terça-feira, 3 de junho de 2008

Inclusão(?) digital

Nos últimos tempos temos sido bombardeados por uma série de matérias, anúncios e eventos sobre a questão da inclusão digital. A necessidade de garantir a todos os cidadãos acesso a computadores e ao maravilhoso mundo da informação via Internet. É uma discussão, cuja abordagem tem me incomodado e que eu gostaria de compartilhar com os meus leitores.

Eu sou militante nas questões de inclusão educacional e no trabalho de pessoas com deficiências. A minha militância começou com um grupo de pais de crianças com Síndrome de Down e, aos poucos , fomos descobrindo que o problema da inclusão, ou melhor, o problema das várias exclusões é muito maior do que o universo dessas pessoas. Vivemos num mundo em que vários são os motivos que levam à exclusão : pobreza, raça, cor, sexo, deficiência.

Chegamos a um ponto em que , em muitas situações chegam à beira do ridículo quando lemos reportagens em famosas revistas de negócios a respeito de critérios de contratação que excluem até aqueles que são feios ou gordos.

Quando pensamos no Brasil , especificamente, algumas exclusões chegam a um ponto de tornar inútil toda a discussão sobre a inclusão digital. Uma pesquisa realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostra que 11% dos brasileiros são analfabetos. Isso significa que existe no país um contingente de quase 16 milhões de pessoas, que não sabem ler nem escrever. Considerando que esse número é o “oficial” do IBGE e que, portanto, a realidade deve ser muito pior, podemos calcular que mais de 30 milhões de pessoas não sabem ler e escrever.

Em que processo digital é que elas vão poder ser incluídas ??

Além disso , estima-se que atualmente, ainda um quinto da população viva abaixo da chamada linha de pobreza (apesar de todos os programas sociais do governo, ou seja, esse número era pior ainda), sendo menos eufemístico, literalmente na miséria. Moram na rua ou em lugares sem nenhuma infra-estrutura sanitária. Comem a cada 3 dias, quando dá. Não tem acesso ao sistema de saúde. Mesmo assim, a elite (sim, se você está me lendo na tela de um computador, você é elite) da qual nós fazemos parte insiste em que é preciso incluí-las digitalmente.

O pior de tudo no discurso da inclusão digital é o fato que a mesma está sendo promovida e alardeada pelos maiores interessados economicamente na mesma, ou seja, os fabricantes de hardware e software, as escolas de informática, e por aí vai.

Isso me faz lembrar a primeira medida de Dom João VI ao desembarcar no Brasil , abrindo os nossos portos às nações amigas – no caso, a única nação amiga era a Inglaterra e se não houvesse essa abertura a corte portuguesa no Rio de Janeiro iria morrer de fome ou de tédio. Inclusão promovida por quem tem interesse econômico na mesma não é inclusão, é abertura ou ampliação de mercado.

A inclusão digital é uma necessidade de fato, e eu não sou um advogado contra ela. É a inclusão digital que tem tornado menos complicada a vida de muitas pessoas cegas (beneficiárias dos fantásticos programas de sintetização de voz), pessoas com dificuldades de locomoção e que tem dado qualificação e oportunidade profissional para milhares de pessoas.

Mas falar de democracia digital enquanto milhões de pessoas ainda não participaram da inclusão alimentar, da saúde e de moradia ainda me soa como uma hipocrisia.

Descrição da imagem : cartoon onde uma mulher pergunta : "Como está o programa de inclusão digital?" Um homem, na janela de uma casinha, com a placa ONG, responde : "Ótimo. Só no mês passado foram incluídos três dígitos na minha conta".

5 comentários:

Vilma disse...

Inclusão digital, nesse momento, é só aquela em nossa digital é carimbada no papel e enche as urnas dos nossos candidatos a cargos públicos.Deve ser disso que estão falando e a gente não entendeu direito, rs.

Tchela. disse...

Eu sei bem o acesso à Internet pode mudar a vida das pessoas, estou nesse meio. Porém, de que adianta uma pessoa ter computador se esta não puder bancar o acesso à Internet, seja por banda larga ou discado, não puder pagar a conta de energia, que aumentará com tal acesso? Há pouco tive um exemplo próximo: minha irmã trocou de micro e ficou sem saber o que fazer com o antigo. Embora seu esposo tivesse sobrinhos bem carentes que não possuiam computador, optou por outro sobrinho, justamente por saber o custo que o acesso à Internet gera.

