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quarta-feira, 15 de janeiro de 2025

Ah... essas generalizações

 



A palavra estereótipo tem origem nas palavras gregas stereos e typos, que significam "impressão sólida". O termo foi criado pelo gráfico francês Firmin Didot em 1794 para se referir a um processo de impressão gráfica que permitia a produção em massa de jornais, revistas e livros. 

O jornalista americano Walter Lippmann foi o primeiro a usar o termo com o sentido psicológico, em 1922. No seu livro Opinião  Pública, Lippmann usou o termo para descrever a forma como as pessoas simplificam e categorizam o mundo e as outras pessoas para facilitar a compreensão. 

 Atualmente, o termo estereótipo é usado para descrever uma ideia ou impressão fixa e generalizada de um grupo de pessoas. Essas representações sociais costumam ser a base de preconceitos e outras crenças sociais.

 Impressão fixa, generalizante é uma prática bastante generalizada (oops!), desde as diferenças mais básicas como as que opõem homens x mulheres, passando pelas de raça e cor (que o diga o comportamento das polícias em relação aos negros)  e, claro, de todas as demais sejam elas representativas ou não.

 Quando trata-se de pessoas com deficiência, a tendência é a de generalizações piedosas e/ou compensatória: “eles são tão amorosos”, “escutam que é uma beleza”, “em compensação são tão inteligentes”, e por aí vai.

 Claro, toda e qualquer generalização, acaba criando barreiras para as pessoas generalizadas e excluindo-as da possibilidade de realizar algo, ou obrigando-as a realizar algo para elas não tenham habilidade ou inclinação.

 Toda vez que você se sentir tentado a começar uma frase com “eles (ou elas) são...” pare e repense o que vai dizer

domingo, 17 de janeiro de 2021

Pafúncio* , o preconceituoso

Pafúncio, o personagem dos quadrinhos, um homem branco de meia idade, vestido de terno e fumando um charuto

 

Pafúncio é o nome fictício para o ser real que vou descrever aqui. Como é uma pessoa conhecida e renomada e o meu objetivo aqui é didático e não de “lacrar” ninguém, vou mantê-lo anônimo.

Pafúncio é uma pessoa que eu respeito muito, ou melhor, respeitava até sábado passado. Músico brilhante e de carreira importante, professor muito querido pelos seus alunos e defensor da arte e da cultura.

Eu o acompanhava em seus canais digitais e sempre aprendia muito com ele. Eventualmente comentava algo e ele sempre teve a educação de responder.

Também é uma pessoa de posições políticas fortes e com as quais eu, na maioria das vezes, concordava.

No sábado passado ele estava muito furioso com algumas dessas questões políticas e publicou dois posts em seguida:

(descrição da imagem - reprodução de um post que diz: "O mito falando para Jovem Pan, hoje, Será possível que tenha ainda um bando de cegos que o apoiam?"

(descrição da imagem - reprodução de um post que diz: "...E o pior que ainda tento falar com os cegos...que idiota que sou.)

Claro que como ogro inclusivo eu não poderia deixar isso passar batido. Mandei para ele uma mensagem educada explicando por que não se deve usar a deficiência como um adjetivo. É da minha índole sempre tentar explicar as coisas para as pessoas e não atacar com os dois pés no peito.

Para detalhar melhor, enviei o link de um artigo que escrevi junto com o saudoso MAQ em 2008 (se quiser ler o original clique aqui) chamado “Deficiência não é adjetivo”.

Apesar da resposta dele também ser educada, foi absurda demais para que eu a levasse a sério. Segundo ele, o uso de “cego” “era apenas uma metáfora, um uso quase poético e que evitar esse tipo de palavra nesse contexto empobrecia a língua.”

“Bando” de cegos é poético? Será que é um acaso a palavra bandido ter a mesma origem? É uma idiotice metafórica falar com cegos? Não me parece que a cegueira foi colocada de forma, no mínimo, neutra. Foi pejorativa mesmo.

Fico imaginando se ele usaria da mesma forma metafórica e poética, termos que denotassem preconceito de cor, raça, nacionalidade, gênero ou orientação sexual.

Claro que não! Mas em relação às pessoas com deficiência não é preconceito ou desprezo, é metáfora, é riqueza da língua.

Respondi que nossa língua, que talvez ele não conheça suficientemente bem por ser estrangeiro, é rica o suficiente para não precisar ser inconveniente. E me desconectei desse ser que se tornou abjeto para mim.

O que fazer?

Durante a minha caminhada no universo das pessoas com deficiência eu dei várias mancadas. Um mundo que me era completamente estranho até ser envolvido por ele.

A coisa mais importante que eu aprendi foi que sempre devemos ensinar as pessoas antes de criticá-las. Continuo agindo dessa forma, como aconteceu nesse caso.

Tive excelentes professores. Pessoas cegas, surdas, com deficiência física, com deficiência intelectual, com autismo. Aprendi com o Paulo, com o MAQ, com a Naira, com a Anahi, com a Tchela, com o Gregor, com a Leandra, com o Francisco, com a Flávia, com a Jéssica, com a Izabel. Recentemente ganhei novas professoras a Marcela Jahjah e a Daniele Avelino. A lista seria imensa se citasse todos.

Se acontecer algo parecido com você, não seja um Pafúncio, autossuficiente e arrogante:

1.    Entenda que quem chama a atenção não é seu inimigo, mas alguém que quer te ajudar e evitar mancadas

2.    Reconheça a mancada. Pode acontecer com qualquer um

3.    Se fez isso por escrito, edite o que escreveu

4.    Procure não repetir o erro

5.    Eduque outras pessoas.

Quanto ao Pafúncio, provavelmente continuará sendo um excelente profissional no que faz e continuará com muitos contatos e seguidores (certamente eu não vou fazer falta). Como ser humano tornou-se irrelevante para mim.

*Pafúncio é um personagem de quadrinhos criado por George McManus em 1913, o nome original das tiras era Bringing up father e, no Brasil, Pafúncio & Marocas


segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Preconceitos e diversidade



"Um navio no porto é seguro, mas não é para isso que os navios foram feitos."  William Shedd

Caro leitor: você chegou a esse texto movido pelo seu interesse pelas questões que envolvem a inclusão na escola. Caso não tenha sido interesse, pode ter sido pela necessidade o que, no final das contas, chega no mesmo objetivo.

Desse lado do papel ou da sua tela de computador está uma pessoa que há anos debate o tema e tenta propor caminhos que facilitem a sua vida e orientem como lidar com o assunto, do outro você. Professor, gestor, pai ou apenas um curioso. De qualquer forma, pessoas conversando com pessoas e, por isso mesmo, tomamos a liberdade de falar na primeira pessoa do singular, assim nosso papo fica informal.

Vamos começar?

