segunda-feira, 7 de julho de 2008

Xiita Convidada - Equívocos sobre a exclusão

Tereza Cristina Rodrigues Villela

Vejo com indignação esse uso generalizado de comportamentos que ameaçam ao bem-estar de todos, como pretexto para que a inclusão seja feita ou não, apenas quando o educador assim desejar, sendo chamada de “inclusão responsável”.

Vamos falar sobre o que é responsabilidade docente então. Falo como pessoa com deficiência e como educadora, que começa a atuar em educação especial, procurando subsidiar a inclusão dos alunos que atende, em período contrário ao que freqüentam as escolas regulares, embora não tenha especialização na área, porque ainda sou graduanda do curso de Pedagogia.

Creio que mais irresponsável do que "jogar" crianças com ou sem deficiência em uma sala de aula e deixá-las à mercê de um ensino que não respeita seus saberes e não estimula suas potencialidades, é mantê-las em escolas sem conviver com os colegas de sua geração com e sem deficiência e também não ter suas capacidades estimuladas.

Acho uma pena que ainda estejamos discutindo se é direito legítimo de toda criança estar nos mesmos ambientes que seus pares, ao invés de discutirmos como isso pode ser feito.
E não consigo entender por qual razão os educadores que afirmam não ter subsídios do Estado para dar uma boa aula preferem cobrar que este envie os alunos com deficiência às escolas especiais em período integral, ao invés de exigir o preparo que afirmam não ter, como se não estarem preparados servisse como subterfúgio para não se prepararem.

A meu ver, a formação de professores deixa muito a desejar na questão principal que é o olhar para o aluno; ainda dependemos muito do bom-senso do educador, que muitas vezes não tem conhecimentos básicos para ensinar quem quer que seja, tomando as aulas como forma de aprendizado constante tanto dos alunos como de si próprio, tendo metas globais de desenvolvimento, ou seja, pensando na questão das inteligências múltiplas, nas diferentes formas de comunicação e expressão, tanto por parte do aluno, como por parte do educador para a socialização do conhecimento.

Não é fácil, mas é possível e aos poucos vamos conseguindo com conhecimento das etapas do desenvolvimento humano, diálogo sobre práticas que obtiveram bons resultados e muita pesquisa, mas sobretudo com uma mudança de olhar da deficiência, dificuldade de aprendizagem, do aluno-problema, para o ser humano rico em potencialidades, com metas que o desafiem.Conhecimentos específicos sobre as deficiências ajudam e muito, claro, mas sua falta não pode limitar as possibilidades de quem quer que seja.

Supondo que haja casos em que a inclusão seja impossível: quem pode ser tão matematicamente capaz de mensurá-los a ponto de que saibamos que a inclusão lhes traria malefícios, ou que seria negativa para os colegas de sala de aula? Aliás, os estudos apontam justamente para o contrário disso, nos locais em que a inclusão é efetiva e não fictícia.

A inclusão não serve apenas para socialização, como alguns professores desinformados pensam e, claro, fica muito mais difícil fingir que as turmas são homogêneas quando a diversidade torna-se gritante e a cultura em muitas escolas e universidades, como é socialmente, ainda não está voltada à diversidade. Mas isso não pode servir de pretexto para que a inclusão não seja feita e incentivada, tanto quanto não se pode pretender fechar escolas pelo fato de muitas delas não terem profissionais qualificados.Creio, discordando de muitos educadores e pais, que a redução do número de alunos em sala de aula auxiliaria sim na melhoria da qualidade da educação, mas concordo; não se pode atribuir toda a responsabilidade pelo fracasso escolar, que muitas vezes é de "ensinagem" à superlotação das salas.

O grande problema da educação brasileira, creio eu é que tornou-se uma batata quente; os pais atribuem seu fracasso aos educadores, que por sua vez o atribuem aos familiares e ao estudante, que é sempre "um problema" do outro ou de si próprio, mas nunca do professor.

Se as escolas não forem capazes de envolver as famílias na educação de seus filhos, tendo o respeito necessário para ouvir e acatar sugestões, continuaremos nesse ambiente, em que, no caso dos estudantes com deficiência há ainda mais um componente para que escola regular e família, por desconhecimento ou por comodismo queiram mandá-lo pelo maior tempo possível: a escola especial, que serve como pretexto para que o aluno não seja "problema" nem da escola e nem da família, afinal, ele não aprende mesmo...

Admitindo que haja alunos com comportamentos impossíveis de se lidar, isso ainda assim não serviria para tamanha negativa à inclusão... E é o que ocorre; tenho acompanhado alunos com baixa visão, para quem bastaria uma mudança de contraste de letra e fundo ou ampliação de textos e os professores, mesmo contando com orientações, continuam dizendo que não sabem o que fazer, ou que é muito difícil, porque têm muitos alunos em suas salas e não estão preparados.

Pequenos estímulos e adaptações de materiais, ou na forma de ensinar a turma toda podem fazer toda a diferença. Mas é preciso que educadores e familiares estejam dispostos e abertos a isso.Na cidade em que vivo, muitas vezes, o diálogo resolve, vários educadores procuram parceria conosco e isso tem sido imensamente positivo, porque depois de algum tempo, desenvolvem suas próprias estratégias e nossa atuação vai se tornando menos necessária, mas muitas vezes, os educadores das escolas regulares são displicentes com os alunos que atendemos e os pais querem evitar briga judicial, para evitar trabalho, porque é desgastante para eles. E raramente resolve esclarecer-lhes sobre os direitos de seus filhos.

É necessário que se deixe de tomar os estudantes como joguete e que nosso olhar esteja voltado a eles enquanto seres humanos, se com ou sem deficiência, ou dificuldade de aprendizagem, isso, ao meu ver vem em segundo lugar.

Conseguimos que o Senado ratificasse a Convenção da ONU, mas ao que parece, teremos bastante trabalho para colocá-la em prática, como já é com a legislação existente...

Tereza Cristina Rodrigues Villela, graduanda do curso de pedagogia da Universidade do Sagrado Coração, em Bauru.

Descrição da imagem : uma roda de bonecos de papel dançando enquanto um boneco fica de fora da brincadeira.

Um comentário:

Vilma disse...

Muito bom, concordo com você, quase sempre as "adaptações" que os alunos com deficiências pedem, são obvias demais, mas alguns educadores preferem fazer disso um bicho de 07 cabeças...Dá a impressão que para algumas crianças aprenderem precisam ir para uma sala na Nasa...Parabéns!