quarta-feira, 24 de setembro de 2008

Uma reflexão sociológica sobre o momento da notícia

"Se as crianças conseguissem que seus protestos, ou simplesmente suas questões, fossem ouvidos em uma escola maternal, isso seria o bastante para explodir o conjunto do sistema de ensino". (Giles Deleuze)


Algumas horas eu tenho de voltar várias vezes a uma mesma mensagem para tentar descobrir como começar a resposta. Essas são as melhores mensagens que eu recebo pois são aquelas que me provocam a reflexão, que eu acredito seja um dos aspectos mais característicos da vida em rede.

Uma vez tivemos uma discussão no grupo Síndrome de Down se o fato das pessoas mais simples terem menos acesso a informação não diminuia o choque das mesmas em relação ao momento da notícia. A discussão foi muito rica conceitualmente. Minha conclusão é o que se segue.

Segundo Deleuze e Guattari, a nossa existência, aparentemente individualizada e única, vive em um processo permanente, intenso e ininterrupto de desterritorializações e reterritorializações. Não podemos viver sem estarmos inseridos na órbita de algum território existencial. No entanto, ele jamais é fixo ou inalterável, sendo concebido sempre como ponto de partida e não de chegada (aliás como deveria ser concebido o nosso sistema de avaliação escolar...mas essa é outra história)

Queiramos ou não, nossos territórios estão cotidianamente sendo transformados, até inconscientemente, por acontecimentos externos a nós e o momento da notícia é um momento de profunda mudanças de territórios. É como se um estranho em nós sempre estivesse à espreita pronto a atravessar e a metamorfosear maneiras repetitivas e habituais de vivenciar a realidade aparentemente única de cada indivíduo, como se nada pudesse altera-la, modificar a direção, já decodificada pelo lançador, de sua flecha rumo ao futuro.

Quando nós entramos nessa discussão sobre expectativas e conhecimento, desse nosso país onde eu, por ter casa própria e os filhos numa escola particular posso ser classificado como classe A, temos de pensar muito a respeito das questões das realidades individuais e dos territórios ocupados (ou serão invadidos?) pela maioria esmagadora da nossa população. Exatamente por isso é que eu levantei a "lebre" de uma possível realidade poliânica que pode existir a partir da exclusão social que gera a ignorância e que baixa as expectativas.

Quando eu penso em inclusão eu continuo acreditando que ela é uma meta a ser alcançada para todos, e existe muito mais gente excluída do que os nosso filhos ou que a comunidade dos deficientes.

É conveniente realizar uma leitura crítica da nossa história recente. Sobretudo da década de 90 para cá, as palavras de ordem da mídia objetivaram, a todo custo, retroalimentar a idéia de que as classes sociais, não importando quais forem, devem ser cidadãs incluídas na órbita do sistema vigente. Desde o momento da ruína ideológica do chamado socialismo real, expressões, tais como a luta pela conquista de uma cidadania plena de direitos, perderam sua carga de ruptura e passaram a fazer parte do dicionário capitalista, no sentido de que ser incluído passou a significar estar apto a produzir para o mercado, ou melhor, o de alcançar o status de cidadão produtor e consumidor.

Eu gostaria sinceramente que toda a população pudesse ficar chocada com o momento da notícia se isso significasse que essa mesma população tivesse cultura suficiente para entender o que está se passando. Mas eu também gostaria que ninguém se chocasse com o momento da notícia, pelo conhecimento de uma sociedade que tivesse ultrapassado a barreira do preconceito e tivesse chegado a um modelo onde inclusão fosse uma palavra desnecessária - não somente pela lógica liberal capitalista, mas principalmente pelo real respeito ao ser humano.

Me desculpem a prolixidade....às vezes eu sou assim mesmo...

Descrição da imagem : cartoon de um homem sentado escrevendo, milhares de letras saem voando do papel

2 comentários:

ubiratan disse...

Oi, Fábio,
Bela reflexão sociológica. Ao ler o final pensei, sobre os paradoxos do choque. A *não exclusão* é um desafio de todo pai e toda mãe que acredita que o filho ou a filha lhe pertence, acredita que é sua extensão, acredita que é sua frustração vingada. Isso depende de estratificação social? Pode ser, vira e mexe ouço casos de exclusão familiar na geração passada. De gente de fato abastada (um quarto enorme para o filho com cerca numa, por exemplo). Uma amiga me disse algo que sempre lembro. O nascimento. A diferença do filho com "deficiência" rompe de cara uma espectativa comum nos pais e mães: a consciência de que esse filho, essa filha, é uma pessoa. Uma consciência que às vezes não se alcança. O não reconhecimento. Então que o choque venha e que venha logo e com ele o reconhecimento.

Vilma disse...

Tudo seria tão simples se não complicássemos tanto... bela e oportuna reflexão.