Preconceito

Já que estamos a sós, não precisamos nos fingir de politicamente corretos, combinado? Eu tenho preconceitos, você também. Todas as pessoas são preconceituosas o que varia é que grupo incomoda cada um de nós. Para algumas pessoas cor e raça é um problema. Para outras é classe social ou nível intelectual.

O preconceito pode ser direcionado a pessoas com deficiência, pessoas com comportamento que julgamos inadequados, pessoas que tenham cometido crimes. São tantas as variações do preconceito como é a variedade do ser humano.

Não se ache uma pessoa vil por ter seus preconceitos. Freud já explicava que faz parte da natureza humana, segundo ele, ao contrário do preceito bíblico de amar o próximo como a si mesmo, costumamos amar o próximo desde que ele seja o mesmo que nós.

O problema do preconceito não é você preferir um loirinho de olhos azuis ou uma negra para namorar. Não é você ter amigos que gostem das mesmas coisas que você. Também não é você não querer ter os mesmos modos ou comportamentos que algumas pessoas.

O preconceito se torna um problema quando você impede que determinados grupos de pessoas tenham acesso aquilo que faz parte dos seus direitos inalienáveis como seres humanos, como talvez aconteça na sua escola.

O preconceito é um problema quando você se recusa a ensinar um aluno, partindo do princípio que pessoas “desse tipo” não vão aprender mesmo. Quando você faz isso, você está fazendo com que o seu preconceito fraude os direitos individuais. Isso deixa de ser preferência e passa a ser crime.

Diversidade

Já que concordamos que todas as pessoas têm direito à educação em todos os níveis, vamos conversar um pouco sobre quem são essas pessoas e o que é diversidade.

Afinal de contas, o que é essa tal diversidade que tanto ouvimos falar? Como é que ela se manifesta? O que isso implica na organização das escolas e das aulas?

Se formos até um dicionário vamos encontrar muitas definições. Eu não vou cansá-lo com semântica ou etimologia, mas aprendemos que existem duas maneiras de olharmos a diversidade.

A primeira delas parte da desigualdade natural que existe entre todas as pessoas. No entanto, os seres humanos possuem mais coisas em comum do que diferenças, ou seja, essencialmente somos todos semelhantes com pequenas variações.

A desigualdade natural muitas vezes é aparente, quando observamos apenas os aspectos físicos, mas também existem desigualdades naturais que não estão à flor da pele. De qualquer forma essa variação é objetiva, perceptível de uma forma ou de outra e não obrigatoriamente carrega consigo um juízo de valor.

Mas também existem as desigualdades sociais. Essas são socialmente construídas, estão carregadas de juízo de valor e podem mudar de acordo com o local ou com a época da história.

Esse julgamento social, estabelece uma hierarquia entre seres humanos onde alguns são considerados ideais e os demais são classificados em outros degraus da pirâmide. Esse pensamento é formado nas nossas mentes pela educação que recebemos em casa, na escola, nos grupos de amigos, uma transmissão que vem de longa data e se solidifica de tal forma que, mesmo que não usemos essa terminologia, olhamos para as pessoas como cidadãos de 2ª. 3ª ou 4ª categoria.

Pessoas que, nas nossas mentes, são inferiores, estão cheias de defeitos, afinal, não são iguais a nós. Quando encontramos uma pela frente, nosso olhar (ou o nosso pensamento) se direciona imediatamente para aquilo que esse outro tem de déficit, o que ele precisaria corrigir em si mesmo para poder se tornar um de nós – seres de primeira.

O curioso é que isso pode acontecer com você também: dependendo do lugar onde está, você pode tornar-se um ser de segunda ou de terceira, isso sempre variará segundo o ponto de vista.

Você acha que estou exagerando? Lembre-se da última vez que encontrou com um menino de rua ou com uma criança cega, sua primeira reação não foi de pena? Não olhou para os defeitos dessa criança antes mesmo de admitir que ela fosse apenas um ser humano?

Por isso que dizemos que esse olhar deficitário é um problema ideológico, o que se esconde atrás dessa atitude é a rejeição da diversidade como valor humano e a perpetuação dos preconceitos entre as pessoas, determinando a priori que essas desigualdades são insuperáveis.

Essa incompreensão da diversidade implica que os educadores pensem que os processos de ensino deveriam se dividir de acordo com a escala hierárquica que construímos na nossa sociedade.

Passamos a acreditar que é melhor que existam especialistas em lidar com crianças de rua, outros que entendam de pessoas com deficiência (na verdade vários, um para cada tipo de deficiência), pessoas que sabem ensinar em cárceres. Da mesma forma que, no passado, a sociedade defendia escolas separadas para meninos e meninas.

Antes, várias pessoas não tinham acesso à educação, pois eram vistas como ineducáveis; tempos depois, foi surgindo a preocupação pela sua educação, mas a segregação continuava pois tal educação era paralela à educação regular. Hoje, embora se proponha que todos os alunos devam estudar, preferencialmente, em escolas regulares, são muitos os que torcem seu nariz ao ver um aluno com transtornos de desenvolvimento ou com deficiência em salas comuns

Pior, como educadores, perpetuamos esse sistema de castas de aprendizagem. Chegamos até a defender que a escola pública é boa mesmo para os pobres. Isso não deixa de ser um reflexo da nossa própria crença de que a elite, por sua capacidade superior, deve conduzir esse monte de gente ignorante que existe por aí?

Ah...você está começando a perceber que o que você faz na sua escola é uma prática discriminatória. Que é uma forma de manter a tutela sobre aqueles que a sociedade considera inferiores? Espero que você perceba que é de dentro da sua sala de aula que essa construção histórica pode mudar. Que a escola pode e deve ser boa para todos.

É a cultura da diversidade que vai nos permitir construir uma escola de qualidade, uma didática de qualidade e profissionais de qualidade. Todos teremos de aprender a “ensinar a aprender”. A cultura da diversidade é um processo de aprendizagem permanente, onde TODOS devemos aprender a compartilhar novos significados e novos comportamentos de relações entre as pessoas.

Para isso, nada mais importante que esse compartilhar constante entre profissionais, familiares e comunidade. Um dos maiores entraves da prática docente é o cartorialismo da classe: há sempre 2 ou 3 que fazem seu trabalho de forma extraordinária, e outros 7 que o fazem de qualquer jeito.

A cultura da diversidade é uma nova maneira de educar que parte do respeito à diversidade como valor. E que traz no professor a emergência de seu potencial criativo e criador.

Tudo bem. Você ainda pode escolher quem vai namorar.


quinta-feira, 10 de março de 2016

Infinitas possibilidades perdidas


Faz parte da essência de um publicitário brincar com as palavras, imagens e sons. Ao redor deles é que esse profissional vai desenvolver a sua criatividade com o objetivo de vender um produto, serviço ou ideia.

