quarta-feira, 20 de maio de 2009

Em compensação...

Existem vários termos emblemáticos que fazem referência às pessoas com deficiência. Alguns são explicitamente ofensivos e preconceituosos, muitos são anacrônicos e desatualizados. Geralmente, os primeiros só são usados por pessoas que tem a clara intenção de ofender, os últimos por aqueles que pararam no tempo ou, por falta de contato efetivo com pessoas com deficiência, nunca aprenderam.

Apesar de precisarmos lidar com essas duas situações, algumas vezes de forma contundente, outras com modelos educativos, não é essa terminologia que mais dá trabalho ao movimento em defesa das pessoas com deficiência, mas uma terceira categoria que é a dos termos aparentemente corretos que trazem embutidos no seu significado uma série de preconceitos e mitos.
O maior agravante desse vocabulário é o fato de muitas das próprias pessoas com deficiência não perceberem como elas mesmas se diminuem ao usá-lo.

O MAQ me chama a atenção de um deles : a tal da "compensação". A Tchela me lembrou de outro: "superação".

Compensar significa equilibrar um efeito com outro; neutralizar a perda com o ganho, o mal com o bem: compensar os defeitos pelas qualidades.

É muito típico ouvirmos que os cegos ouvem muito bem. Que as pessoas com deficiência intelctual tem uma sensibilidade maior que o resto da população. Que as pessoas surdas tem uma maior percepção dos contextos...

A idéia de que as pessoas com determinada deficiência compensam esse fato com alguma outra qualidade já parte do princípio que a deficiência é um defeito que precisa de reparação. Desconsidera que a deficiência é parte essencial daquela pessoa e, como tal, deveria ser aceita.

Mas não é.

No fundo, o uso desse termo só indica que quem o usa não entende a diversidade como valor, mas como algo que precisa ser neutralizada. Elas não aceitam a deficiência, tem dificuldades em lidar com seus próprios preconceitos a respeito do tema.

Já superar é fazer desaparecer, remover, resolver. Se eu acho que uma pessoa com deficiência precisa se superar estou dizendo que, de alguma forma, ela precisa fazer com que o seu "defeito" não seja perceptível (porque, nesse olhar, a deficiência é algo que ofende e incomoda).

De novo caímos no fato que a diferença não é aceita. Ela precisa ser removida até o ponto que não choque os olhares.

Além disso, ambos os termos também são muito usados como uma demonstração de piedade: "coitadinho, ele é cego, mas em compensação..."

Exigir que as pessoas compensem ou superem suas deficiências nada mais é do que declarar que, caso não o façam, continuarão a ser pessoas de categoria inferior.

Pode parecer uma simpática forma de estímulo mas é só uma forma hipócrita de rejeição.

Descrição de imagem : gravura retratando Tirésias, personagem da mitologia grega que, sendo cego, enxergava o futuro.

5 comentários:

Lucila disse...

Creio qe esse foi um dos meus GRANDES aprendizados há alguns anos. Me enquadrava na categoria dos que nunca tinham tido contato efetivo com a deficiência...
Acabei aprendendo muita coisa e hoje, sempre que posso, mostro esse outro lado do discurso para meus alunos e pessoas com as quais convivo. É uma grande, mas imprescindível mudança de postura frente à pessoa com deficiência.
Beijo grande

Tazi disse...

Vc sabe que gordinhas como eu têm que compensar esse "defeito" com humor e simpatia, né? Assim como negros, que se "superam" através do talento (leia-se esporte ou música). E por aí vai...
Não é mole, não!!!

Tchela. disse...

É isso aí! Chega de superações! Parece até que temos de provar constantemente que somos "os que superam". Tô fora! Agora, a tal compensação...ai, ai...dá raiva ver as pessoas citando exemplos de povo com deficiência que vira pintor. Pobre de mim se dependesse disso...
Beijos

Marco Antonio disse...

Ninguém supera uma deficiência, mas os limites convencionados pela sociedade que essa deficiência parece ter. Quando adquirimos uma deficiência repentinamente somos obrigados a deixar de lado inúmeros hábitos que só poderão ser feitos agora de maneira alternativa e após novo aprendizado. Não podemos confundir esse esforço de aprendizagem e convivência com a deficiência com superação da mesma. Não deixo de ser cego, ou supero a cegueira, porque escrevo nesse computador, porque saio de casa sozinho, porque estudo e sou cego. Mas, cuidado Tchela, para não ter preconceitos ao contrário, existem artistas tetra que pintam com a boca que são verdadeiramente sensacionais! Eu jamais pensei em fazer o que faço antes de ficar cego, descobri novas capacidades em mim. Certamente já as tinha, mas só os limits puderam fazer com que as testasse!

Abraços inclusivos do MAQ.

Gil Pena disse...

Apenas para o exercício da discussão: a deficiencia sempre vai produzir a compensacao, que por um lado pode caminhar em direcao a autonomia, a superacao, por outro, pode reforcar a dependencia. A questao eh achar o caminho da autonomia, da superacao. Nao se trata de vencer a deficiencia, mas contornar os limites, as dificuldades que a deficiencia impoe, encontrando e aprendendo novas alternativas. A questao eh que esse esforco de aprendizado nao eh diferente para os que apresentam determinada deficiencia ou para os ditos normais: todo aprendizado cultural se faz no sentido de compensar as nossas incapacidades, contornando as limitacoes que todos nos temos.