quarta-feira, 3 de setembro de 2008

Somos todos deficientes intelectuais ?

"O argumento de que todos somos deficientes é muito comum e tem o intuito de igualar as pessoas com deficiência a todas as outras. No entanto, igualar as deficiências sensorial, física e intelectual às deficiências humanas e pessoais como os defeitos de personalidade (egoísmo, agressividade, impaciência, etc) é o mesmo que negar as deficiências como as conhecemos e são vistas socialmente.

Pessoas com deficiência são iguais a todos como pessoas humanas, porém dentro das suas diferenças específicas e nessas se distinguem suas deficiências.Se as pessoas querem aceitar as pessoas com deficiência , que as aceitem além de suas deficiências comuns e pessoais, mas com consciência plena de suas deficiências específicas que as impedem de enxergar, andar, ouvir ou pensar com rapidez.

As pessoas com deficiência só se sentirão plenamente aceitas se forem vistas em todas as suas características pessoais. Quando alguém diz que "afinal, todos temos nossas deficiências", começa a negar, na verdade, a mais social e pessoal das características das pessoas com deficiência que é a sua diferença e que por ela se denominam."
*

Talvez nem todos saibam que eu sou pai de um menino com síndrome de Down (e de uma menina com síndrome de capataz - quer mandar em todo mundo) e, por esse motivo, já há alguns anos estou envolvido com as questões relativas à deficiência intelectual (isso mesmo, não se usa mais deficiência mental desde a Declaração de Montreal de 2004), especialmente a inclusão de todas as pessoas em todos contextos.

Desde que o Samuel nasceu tentam me provar (ainda não me convenceram e, à medida que ele cresce, me convenço menos ainda) que existem algumas áreas do raciocínio que são problemáticas nas pessoas com deficiência intelectual : percepção, memória, abstração e capacidade de interpretação. Lendo e escrevendo eu descobri que não são as pessoas com deficiência que tem essa dificuldade. Somos todos nós.

Temos sérios problemas de percepção. Poucas vezes conseguimos notar que algo diferente está acontendo ao nosso redor. Quando percebemos o fato, não conseguimos ler suas entrelinhas, quando lemos as entrelinhas distorcemos tudo.

Dizem que o brasileiro é um povo sem memória. Tenho a impressão que essa não é uma exclusividade nacional. Com a desculpa da nostalgia voltamos a cometer os mesmos erros do passado. De um lado valorizamos a forma de viver do "nosso tempo" (nesse caso sempre algo da nossa infância e juventude) como se esse tempo não fosse o agora. Ressucitamos anacronismos e ainda achamos bonito. Do outro lado, esquecemos totalmente a história , geralmente naquilo que ela teve de pior, até que seja tarde demais e o estrago já tenha sido feito...de novo.

Também descobri que o uso de metáforas, analogias, metonímias e outras figuras de linguagem são inviáveis. Ironia, então, nem pensar. Não sabemos ou não queremos exercitar nossa abstração. Isso dá trabalho e exige que se pare para pensar. Só conseguimos conviver com o que é concreto, visível, palpável ou compreensível de forma direta. Precisamos personificar conceitos, ou melhor, só personificar sem conceituar nada. Deve ser por isso que os reality-shows façam tanto sucesso, uma vez que não exigem nenhum esforço intelectual.

Sempre que eu digo que o Samuel está alfabetizado desde os 6 anos, alguém me pergunta : "mas ele sabe ler (i.e. decifrar o código) ou consegue interpretar o que está escrito ?". Sou obrigado a responder que ele interpreta perfeitamente. Deve ser porque ele se limita a interpretar o que está escrito. Muitas das discussões que vejo nos grupos acontecem simplemente porque as pessoas começam a responder antes de ler o que está escrito. Não têm nenhuma capacidade de interpretação, não por incompetência, mas por displicência. Um fala bola e o outro responde a respeito das condições meteorológicas. Volta-se e explica-se o que é a bola e dizem que você não gosta de chuva.

No que que isso vai dar no futuro ? Não sei, acho que não tenho a percepção do todo e, de qualquer forma, quando o futuro chegar ninguém vai se lembrar mesmo.Talvez os seres do porvir apenas nos interpretem como uma abstração qualquer.
Os seres do porvir serão justamente esses que hoje chamamos de deficientes intelectuais, que prestam mais atenção, guardam nas suas memórias o que lhes é relevante, conseguem abstrair e interpretam corretamente o que é escrito porque, conscientes de suas limitações, estão preocupados em acertar.

*Esse trecho do texto é uma adaptação de uma mensagem do MAQ (Marco Antonio Queiroz), da Bengala Legal e do Acessibilidade Legal, sobre o pseudodiscurso da generalização da deficiência.

Descrição da imagem: foto do Samuel lendo "O Fantasma de Canterville" de Oscar Wilde. Segundo ele uma história bem maluquinha.

6 comentários:

cava disse...

Entendeu condicoes meterologicas? Nao sei, às vezes acho que entendeu bola mesmo. Foi apenas o gancho para o cara falar. Dar sua opiniao. O assunto que se dane. É menos importante que aparecer, parecer inteligente. Quem nao tem opiniao hoje esta lascado. Nao é ninguem. Eu preciso ter a minha. Se eu pensar ninguem percebe. Opino, logo existo. E, claro, preciso ser expert em tudo, senao nao me destaco.

Acho que este egoismo, desprezo e visao mediocre do mundo tambem se manifesta em frases feitas e opinioes compradas no supermercado, como as descritas por voce no texto.

Aquela coisa: "nao entendo nada de sindrome, menos ainda de deficiencias. Na verdade nem ligo pra isso. Mas dizer que todos somos deficientes é algo que posso sustentar em uma argumentação. Em ultimo caso uso o argumento que vi no Discovery."

Uma punheta que nao leva a nada a nao ser uma chance de aparecer no palco. Pegar o microfone na mao. Dar a opiniao, mesmo quando ele nao foi pedida.

Vilma disse...

Que bom sair da minha hibernação "netiniana"só um pouquinho e ver que vc e o MAQ continuam trabalhando por nós, obrigada!

um beijo nos três ( Fábio, MAQ e Samuel)

Fábio Adiron disse...

Cava

Meu pai tem um frase que eu gosto muito, ao se referir ao tipo de pessoa que você menciona: fulano perdu uma preciosa oportunidade....de ficar calado.

O livro de Provérbios (o da Bíblia) diz que quem cala, mesmo sendo tolo, passa por sábio.

A recíproca é verdadeira : quem fala, até quando é sábio, se passa por tolo.

Ah...é um prazer ter você aqui nesse espaço

Abraço

Anônimo disse...

Vou repetir aqui o que já te escrevi em e-mail: já encontrei contigo em um evento em São Paulo, encontro com pessoas em bares, em reuniões, nas ruas, mas encontrar contigo em um texto foi demais!
Carinho para Vilma e um ponto de interrogação para o CAVA.

Abraços amigos e inclusivos do MAQ.

Joseane Oliveira dos Santos disse...

Olá, tive o prazer de conhecer seu blog. Parabéns você é uma pessoa realmente muito inspirada, pois seu blog é muito bom.
Vou acrescentá-lo a minha lista de blogs amigos.

http://arteducadora.blogspot.com/
http://bibliotecachampagnat.blogspot.com/

Anônimo disse...

A questão fica no ar. Só sei que não sabemos nada.