Os melhores publicitários são aqueles que manipulam bem os seus recursos e, principalmente, como diria Ogilvy, aquele que atinge o objetivo de quem o contratou.[1]

O que não significa que todos trabalhem assim. Como em qualquer profissão existe gente com e sem competência. Um ex-chefe meu odiava o que ele chamava de síndrome de criatividade de alguns publicitários, para quem era mais importante a “sacada genial” (o genial fica por conta vaidade desses profissionais) do que aquilo que eles estavam anunciando.

A nova campanha do FIATToro me lembrou muito disso.

A sacada “genial” dos números que geram infinitas possibilidades sendo usada como metáfora de um carro que, segundo a propaganda, também seria detentor dessa infinitude, derrapou na lama de alguma das estradas de terra por onde ele passa no filme.

Sem perder tempo lembrando que um piano pode ter mais de 88 teclas (eles poderiam se ater ao dodecafonismo dos instrumentos temperados que teriam sido mais felizes), ou que muitos alfabetos superam[2] de longe o nosso limitado a 26 letras, o que me chamou a atenção foi excluir das possibilidades infinitas as pessoas que tem um número de cromossomos diferente de 46.

Pessoas com síndrome de Turner podem ter um cromossomo a menos. Pessoas com síndromes de Down, Patau, Warkany, triplo X e Klinefelter, tem um cromossomo a mais. Algumas síndromes raras podem provocar a ocorrência de tetra ou pentassomias e, nesses casos, serão pessoas com 48 ou 49 cromossomos.

E não são poucas, estamos falando de alguns milhões de pessoas ao redor do mundo, só no Brasil, onde a propaganda está sendo veiculada, a estimativa é de mais de meio milhão de pessoas (e suas famílias)

Pessoas que também possuem infinitas possibilidades de vida, de potencial e de sucesso. Se alguém quiser brincar de análise combinatória pode calcular que quem tem cromossomos a mais tem um número bem maior de possibilidades, diga-se de passagem.

Fiquemos apenas nas três possibilidades do que originou essa mancada (e sim, foi uma mancada, basta ler os comentários do vídeo no youtube para perceber que desagradou muita gente):

A primeira é a desinformação. Quem criou e quem aprovou a campanha (criação, planejamento, atendimento e o próprio cliente) não sabe nada a respeito das variações cromossômicas.

E se não sabem nada, antes de usar essa referência no texto, deveriam ter feito a lição de casa e estudado melhor o que estavam colocando no papel. Mas, e sempre há um mas, para que alguém que tem “sacadas geniais” precisa estudar algo? Gênios não precisam de pesquisa.

A segunda possibilidade é a do esquecimento. Alguém falou algo a respeito, mas como o redator ficou trabalhando durante toda a madrugada na campanha que o atendimento tinha de apresentar as 9 da manhã do dia seguinte para ser produzida no mesmo dia e veiculada na mesma noite, ninguém checou o material e esse “detalhe” passou em branco. As velhas e péssimas desculpas do meio.

A terceira possibilidade é mais assustadora, mas não pode ser descartada, ou seja, agência e cliente sabiam, lembraram, mas deliberadamente excluíram da mensagem. Afinal, a propaganda precisa passar uma imagem de gente feliz em situações perfeitas para tornar o produto um objeto de desejo. Associar o produto a essa gente esquisita que tem cromossomos a mais ou a menos não vai fazer bem para a marca.

Nesse caso, a situação seria de clara discriminação e preconceito e precisaria de um tratamento de choque. O único problema é que não seria possível provar isso somente pela veiculação do filme.

Por outro lado, a marca perdeu a grande possibilidade de associar seu nome a defesa da diversidade. Criou um público de inimigos e ainda vai gastar dinheiro vindo à mídia para se desculpar pela gafe.

Nesse momento, fica apenas o nosso repúdio.

Descrição de imagem: uma das salas da instalação "Além do infinito" de Serge Salat, montada sobre formas, cores e espelhos que dão a sensação de infinidade. No centro da instalação uma pessoa é reproduzida em infinitas imagens espelhadas.





[1] “Sua função é vender, não deixe que nada te distraia do único propósito da publicidade”. (David Ogilvy)
[2] O alfabeto russo tem 33 letras. Os dicionários chineses indicam a existência de 47 a 85 mil diferentes sinogramas, na escrita japonesa existem mais de 6 mil kanji

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Não é notícia

Ninguém notou
Ninguém morou na dor que era o seu mal
A dor da gente não sai no jornal
(Chico Buarque – Notícia de jornal)

 

Todos os jornais de hoje se preocuparam em noticiar que a menina atleta, além de ter se tornado uma pessoa com deficiência também assumiu o fato de ser gay.

E eu fiquei me perguntando: e eu com isso? Afinal de contas é uma questão de foro íntimo da moça. Por que esse destaque todo?

Eu que sou um homem sem deficiência, branco, cristão, heterossexual e monogâmico não sou notícia.

Se me tornasse cego, negro, xintoísta, transgênero e poligâmico talvez merecesse uma nota nas colunas de pessoas exóticas dos jornais.

Ou melhor, já fui notícia porque tenho um filho com deficiência que, pasmem, estuda desde sempre numa escola comum.

E tem gente que acredita que o preconceito está diminuindo ou se diluindo. Pura ilusão de quem acredita nas histórias da carochinha.

A ênfase que as pessoas dão para esses estranhos que participam de um mundo diverso só reforça o fato de que o preconceito é que, de fato, é amplo, geral e irrestrito.

Se fossem considerados comuns ou (arghhh) normais, não seriam notícia. E nem seriam alvo dos comentários de grande parte da população.

“- Você viu? Fulano de tal saiu do armário...”

“- Quem diria, um negro foi o primeiro colocado no vestibular da universidade X....”

“- Aquela moça com síndrome de Down se superou e agora até canta no You Tube...”

No dia em que o comportamento e as conquistas corriqueiras das chamadas “minorias” deixarem de ser notícia poderemos, talvez, acreditar que alguma coisa mudou no mundo.

Mas não é o que parece que vai acontecer.


Descrição de imagem: um dos seres estranhos de Greg Petchkovsky, artista surrealista que cria ilustrações, esculturas e animações. O bizarro e grotesco estão presentes em suas obras. Nessa imagem o monstro são estranho está comendo sushi

domingo, 25 de janeiro de 2015

Ah...esses médicos comuns


Quando meu primeiro filho nasceu com síndrome de Down, o primeiro médico com quem tivemos contato era um especialista, um geneticista cujo nome eu tento esquecer até hoje e que, depois de 16 anos, continuo torcendo para que ele se aposente e pare de falar sandices para pais que acabaram de ter filhos com síndrome de Down.

