolis. Editora Vozes. 2017
[11] Contribuição de Marcos da Cunha Ribeiro
[12] Na teoria de C.G. Jung, personalidade que o indivíduo apresenta aos outros como real, mas que, na verdade, é uma variante às vezes muito diferente da verdadeira, deriva da etimologia grega do termo, persona=máscara. (NA)
[13] Adendo de Marcos da Cunha Ribeiro
[14] BAUDRILLARD, Jean. A transparência do mal. Campinas. Papirus. 2000
[15] PONDÉ, Luiz Felipe. Contra um mundo melhor. São Paulo. Contexto. 2018
[16] Minha leitura pessoal da teoria de Kierkegaard (NA)
[17] Contribuição de Marcos da Cunha Ribeiro

sábado, 6 de outubro de 2018

Meu posicionamento eleitoral



Intencionalmente não fiz comentários políticos até agora, mas acompanhei muitos que andaram circulando nas redes que eu sigo. Abaixo seguem algumas conclusões e as minhas recomendações (que não são de candidatos) para meus amigos eleitores.

a)     Nunca estivemos tão mal do ponto de vista de alternativas. Eu voto desde 1982 (não pude votar em 1978 pois quando completei 18 anos os cartórios já tinham encerrado as listas eleitorais para novembro), apesar disso já atuava politicamente desde 1977. Fui nos comícios das diretas, em comícios do MDB em 1982, 1985 e 1986. Apoiei o PSDB na sua criação em 1988. Fiz campanha por candidatos. Tínhamos nessa época uma profusão de políticos notáveis tanto da esquerda quanto da direita (claro, também tínhamos os picaretas de plantão, sobejamente conhecidos como tal). Eleger os constituintes em 1986 foi uma tarefa difícil, tantos eram os candidatos merecedores de confiança e de voto. 
O tempo foi levando embora esses políticos, muitos já morreram, outros tantos se aposentaram. A renovação foi um processo de deterioração contínuo. Não só não surgiram novas lideranças expressivas, como aumentou exponencialmente a quantidade de gente ruim, mal-intencionada e despreparada. Claro que isso me levou para bem longe de qualquer política partidária. Há anos não apoio e nem voto em ninguém.
Não sei se chegamos ao fundo do poço, se ainda não chegamos, estamos bem próximos dele.

b)     Nunca fomos tão antidemocráticos: as pessoas perderam totalmente a noção de como funciona o jogo democrático. Como em qualquer jogo, alguns ganham, outros perdem. E ninguém mais sabe perder. Achamos que precisamos ganhar na marra e, para isso, vale tudo, inclusive jogar sujo (muito sujo) e fora das regras. Agredir, ofender, distribuir notícias falsas, atribuir eventual derrota a teorias de conspiração ou, como no futebol, dizer que a culpa foi do juiz.
Ninguém se iluda achando que isso é coisa da extrema direita ou da extrema esquerda. Gente de todo o espectro político entrou na onda de agredir os candidatos, os apoiadores e simpatizantes dos candidatos e os que não apoiam nenhum candidato.
Não é à toa que temos os candidatos que temos, eles representam bem o que somos como povo.

c)     Minhas recomendações, se é que isso vale alguma coisa:
a.     Vote de acordo com sua consciência, não de acordo com o seu fígado: se você acredita na proposta de alguém, vote nessa pessoa e durma tranquilo por ter votado naquilo que acredita e não simplesmente contra H, B ou C. Para o fígado eu recomendo Epatovis.
b.     Ignore solenemente quem te agredir pela sua escolha eleitoral, mesmo que sua escolha seja anular o seu voto. Se alguém quer se irritar que seja o outro, não você.
c.      Perder é uma consequência da democracia, aceite isso: se seu candidato não for eleito ou não for para o segundo turno, reconheça que os demais tiveram mais eleitores, é simples assim.
d.     Onde tivermos segundo turno você vai ter uma nova chance de escolher: é para isso que existe segundo turno, adotar o chamado voto útil é apenas uma manobra de ilusão política que tentam nos impingir. Não seja tão inocente.
e.     Não perca amigos divergentes, se afaste dos agressivos: você pode conviver muito bem com quem pensa diferente de você e te respeita apesar disso. Você não deve admitir que as pessoas te agridam (por nenhuma das suas escolhas, por mais exóticas que elas sejam).

Pensei em falar também a respeito da incompetência da nossa centro/direita esclarecida e da nossa centro/esquerda competente para se unir contra os extremos, mas isso fugiria do tema que me propus.

Bom domingo e bom voto.

Descrição da imagem: tira de quadrinhos do Armandinho, de Alexandre Beck. Nela o garoto Armandinho está olhando para cima, para adultos que lhe dizem:"Ela foi maltratada e está toda estropiada, mas nem por isso deve ser sacrificada. E todos somos responsáveis por ela estar assim, distraídos com o próprio umbigo não lhe demos o devido valor, mas ela é jovem e, com a nossa ajuda, pode se recuperar e se tornar plena! E ser digna do nome que tem: democracia.