quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Retrato em branco e preto

"E pobres são como podres e todos sabem como se tratam os pretos" (Caetano Veloso/Gilberto Gil - Haiti)


Buscando imagens no Google para ilustrar o texto da semana passada, usei os termos "miséria, pobreza e deficiência", em português e em inglês. Sempre acreditei que a exploração da pobreza é que perpetua a exclusão das pessoas. Quem se beneficia do fato delas ficarem à margem da educação e do trabalho sempre vai remar contra a autonomia.

Não diria que minha descoberta foi surpreendente, mas não deixa de ser chocante : todas as imagens em que apareciam pessoas pobres e miseráveis elas eram negras (ou quase pretas, como já cantou o Caetano Veloso).

Dois dias depois da minha publicação o IBGE divulgou os resultados da Pesquisa Mensal de Emprego do IBGE, com indicadores referentes a raça e cor.

Pretos e pardos estão ganhando em média a metade do salário dos brancos, o que, apesar de representar uma melhora(sic) comparando aos dados de 2004, ainda é um desnível brutal.

Se vivemos numa sociedade que alega não ser racista, nem discriminatória, por que é que isso acontece ?

O próprio IBGE dá a resposta : a população branca tem 4 vezes mais pessoas que chegaram ao nível superior de ensino do que a população negra ou parda. Cursando o nível superior o buraco é um pouco menor, a proporção é de 3 para 1.

Isso ainda não é uma resposta, apenas provoca outra pergunta : por que, apesar de representar quase 45% da população, no máximo 6% chegam ao nível superior ?

O ensino superior ainda é um privilégio quase exclusivo dos alunos egressos de escolas particulares que, se não tem uma política discriminatória explícita a tem nas entrelinhas (não obrigatóriamente na direção da escola, mas entre alunos e pais de alunos).

É um círculo vicioso. O pobre não tem acesso à escola particular porque não tem dinheiro para pagá-la. E não tem dinheiro para pagá-la porque não tem acesso aos níveis superiores de ensino que quase só se alcançam através dela.

Outro dia, num evento da escola dos meus filhos, estava reparando nisso. A escola onde estão tem uma origem religiosa que sempre teve muitos negros, e encontramos vários na escola. No entanto, do evento participavam outras 3 escolas de São Paulo. Nenhum negro. Uma delas parecia ser (apesar de não ser) escandinava, quase só loiros.

Se olharmos para a escola pública, a situação racial se inverte. Mas quem dá valor à escola pública ? É escola de pobre, não é mesmo ? Além do que, se esse pobres se tornarem educados e conscientes podem começar a pensar e, assim como acontece com as pessoas com deficiência, deixarão de ser tutelados ( o que vai provocar prejuízos financeiros para muitos)

Distribuição de renda justa, mais do que distribuir migalhas, passa por investimentos maciços e sérios na educação pública.

É a única forma de quebrar esse círculo vicioso e transformar a escola num espaço de qualidade para todos.

Descrição da imagem : foto de um tabuleiro de xadrez com peças pretas e brancas

4 comentários:

ubiratan disse...

Fábio,
Redistribuição de renda e valorização da raça! A americanização não começou com a cotas mas antes com o fim da miscigenação diz Rita Laura Segato (antropóloga da UNB). Fim da miscigenação, continuidade da desvalorização. Raça é signo, diz ela (vide artigo de 2005; copia pdf no linque http://ubir.files.wordpress.com/2008/10/segatoracasigno2005.pdf ). Deficiência é signo também. As contas raciais nas universidade e a não exclusão da deficiência no ensino fundamental visam a redistribuição valorativa.

Reinaldo Bulgarelli disse...

Caro Fábio, sou seu fã e gosto muito de suas reflexões. Em relação a "Retrato em Preto e Branco", contudo, preciso acrescentar que faltam mais detalhes nesta história: o racismo. Mesmo os 6% de negros com educação superior encontram dificuldade para encontrar emprego ou colocação compatível com sua formação. Não é o mesmo que acontece com pessoas com deficiência? Apenas aumentar o número de anos de estudo da população negra ou com deficiência não resolve o problema porque há esse enfrentamento ao preconceito e à discriminação que é fundamental. Cotas nas universidades e o Prouni já estão formando centenas e milhares de negros, contudo, mantidos os padrões atuais de racismo, o mercado de trabalho tende a não reconhecer qualidade em quem é diferente, assim como não reconhece a diferença como uma qualidade na vida organizacional. Grande abraço! Reinaldo Bulgarelli

Anônimo disse...

Meu nome é Sandra Costa e sou professora de Português na Escola Secundária de Serpa, em Portugal. Tenho acompanhado com muito prazer o seu trabalho e, por isso, desta vez vou convidá-lo a dar uma espreitadela no blog que eu a equipa da nossa biblioteca criámos para a nossa comunidade escolar.

http://bibliotecaportaberta.blogspot.com/

Espero que seja do seu agrado!

Um Bem-Haja para você e para todos os que aqui estão por bem!

Fábio Adiron disse...

Reinaldo

A discriminação de fato existe na ponta, mas não adianta trabalhar só de um lado.

Que adianta convencer o empregador que não pode discriminar, se à pessoa discriminada foi negada a oportunidade de formação.

As cotas são instrumentos, pelo menos temporários, de compensação à exclusão do lado formação.

Infelizmente, sem ações afirmativas (e multas), ninguém se mexe.