Na UTI da maternidade (ele ficou lá quase um mês por conta da sua cardiopatia congênita) conhecemos o Dr Miguel Borrelli, que foi pediatra dos meus filhos com e sem SD. Um médico competente, atencioso, cheio de bom senso. Ficamos com ele uns bons 10 anos e só deixamos de ir lá por conta do fato de que ele era tão competente que era disputado pelos hospitais e seus horários de consultório diminuíram muito.  Em momentos de urgência fomos atendidos pela sua esposa, também uma pediatra comum e não menos competente que ele.

Quando mudados já conhecíamos pessoalmente o Dr José Moacir, que rapidamente virou só ZéMoa. E de comum ele não tem nada (desculpa te desmentir na frente de todos Zé). A começar do fato que diferentemente de muitos médicos que conheci ele não se coloca num pedestal superior aos demais seres humanos. É um excelente pediatra, é um homeopata sem radicalismos (quando a coisa ficava feia ele não recusava medicar as crianças com alopatia). Mais que isso é um ser humano ímpar. Bom de cozinha, bom de palco e conhecedor de ótimos vinhos. E também casado com uma médica, no caso uma geneticista que não fala sandices.

Passamos por outros médicos comuns. Alguns continuam sendo médicos da turma aqui de casa, inclusive meus. Oftalmologista comum, otorrino comum, dermatologista comum, dentista comum e, no caso do meu filho mais velho, teve até uma cardiologista comum. Ele também teve uma fono comum que gerou resultados comuns, ou seja, ele fala muito bem.

Mas que nunca foram comuns no sentido de banais, corriqueiros ou triviais.

Quando conheci o Dr Zan Mustacchi já não sentia nenhuma necessidade de ir a um médico especial. O que não me impediu de me tornar amigo dele, de trazê-lo para palestras quando promovíamos os papos com os pais, de dividir mesas de debates com ele, até na distante Macapá, graças à Marinalva que nos juntou por lá para comer filhote à beira do Amazonas. Apesar de pequeno no tamanho, um grande sujeito. Mas que só conheceu o Samuel socialmente.

Conheci também outros médicos incomuns no meu caminho. Dentro do grupo de discussão sobre Síndrome de Down alguns com o duplo papel de médicos e de pais. Gil Pena, Célia Kalil, Ana Cláudia. Gente com quem eu adoro trocar idéias e, nãos poucas vezes uns golpes de esgrima. Médicos e amigos amados.

Claro, também conheci gente que não recomendaria a nenhum de vocês por aqui. Faz parte da vida. No caminho vamos encontrar médicos bons e ruins. Professores bons e ruins. Advogados bons e ruins. E até blogueiros bons e ruins, como eu, de acordo com o seu ponto de vista.
 
Não é o fato de serem ou não especialistas que os torna melhores profissionais. Por isso me esforço ao máximo para evitar generalizações. Elas sempre são ofensivas.

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Engaiolados

Eles poderiam estar aí agora trabalhando a seu lado no escritório, na fábrica, no campo.


Poderiam estar à sua frente para atender na loja em que você entrou para comprar o seu presente de Natal.


Poderiam estar sentados a seu lado num banco escolar de primeiro, segundo, terceiro ou infinito graus.


Eles poderiam estar na mesma balada que você ou seus filhos vão. Ouvindo a mesma música, bebendo o mesmo energético.


Eles poderiam nadar na mesma piscina, frequentar as mesmas quadras, passear nos mesmos parques.


Eles poderiam ter amigos, namoradas, namorados, cônjuges e, por que não, até amantes.


Eles poderiam estar entre pessoas brancas, negras, amarelas. Gordas, magras, altas, baixas. Loiras, morenas, ruivas, de cabelo liso ou muito encaracolado.


Eles poderiam tudo que todos podem.


Mas ainda não podem...


Pois alguns muitos se beneficiam deles estarem confinados em gaiolas reais ou virtuais.


Pois não poucos acreditam que eles só podem fingir de viver entre iguais, não estudar entre iguais, não trabalhar entre iguais.


Pois tantos crêem que a superproteção é uma forma de amor, quando não passa de uma forma de destruir vidas.


E vão continuar engaiolados enquanto os donos das gaiolas receberem dinheiro para mantê-los nelas.


Enquanto os especialistas sustentarem o mito da incompetência dos generalistas.


Enquanto os generalistas não acreditarem na sua capacidade de lidar com a diversidade.


Enquanto a população achar mais barato uma doação caridosa que uma aceitação incondicional.


Enquanto os pais acreditarem mais na mídia do que nos seus filhos.


"Mas o que eles não sabem


Não sabem ainda não


É que na minha terra

Um palmo acima do chão

Sopra uma brisa ligeira

Que vai virar viração

Ah mas eles não sabem

Que vai virar viração"*
*parte da letra de Viração de Kleiton e Kledir Ramil

Descrição da imagem: pássaro saindo de uma gaiola com a porta aberta

domingo, 15 de abril de 2012

A cor da alma


Meu café é preto, normalmente muito preto. O que lhe dá corpo é o pó. No meu caso, extra-forte.

Meu leite é branco, como deve ser todo leite. O que lhe dá corpo é a lactose.

Nem um, nem outro existiriam sem água que lhes dá fluidez e vida. Desidratados são apenas poeira inerte.

Mesmo o mulato pingado, mais ou menos escuro ao gosto de cada um, não seria nada se não fosse composto essencialmente de água.

E a água é transparente. Incolor dizem os químicos.

Eu sou branco, palidamente branco, quando muito avermelhado se exposto excessivamente ao sol.

Meu amigo Nivaldo é negro. Bastante negro, exposto ou não aos raios ultra-violeta.

Branca é só a minha casca, como é negra a casca do Nivaldo. Humanos, como somos, nossas almas, como a água, são transparentes.

Dão vida ao corpo, como a água dá vida ao café e ao leite. Alma não tem cor, sua qualidade não se define pela cor da pele, invólucro perecível da existência.

O que não significa que muitos brancos ainda insistam em atribuir almas brancas aos negros que eles consideram de melhor qualidade.

Como se a cor da pele e, nesse caso, da alma, definisse a qualidade ou a humanidade de um ser.

Pior ainda se considerarmos que são justamente as mesmas pessoas que se dizem igualitárias e sem preconceitos que falam essas bobagens.

E, ao falar tamanha asneira, acabam por condenar humanos de outras fisiologias e anatomias que não às suas, à exclusão da sociedade que dizem ser de todos.

Humanos somos. Uma só raça, uma só identidade, um único conjunto de deveres e direitos éticos.

Diversos na apresentação, nas necessidades, nas habilidades.

O que passar disso é discriminação.


Descrição da imagem: uma série de pequenas fotos de mãos negras e brancas realizando diferentes movimentos em conjunto.