Beijo

Profe Elis disse...

Olá Fábio! Se falar em inclusão já é uma coisa complicada, falar em inclusão digital, ainda mais.Inclusão não é para alguns, é para todos, por aí já dá pra ver que falamos de algo que ainda está no sonho ou no imaginário de alguns.
Também fiz uma postagem falando sobre isso: http://sobreeducacao.blogspot.com/2007/12/em-recente-noticirio-o-mec-divulgou.html
Abraço.

Paula Maciel disse...

Fabio:
No soy nada anónima. Sabes quién soy y dónde encontrarme, al menos, virtualmente.
Vivo en Buenos Aires, así que tal vez lo que cuento no se aplique al Brasil.
No soy fabricante de hardware ni de
software y menos aún gobierno.
Sin embargo, vivo de la "inclusión digital" Gracias a eso puedo trabajar, aunque cada vez me puedo mover menos.
Quería contarte de una amiga, discapacitada por causa de la obesidad, que estaba a punto de ser despedida porque no podía ir a trabajar. Le sugerimos que le propusiera a los empleadores trabajar desde su casa. Creo que aceptaron por miedo a un juicio por discriminación, ahora está en proceso de negociación. Espero que tengamos éxito, porque casi no tiene para comer. Me queda claro que no puedo solucionar la vida de todos los que tienen hambre, apenas el de una persona en particular, pero eso me basta.

Anônimo disse...

Fabio, oi

O tema que vc aborda é muito importante e realmente faz pensar.

Tive o privilégio de acompanhar discussões profundas e bem embasadas sobre inclusão digital desde a década de 90. E entre pessoas que respeito, como o Betinho e Carlos Afonso (IBASE/Rits), Paulo Lima, Graciela Selaimen (Rits), Rodrigo Assumpção (um dos fundadores do Sampa.ORG, para citar alguns.

Graciela escreveu o texto (URL abaixo) em 2002 - em minha opinião, brilhante

http://www.saci.org.br/index.php?modulo=akemi¶metro=6320

Essas pessoas (e muitas outras) não são fabricantes de hardware ou de natureza comercial. Acho que esta discussão é como uma equação com diversos lados e interlocutores. Aqui em SP tivemos (e ainda temos) modelos de inclusão digital. Acompanhei 2: Infocentros e Telecentros, com posturas diferentes sobre inclusão digital e TICs, que podem ser vistas como um fim em si mesmas (aprender a usar o pacote Office, por exemplo) ou como instrumentos de cidaania - um belo exemplo de fazer o bolo e ir repartindo fatias, tudo junto e ao mesmo tempo. O movimento por Inclusão Digital existe há uns 10 anos não só no Brasil mas na AL, com construção de conhecimento, visão crítica, exemplos de empoderamento de comunidades.

Certo, o acesso não é barato - daí, exatamente, a criação de Telecentros, Infocentros e outros nomes, onde há banda larga, monitores e acesso gratuito. Em 2006 fiz uma capacitação para monitores do Acessa SP, para que soubesse receber e dar suporte a PcD. O Acessa SP, na época, tinha mais de 400 postos em todo o Estado. Há outros locais, como PoupaTempo (a unidade de Guarulhos já foi inaugurada com condições de acessibilidade e dela participaram os funcionários da PRODAM com deficiência visual); escolas estaduais ficam abertas nos finais de semana e dentre outras atividades permitem uar o lab. de informática - para citar apenas alguns exemplos.

É suficiente??

Claro que não!

Sabemos da FUNDAMENTAL importância que o acesso ao mundo digital representa para as PcD - como tb para a demais. Há já softwares adaptados gratuitos, tecnologia assistiva, exemplos bem sucedidos - embora infelizmente nem sempre estas info sejam conhecidas.

Enfim, entendo que nosso papel é o de lutar pra que este aspecto da Inclusão - o digital - também seja para todos. A hora é agora! não devemos esperar o bolo ficar pronto prá repartir - vamos lutar para que todos participem tanto do mundo tridimensional quanto do digital, eliminando barreiras de todas as ordens. Essa inclusão também faz toda a diferença!

Vale a pena conhecer a produção existente sobre este "falso dilema".

abraços
Marta Gil