terça-feira, 22 de setembro de 2009

Bandidos em fuga

"...educação especial é um serviço, não um lugar."


Muito tem se discutido os documentos que o MEC e o Conselho Nacional de Educação tem publicado na tentativa de implantar uma educação que, de fato, seja para todos, sem segregação e exclusão.

Um dos mais importantes, publicado no ínicio de 2008, foi a "Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva", que direciona os serviços de educação especial para dentro das escolas comuns, de forma que as pessoas que necessitem desses serviços o tenham sem serem segregadas.

A geometria nos explica que perspectiva é a projeção em uma superfície bidimensional de um determinado fenômeno tridimensional. Para termos essa percepção tridimensional usamos o recurso dos pontos de fuga, que é o ponto (ou os pontos) de convergência das linhas que descrevam a profundidade dos objetos. É a direção para onde um objeto segue, se aprofunda.

No entanto, contrariando todos os princípios geométricos, o que muitas escolas tem feito é tentar achar pontos de fuga para escapar dessa perspectiva. Usam de argumentos que vão dos escancaradamente preconceituosos aos mais sorrateiramente disfarçados.

O problema é que, quando criamos um ponto de fuga, é justamente para lá que os nossos olhos vão (você pode não entender nada de desenho ou de pintura, mas quando olha para um, seus olhos são atraídos para esses pontos). Ponto de fuga é justamente onde tudo se centraliza.

Quando um ser preconceituoso como o presidente do sindicato das escolas particulares do Rio Grande do Sul afirma, contrariando a mais básicas noções de direitos humanos, que as suas escolas tem a prerrogativa de recusar alunos com deficiência, ele está tentando usar o ponto de fuga do desprezo pelo ser humano. Um ponto de fuga que já foi bastante utilizado por torturadores, assassinos, terroristas e fascistas de todas as espécies.

Um ponto de fuga que defende a superioridade alguns seres humanos em detrimento dos outros. Que acredita que o mundo é de quem tem e não de quem é.

Pior do que isso, apoiado pelo Ministério Público, que deveria, salvo eu esteja enganado, ser o defensor da ordem legal e não dos interesses econômicos das escolas particulares. Ministério Público que ignora a existência de uma Constituição Federal que, no seu arcabouço, passou a incluir a Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência.

Claro, alguns vão alegar que essas escolas não estão preparadas para receber crianças com deficiência. Não estão mesmo, e nunca estarão enquanto as crianças não estiverem no dia-a-dia da escola.

De novo é a geometria e a arte que nos explicam que, quando criamos um ponto de fuga, criamos um espaço vazio que precisa ser preenchido pelo artista, caso contrário a perspectiva será nenhuma.

Inclusão só existirá quando os artistas da pedagogia preencherem esses espaços.

Enquanto isso não acontece, precisamos ficar de olho nesses pontos e brigar para que o que deve ser uma bela perspectiva não se torne apenas um buraco por onde os bandidos escapem.

Descrição da imagem : Quadro do pintor M.C.Escher, chamado "Relatividade", mostra pessoas subindo e descendo escadas que não convergem para os mesmos pontos de fuga, dando uma sensação de um espaço cuja lógica é totalmente subvertida.

4 comentários:

Vilma Mello disse...

Fábio, isso é uma vergonha para uma classe que tem uma responsabilidade enorme e a maioria só faz reclamar...

Rubinho Osório disse...

O mesmo aconteceu com as empresas quando foram obrigadas a contratar pessoas com deficiência. Disseram-se despreparadas e pediram prazo para...não fazer nada! Mas esses irresponsáveis e segregacionistas terão que engolir sua prepotência. Ah, vão!!!

Vilma Mello disse...

ah, e antes que o ponto de fuga passe a ser o salário, lembro que ninguém entra desavisado na profissão.

Elaine disse...

Fabio, aqui vc foi brilhante. Eu nao suporto mais essa mente dinossaurica de educadores que se acham despreparados...vão vender picóle então...