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Amores perfeitos

Em 1958, aos 17 anos, Mildred Jeter, uma jovem negra, casou com Richard Loving, um operário da construção civil de 23 anos, numa época em que casamentos interraciais eram proibidos na Virginia, seu estado natal. Mildred e Richard foram então à capital, Washington, onde se casaram, para em seguida retornar à Virginia.

Pouco depois do casamento, foram acordados no meio da noite no seu quarto por xerifes e presos pelo 'crime' de terem se casado com o tipo errado de pessoa
.

Um juiz da Virginia ameaçou prender o casal caso eles não deixassem o Estado e ficassem fora pelos próximos 25 anos.


O casal Loving se mudou para a capital americana, e com a ajuda da União Americana de Liberdades Civis e da Associação Nacional pelo Avanço dos Negros defenderam seu direito de se casar perante a Suprema Corte dos Estados Unidos.


No histórico julgamento do caso "Loving versus Estado da Virginia", em 1967, a Suprema Corte americana decidiu que a proibição do casamento interracial era inconstitucional - decisão que afetou as leis na Virginia e em 16 outros estados americanos.

O estado do Alabama, no sul, foi o último a abolir as leis que proibiam o casamento inter-racial - o que só ocorreu no ano 2000.


Do outro lado do Atlântico, a África do Sul proibia, até 1985, qualquer tipo de relacionamento sexual entre pessoas de etnias diferentes. A lei tinha o nome de Lei da Imoralidade.


Qualquer semelhança com o preconceito existente a respeito das pessoas com deficência, não é mera coincidência, é mero preconceito mesmo.


Preconceito que não é exclusivo das pessoas sem deficiência, diga-se de passagem. A criação de um portal de namoro destinado aos "deficientes" é a prova de que as pessoas acreditam que esses não podem se misturar com aqueles.


Pode-se alegar que, pela exclusão social, as pessoas com deficiência tem poucas chances de conhecer outro tipo de gente, o que não justifica a criação de mais guetos segregados além dos já existentes.


Ainda mais quando o espaço reforça a idéia de que o relacionamente entre as pessoas vai ser, ele mesmo, deficiente.


Deficiente, segundo o Aurélio, é aquele em que há deficiência, carência, insuficiência. Falho, imperfeito.


Logo, um namoro deficiente é aquele que é falho, imperfeito. Talvez pela falta de amor de alguma das partes, ou pela imperfeição da paixão, tão necessária a um relacionamento amoroso.


Um namoro não é deficiente pelo fato de uma, ou ambas as pessoas, terem ou não deficiência.


Conheço pessoas com deficiência casadas com pessoas sem deficiência. Relacionamentos que, se não são perfeitos, são muito felizes.


Conheço relacionamentos que não são deficientes entre casais onde ambos tem alguma deficiência.


E conheço relacionamentos deficientes entre pessoas sem deficiência nenhuma.


E continuo torcendo para que o amor entre as pessoas não seja definido pela CID ou pela CIF
.

Descrição da imagem: fotografia do casal Mildred e Richard Loving

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Senzala 2.0

Se eu falasse para uma famíla negra que seus filhos deveriam ser encaminhados para escolas ou atividades sociais só com outras pessoas negras, eu seria imediatamente taxado de racista e, muito provavelmente processado por tamanha besteira.

Não seria diferente se disser para algum conhecido gay que ele deveria procurar a sua turma, mesmo sem lei anti-homofobia eu seria exacrado publicamente.

No entanto, pais, professores, amigos e inimigos das pessoas com deficiência sempre estão em busca de guetos exclusivos.

Bailes para pessoas com síndrome de Down, aulas de judô para cegos, escolas para autistas...e o pior é que a própria comunidade das pessoas com deficiência acha que isso é ser normal.

Além de serem pseudo-defensores da diversidade essas pessoas acabam reforçando as superestruturas discriminatórias dominantes.

Acham que estão conscientizando o mundo sobre os direitos de todos com manifestações públicas quando estão apenas ressaltando a percepção de que "esses estranhos" devem viver apenas entre eles mesmos.

Defendem a perenização da senzala, do gueto, do manicômio em moldes mais moderninhos (versão 2.0 ou será 4G?), travestidos de clubes, redes sociais e até sites de namoro para pessoas com deficiência.

A alegação conceitual é que pessoas com mesmas características biológicas podem construir sua identidade no contato com os seus iguais. Que identidade, cara pálida? (ou de qualquer outra coloração).

A minha identidade é a de ser humano e é no contato com outros seres humanos que ela vai se construir. Minha humanidade não se define pela cor da minha pele, pelo número de cromossomos ou pela minha capacidade de ver ou ouvir.

Homem, ser social, realiza o desenvolvimento da sua identidade através da interação que mantém com o meio em que vive. A cada experiência vivida, a cada problema enfrentado, se está alimentando o processo de construção da identidade.

Se o meio for segregado é esse tipo de identidade que um indivíduo terá. Uma identidade pobre e limitada.

Certa estava a Cláudia Werneck quando lançou em 1992 o livro "Quem cabe no seu todos?" mostrando que preconceito e discriminação só mudavam de nome e endereço, mas estavam em todas as mentes e corações (inclusive daqueles que são excluídos)

Se, ao invés de defendermos a inclusão de todos, defendermos a inclusão ou os direitos de pessoas do tipo X, Y ou Z, deixamos de lutar contra a discriminação. Viramos parceiros dela.

Descrição da imagem : propaganda de uma empresa italiana de roupas dividida em 3 quadros: um só com mulheres loiras, outro só com morenas e o outro só com mulheres negras.

sábado, 16 de abril de 2011

Pimenta no umbigo

Nada mais natural aos seres humanos que passar a vida admirando os seus umbigos. Seja o que lhe foi dado por natureza, sejam aqueles metafóricos.

Enquanto os umbigos naturais não costumam ter mais que um centímetro de diâmetro, os metafóricos variam muito de tamanho. Para alguns se limita a visão de si mesmos, alguns estendem o raio metafórico umbilical ao seu núcleo familiar, outros a uma amplitude maior de parentes e amigos.

Não importa o tamanho, todos nós temos um raio definido de proteção umbilical. A Cláudia Werneck já tinha mapeado bem essa questão no seu excelente "Quem cabe no seu todos?"

Se você acha que sua cabeça não funciona assim, você só está só se enganando a si próprio. É verdade que o processo de auto enganação também é típico dos terráqueos.

Não é diferente nas comunidades das pessoas com deficiência. Seja a atitude umbilicalista, seja o discurso me engana que eu gosto.

Todos se dizem inclusivos, todos querem uma sociedade equalitária e justa. Todos são defensores dos direitos coletivos.

Até a hora em que uma situação que parece ser inofensiva faz com que a pessoa mostre até onde vão os limites do seu umbigo.

