terça-feira, 21 de julho de 2009

Portadores sem cabeça

Dizem os dicionários que portador é o que ou aquele que conduz ou leva alguma coisa. O verbo portar é ainda mais claro, usando como sinônimos além do levar, o transportar.

Às coisas que são mais fáceis ou leves de transportar damos o nome de portáteis.

Podemos portar objetos físicos, mas também os não físicos. Eu posso ser portador de boas ou más notícias (se bem que, nesse caso, a origem da expressão esteja ligada ao fato de que, antigamente, as notícias eram levadas fisicamente em papéis).

Uma das características fundamentais da portabilidade é o fato que o objeto transportado pode ser deixado em algum lugar, ele não está incrustrado no seu portador.

Eu porto minha carteira de identidade, mas posso esquecê-la em casa.

Muitas pessoas podem se utilizar de portadores para enviar encomendas.

Os cegos portam suas bengalas mas não conheço nenhum que durma com elas.

Agora, ninguém porta algo que seja parte da sua própria pessoa, ou você conhece alguém que deixe a sua cabeça na sala e vá fazer outra coisa? (nem aqueles que dizemos que só não perdem a cabeça porque está presa no pescoço)

Uma pessoa com deficiência pode portar vários objetos. Mas não a sua deficiência. Essa é inerente à sua pessoa. é indissociável dela.

O que não significa que não exista um monte de gente que ainda use essa expressão. Devem ser pessoas que carregam suas cabeças debaixo do braço e a largam perdida por aí.

Na próxima vez que você se referir a uma pessoa com deficiência como portador aproveite e deixe sua cabeça no criado mudo para ver se ela reflete mais cuidadosamente sobre o assunto.

Descrição da imagem : figura de uma pessoa carregando a cabeça debaixo do braço

7 comentários:

Andrea Tikhomiroff disse...

Adorei, Fábio! Como é difícil as pessoas mudarem o vocabulário, né?

Beijo!

soramires disse...

Gostei de ler além de refletir sobre o uso das palavras é divertido, bem humorado.
Mas ontem mesmo li um post de gente inteligente que numa traição da memória usou a palavra defeituosa no lugar de deficiente numa sigla conhecida. Realmente há muitos anos se usava essa palavra que hoje é rejeitada.
Esses cuidados para não ofender e não discriminar às vezes cria monstruosas aglomerações de termos, metáforas pseudo caridosas que me cansam.
Tenho 61 anos e acho engraçado quando dizem "melhor idade" para gente de minha idade. Melhor para alguns, pior para outros, é um termo boboca que também discrimina.
Ou dizer que tal pessoa é especial porque tem uma deficiência qualquer. Ou quando uma pessoa deficiente ganha um prêmio ou se destaca em sua atividade é sempre um exemplo de vida. Tais expressões são para mim discriminatórias, quase sempre estão lebrando que a pesso é "diferente".
Melhor chamar o surdo de surdo e o cego de cego, assim todos entendem.

Cristiana Soares disse...

perfeito!

INCLUSIVE - Contando hits desde 1/5/2008 disse...

Palavras, palavras... tambem dei um tempinho e parei de brigar por elas. Isso nao quer dizer que concordo com o termo portador!! Na verdade, Fabio, voce escreveu algo que ha muito eu queria dizer.
Pessoa e ser humano. Ser humano e pessoa. Sem penduricalhos. E ponto final.

Vilma Mello disse...

O que vai ter de cabeça no criado mudo...

Muito sensato

Abraço

Vilma

Arimar disse...

Vamos divulgar, principalmente para os "comunicadores".
Beijos

Menina Robô disse...

Bom, Fábio...
prefiro ser chamada de PNE - Portadora de Necessidade Especial, do que "Deficiente Física", porque deficiente eu não sou, nasci com limitações, mas sou bem EFICIENTE... nas coisas em que posso fazer... risos
E "deficiente" me faz sentir diminuída, imprestável e um nada!
Entre ser chamada de DF ou PNE, nenhum dos dois gostaria de ser chamada, mas como a sociedade já nos rotulou, então prefico PNE.

Abraços!

Obs.: Adorei o seu blog, difícil de encontrar um blog que fale sobre nós...

Kariny