Pode ser quando uma professora mencione as muitas exclusões de uma escola, e alguém imediatamente ressalte que o que se precisa resolver é a inclusão de pessoas com a mesma deficiência do seu filho (e os outros que se lixem...)
Ou quando uma mãe reclama que a classe do seu filho (com a deficiência X) está sendo prejudicada por uma criança com transtorno mental Y (sim, sim, eu já ouvi essa)

Quando o homossexual diz que o pior cego é aquele que não quer ver.

Quando o amputado diz que a coisa está preta.

Quando familiares de pessoas com deficiência distribuem piadas pela internet sobre a falta de um dos dedos do ex-presidente.

Eu mesmo já cometi minhas umbigadas. Na última, a Cláudia Grabois, educadamente me corrigiu sobre o uso do termo judiar... e eu aprendi.

O problema maior nem é darmos essas mancadas. Duro é quando a pessoa tenta nos convencer de que ela está certa e nós estamos sendo radicais e mal humorados.

Aí a defesa do umbigo se torna uma questão de honra.Quando não de briga

Afinal de contas, já dizia o ditado que, pimenta nos olhos dos outros é refresco.

Ou será que deveria ser pimenta no umbigo dos outros?

Descrição da imagem
: close de um umbigo com grãos de areia em volta do mesmo

segunda-feira, 7 de março de 2011

Os ETs contra atacam

Blá blá blá blá....e começa de novo a discussão, por que querem fechar a minha escola especial que cuida com tanto carinho daqueles "coitadinhos" que sofrem na escola comum, por que estão tirando dos pais o direito de escolher que tipo de escola colocar os filhos...

Não duvido que realmente cuidem com carinho (apesar de conhecer inúmeros casos escabrosos de carinho pelas verbas públicas e nenhum pelas pessoas depositadas lá dentro), mas também não educam de fato.

Não custa nada lembrar algumas questões nada desprezíveis.

A primeira e mais importante é que a educação formal (regular, comum...ou o nome que se queira dar à educação que TODOS recebem) é um direito inalienável da criança e não dos pais. Não é uma opção dos pais dar ou não dar essa educação aos filhos. Seria a mesma coisa que dizer que os pais tem a opção de manter vivos ou não seus filhos (a vida é outro direito inalienável da pessoa e não dos seus responsáveis).

Segundo, é dever do estado seja como fornecedor de serviços educacionais, seja como fiscalizador dos serviços de educação privados, garantir que todos tenham esse direito com qualidade. Se os professores ou escolas se dizem não preparados cabe a nós cobrar que o sejam (se bem que, na maioria das vezes isso é só uma desculpa para rejeitar alunos, professor que não está preparado para educar qualquer criança não serve nem para educar a minha filha que não tem deficiência).

A educação especial não pode ser confundida com escola especial. Escola especial é sinônimo de segregação, a começar do fato que a maioria se classifica por algum tipo de deficiência.

Considerando que a escola especial está prevista na lei, a mesma lei diz que a educação especial é COMPLEMENTAR e não substitutiva. Escola especial que pretenda substituir a escola comum deve ser fechada sim, não é essa a sua função. Não é essa sua competência legal.

O fato da educação (como um todo) ser de baixa qualidade não desqualifica a inclusão, desqualifica a educação. O que não significa que vamos tirar nossos outros filhos da escola, não é mesmo? A escola, da forma que está não trabalha a potencialidade de ninguém, só se preocupa em treinar copistas para o vestibular.

Não conheço todas as escolas especiais do país mas conheço uma quantidade imensa delas, boas e ruins. Curiosamente, só as melhores é que se preparam para ter funções complementares, as piores continuam querendo segurar seu mercado a qualquer custo.

Se as escolas especiais querem ter uma função educacional importante essa será de dar Atendimento Educacional Especializado e de dar apoio às escolas comuns.

Qualquer outra coisa será apenas perpetuar a segregação.

Descrição da imagem: cartaz numa estação de trem onde se vê a figura de um ser inexistente cortado por uma faixa vermelha e se lê: "Área restrita somente para humanos. Todos os não-humanos estão banidos desta estação".

quinta-feira, 4 de março de 2010

Laranja estranha

Mariana era louca por laranjas. Não qualquer laranja, era louca por laranja pera.

Era tão fanática que costumava comprar no atacado. Toda semana ía ao Ceasa e comprava um saco de laranja pera.

Delas fazia suco, saladas de frutas de uma fruta só, as chupava puras. Fazia doces, bolos e tortas.

Nem sempre todas as laranjas vinham perfeitas, algumas chegavam mais secas, outras um pouco amassadas. Mesmo assim Mariana aproveitava todas, de uma forma ou de outra.

Até o dia em que, no meio do seu saco de laranjas pera veio um exemplar de laranja bahia. Para muitos seria apenas mais uma laranja, não para Mariana que ficou perplexa e confusa com um tipo de laranja diferente.

A casca era mais fina, o tamanho maior, o suco com teores diferentes de açúcar e de ácido cítrico.Ela não estava preparada para isso. Não sabia nem por onde começar. Fez uma busca na Internet sobre a tal da laranja estranha. Só encontrou informações sobre os aspectos fenotípicos do citro. Isso não ajudava.

Começou a ligar para amigas. O máximo que descobriu foi que essas laranjas não tinham sementes. Pior foi ter de ouvir da melhor amiga que era uma laranja, e laranjas são laranjas. Que diferença isso ia fazer?

Concluiu que não teria outra alternativa a não ser partir em busca de especialistas. Como iria descascar aquela pele mais fina? Se eram mais doces, como procederia no açúcar da sua famosa compota de laranja? Os gomos maiores não enroscariam no seu processador?

Descobriu várias pessoas que se dedicavam ao estudo e manuseio de laranjas bahia. Uma mulher que era descascologista, com doutorado em bahias. Um agrônomo que tratava de distúrbios de desenvolvimento de citros e até um chef compoteiro que tinha uma instituição dedicada ao desenvolvimento da tal laranja.

Pensou em mandar seu exemplar de laranja bahia para um desses especialistas. Mariana, no entanto, era uma mulher persistente, não poderia admitir que tinha sido derrubada por uma laranja.

Matriculou-se num curso à distância, de capacitação em laranjas. Na primeira aula descobriu que a bahia era só uma das dezenas de espécies de citrus sinensis: Lima, Westin , Rubi, Valencia, Hamlim e Kinkan. O curso não lhe ensinou o que fazer com as diferentes laranjas, mas abriu seus olhos para todo um mundo diverso do que ela conhecia. Também constatou que só com prática de uso de tanta variedade é que ela descobriria como tirar o melhor de cada um dos tipos.

Não perdeu seu amor antigo pela laranja pera, mas descobriu que a vida era muito mais interessante quando as laranjas se misturavam. Era possível fazer sucos usando combinações de frutos mais ácidos com outros mais doces e, até mesmo enriquecer seu bolo de laranja com calda de uma laranja diferente.

Empolgadas partiu para o estudo de tangerinas, depois limões e até mesmo grapefruit.

E, assim como fazia com a laranja pera, Mariana nunca desperdiçou nenhum dos seus cítricos.

Uma verdadeira mestra.

Descrição da imagem: uma laranja bahia ainda presa no galho da laranjeira.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Filhos imperfeitos

Conta uma velha história que uma mulher todos os domingos ia a uma igreja diferente para ver como era. Seu objetivo era o de encontrar uma que ela julgasse perfeita. Conheceu centenas de igrejas de diferentes crenças e denominações e sempre achava algum defeito em cada uma delas.

Um dia ela visitou uma igreja com a qual ficou encantada. Na saída da cerimônia religiosa foi conversar com o ministro para dizer que, finalmente, ela encontrara a igreja perfeita e, por isso, gostaria de ser tornar membro da mesma. O ministro olhou para a mulher e respondeu que ela não poderia ser membro de uma igreja perfeita, porque ela não era perfeita.

Essa semana, durante uma reunião de pais na escola dos meus filhos, após algumas discussões sobre o comportamento de algumas crianças, uma mãe pediu a palavra e disse que as crianças deveriam se afastar dos colegas inconvenientes e só andar com aqueles que fossem perfeitos.

Para meu azar, ou sorte dessa mãe, não era eu que estava na reunião e sim minha esposa, que é uma pessoa educada e não costuma pular na jugular como eu faço. Eu poderia até não me sentir ofendido, uma vez que meus filhos não estão enquadrados entre aqueles que têm problemas de comportamento, mas que diabos essa mulher quer dizer com "perfeitos"?

Perfeição (do latim perfectione) caracteriza um ser ideal que reúne todas as qualidades e não tem nenhum defeito. Designa uma circunstância que não possa ser melhorada ainda mais e mais.
Será que alguma criança daquela escola consegue representar essa definição? Será que a filha daquela mulher só reúne qualidades? Será que ela mesma é uma pessoa que não tenha nada para ser melhorado?

O que seria uma criança de comportamento perfeito? (ou um ser humano de comportamento perfeito?). Eu me julgo um sujeito bastante razoável, mas sei que tenho uma coleção de defeitos, inclusive de comportamento, vou prestar bem atenção para ver quem é a menina e ficar o mais distante possível dela, antes que a mãe mande seus acólitos me escorraçar da sua presença.

Na verdade, eu lamento muito pela menina que vai crescer numa família que acredita que existam seres humanos de categorias diferentes, de valor diferente. Provavelmente vai acabar sendo tão arrogante e indelicada quanto a mãe.

A meus filhos recomendo que sempre andem juntos com outras crianças que também sejam imperfeitas, assim aprenderão a se virar no mundo real e, ao mesmo tempo, desenvolver a humildade de saberem que eles mesmos não são perfeitos.

Espero não perder a próxima reunião de pais. Vou sugerir que essa mãe parta em busca da escola perfeita. Só para ter o prazer de saber que, quando encontrar, sua filha será recusada.

Descrição da imagem: gravura Homem de Vitrúvio de Leonardo Da Vinci, que pretende retratar o corpo do homem perfeito

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Um mundo de Geisys

Muito se falou (e ainda se falará), sobre o caso da moça que foi expulsa da universidade (cujo nome não merece menção) depois de ser vítima de assédio moral e, não fosse a intervenção da polícia teria sido vítima de agressão ou, até mesmo, de abuso sexual.

O assunto já foi muito analisado e discutido em diversos fóruns, não vou entrar nesse debate.

O ponto ao qual quero me ater é o seguinte: a moça foi condenada por ser vítima, ou seja, duplamente agredida, num primeiro momento pelos colegas, no segundo por uma instituição que preferiu se livrar de um problema a resolvê-lo. Pior, alegou questões de valores e de ética para detonar com qualquer hipótese de respeito ao direitos humanos.

O que aconteceu com a Geisy chamou a atenção pela cobertura dada pela mídia ao caso. Mas não é nenhuma novidade. Acontece todos os dias com as pessoas com deficiência que são condenadas por terem características que incomodam os demais.

Todos os dias, crianças com deficiência são recusadas ou convidadas a se retirar de escolas, porque não são compatíveis com os valores que essas mesmas escolas dizem ter. Escolas que preferem culpá-las por suas deficiências do que tentar entender a atender a diversidade.

Todos os dias, colegas e pais de colegas preconceituosos assediam as escolas (especialmente as particulares) reclamando da presença de pessoas com deficiência nas suas salas. Todos os dias, escolas aceitam a pressão desses mesmos colegas e pais (em nome do dinheiro que eles pagam, é claro, assim como foi o caso da menina da universidade).

Todos os dias pessoas com deficiência são expulsas (ou recusadas) de ônibus cujos motoristas não querem perder tempo abaixando e levantando plataformas. Todos os dias passageiros sem deficiência comemoram o tempo que não perderam para as pessoas com deficiência embarcarem.

Todos os dias pessoas com deficiência são eliminadas de processos de recrutamento e seleção porque são culpadas das empresas não terem acessibilidade física, de comunicação ou, pelo simples fato de que os possíveis colegas de trabalho não vão se adaptar à presença delas no ambiente de trabalho (lugares onde vemos muito valores como solidariedade, colaboração, respeito, não é mesmo?).

Todos os dias pessoas são expulsas do acesso à cultura, à comunicação, ao lazer. São culpadas por não enxergar, ouvir ou compreender os valores distribuídos nesses canais.

A mídia, os blogs, os políticos, os poderes públicos estão se mobilizando pela Geisy e contra o que significou a atitude da escola.

Será que alguma hora vão se lembrar das demais 24,5 milhões de Geisys que temos espalhadas pelo país?

Descrição da imagem: gravura de uma multidão promovendo o linchamento e enforcamento de um homem negro.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Bandidos em fuga

"...educação especial é um serviço, não um lugar."


Muito tem se discutido os documentos que o MEC e o Conselho Nacional de Educação tem publicado na tentativa de implantar uma educação que, de fato, seja para todos, sem segregação e exclusão.

Um dos mais importantes, publicado no ínicio de 2008, foi a "Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva", que direciona os serviços de educação especial para dentro das escolas comuns, de forma que as pessoas que necessitem desses serviços o tenham sem serem segregadas.

A geometria nos explica que perspectiva é a projeção em uma superfície bidimensional de um determinado fenômeno tridimensional. Para termos essa percepção tridimensional usamos o recurso dos pontos de fuga, que é o ponto (ou os pontos) de convergência das linhas que descrevam a profundidade dos objetos. É a direção para onde um objeto segue, se aprofunda.

No entanto, contrariando todos os princípios geométricos, o que muitas escolas tem feito é tentar achar pontos de fuga para escapar dessa perspectiva. Usam de argumentos que vão dos escancaradamente preconceituosos aos mais sorrateiramente disfarçados.

O problema é que, quando criamos um ponto de fuga, é justamente para lá que os nossos olhos vão (você pode não entender nada de desenho ou de pintura, mas quando olha para um, seus olhos são atraídos para esses pontos). Ponto de fuga é justamente onde tudo se centraliza.

Quando um ser preconceituoso como o presidente do sindicato das escolas particulares do Rio Grande do Sul afirma, contrariando a mais básicas noções de direitos humanos, que as suas escolas tem a prerrogativa de recusar alunos com deficiência, ele está tentando usar o ponto de fuga do desprezo pelo ser humano. Um ponto de fuga que já foi bastante utilizado por torturadores, assassinos, terroristas e fascistas de todas as espécies.

Um ponto de fuga que defende a superioridade alguns seres humanos em detrimento dos outros. Que acredita que o mundo é de quem tem e não de quem é.

Pior do que isso, apoiado pelo Ministério Público, que deveria, salvo eu esteja enganado, ser o defensor da ordem legal e não dos interesses econômicos das escolas particulares. Ministério Público que ignora a existência de uma Constituição Federal que, no seu arcabouço, passou a incluir a Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência.

Claro, alguns vão alegar que essas escolas não estão preparadas para receber crianças com deficiência. Não estão mesmo, e nunca estarão enquanto as crianças não estiverem no dia-a-dia da escola.

De novo é a geometria e a arte que nos explicam que, quando criamos um ponto de fuga, criamos um espaço vazio que precisa ser preenchido pelo artista, caso contrário a perspectiva será nenhuma.

Inclusão só existirá quando os artistas da pedagogia preencherem esses espaços.

Enquanto isso não acontece, precisamos ficar de olho nesses pontos e brigar para que o que deve ser uma bela perspectiva não se torne apenas um buraco por onde os bandidos escapem.

Descrição da imagem : Quadro do pintor M.C.Escher, chamado "Relatividade", mostra pessoas subindo e descendo escadas que não convergem para os mesmos pontos de fuga, dando uma sensação de um espaço cuja lógica é totalmente subvertida.

sábado, 11 de julho de 2009

Xiita convidada - Preconceituosa, eu??

Patricia Almeida*

Pesquisa da Fipe sobre preconceito na escola estarrece mãe: “Eu sabia que o número era assustador, mas não estava preparada para a unanimidade”.

Quando minha filha, Amanda, nasceu, há quase cinco anos, eu vivi um dos melhores momentos da minha vida. Depois de duas gestações perdidas, a filhinha que tanto planejamos e esperamos se materializava ali – linda e fofa como imaginávamos.

O bebê rosado recebeu nota alta dos médicos - Apgar 9 e 10! – e foi direto para o quarto, sem precisar ficar na encubadeira. Instalada no bercinho ao lado da minha cama, não cansava de olhar para a minha bebê. Eu estava radiante! Aquela pequenina criança com que tanto sonhamos vinha completar nossa família. Não faltava mais nada para eu ser feliz!

Minha felicidade durou pouco. A pediatra de plantão entrou no quarto. Amanda dormia. Eu, ainda com o sorriso estampado no rosto, quis tirar uma dúvida boba sobre a aparência da minha filha.

– Doutora, esse olhinho dela não é meio Down, não?

Eu já sabia a resposta, claro que não poderia ser. Como na época eu tinha 39 anos e sabia que a probabilidade de ter um bebê com síndrome de Down era maior, fiz todos os exames, inclusive genéticos, que comprovaram sem sombra de dúvida que a filha que eu esperava não tinha síndrome de Down. Só que ninguém me contou que medicina não é matemática e que erros médicos acontecem (aos montes, no caso do laboratório responsável por meu exame). Por tudo isso, eu não estava preparada para a resposta da médica:

- É sim, inclusive ela tem vários outros sinais...

- Como é que é?????????

E foi aí que o meu estado de graça se transformou em desgraça.

A pergunta que me intriga é: Aonde será que foi parar aquela filha idealizada, fofinha e saudável, que se tornou realidade por algumas poucas horas e acabou se transformando no pior dos pesadelos?

Ela continuava ali, quietinha, dormindo diante de mim, mas, cega pelas lágrimas do meu próprio preconceito, eu não conseguia mais vê-la.

Infelizmente, naquele momento não entendia como eu, comunicóloga da PUC, uma pessoa lida, informada, viajada, que falava línguas, que se gabava de ter amigos negros, judeus, homossexuais, eu que achava que não discriminava ninguém, achei que a minha felicidade e a da minha família iria acabar com a entrada de uma criança com deficiência intelectual na família.

Depois de levar cerca de 2 anos desconstruindo o meu próprio preconceito e por fim conseguir enxergar minha filha como uma menina como outra qualquer, ao ler a pesquisa da FIPE sobre preconceito escolar entendo melhor de onde veio todo aquele mal-estar. Eu era uma das 99 pessoas em 100 que têm preconceito com relação à deficiência intelectual.

Os perturbadores números da pesquisa encomendada pelo MEC explicam porque até o Presidente Obama deixou passar uma piadinha preconceituosa com relação aos atletas das Olimpíadas Especiais. Pelo menos ele foi rápido em voltar atrás e pedir desculpas, reconhecendo o erro e condenando sua própria atitude.

Ainda perturbada pela contundência dos números da FIPE, que creio que são únicos não apenas no Brasil como no mundo, já que a exclusão das pessoas com deficiência começa pelas estatísticas, reflito sobre a nossa educação, nossa televisão, nossa cultura, nossa gente...

Aquele que eu achava, ingenuamente, que era um povo aberto às diferenças, que recebia bem os turistas porque era formado por várias etnias, inter-relacionando-se e misturando-se com uma desenvoltura pouco vista em outros países, aquele brasileiro “tão bonzinho”, no fundo destila um preconceito generalizado, que leva ao desrespeito, ao abuso, ao bullying e impede que os grupos discriminados progridam na escola e na vida.

É essa a educação que recebemos e que estamos perpetuando.

Nós não nascemos com preconceito. Ele é um valor adquirido socialmente.

É mais do que hora de encararmos esta dura realidade, assumirmos nossos próprios preconceitos e nos livrarmos o mais rápido possível deles.

A inclusão não é mais apenas um direito. Nem só uma questão de bom senso. É nossa única saída.

*Patricia Almeida
Criadora e Coordenadora da Inclusive – Agência para Promoção da Inclusão


Coordenadora Estratégica do Instituto MetaSocial, do Manifesto Ser Diferente é Normal

Descrição da imagem: uma lousa onde está escrito à mão : Eu discrimino, Tu discriminas, Ele discrimina.