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quinta-feira, 18 de agosto de 2022

Tempos doentios


Vivemos em tempos em que tudo virou doença ou, para usar um termo menos agressivo, tudo virou patologia. 

Seja uma apatia do tornozelo ou uma dor no lóbulo esquerdo, para qualquer coisa existe uma pílula, um comprimido, uma formula manipulável (ou será manipuladora? não sei)

O ditado que diz que o que não tem remédio, remediado está, perdeu completamente o seu sentido em um mundo em que sentimentos, comportamentos e o pensamento heterodoxo podem ser medicalizados.

Eu prefiro o termo medicalizado a medicado, que o corretor ortográfico aqui diz que não existe, mas que é definido como sendo o processo que transforma, artificialmente, questões não médicas em problemas médicos.

Problemas de diferentes ordens são apresentados como “doenças”, “transtornos”, “distúrbios” que escamoteiam as grandes questões políticas, sociais, culturais, afetivas que afligem a vida das pessoas.

Para cada um deles existe uma solução imediatista (um dos sintomas da doença como pensamento como bem define o físico David Böhm) ou uma solução mágica. Cá entre nós, se mágica resolve, eu prefiro os truques do Marcos Mandrake que, pelo menos, são bem humorados.

Na sociedade da busca do conforto a qualquer custo, as pessoas, cada vez menos, são capazes de lidar com o fato de que a vida também tem seus aspectos negativos.

O que muitos chamam de sociedade tóxica está, na verdade, transformando-se me sociedade intoxicada. Uma epidemia nada silenciosa que se alastra, sem nenhuma vacina que possa contê-la.

Em 1978, isso já me espantava, e compus um poemeto chamado Farmacopeia amorosa.

Calmantes
Revigorantes
Vitaminas
Tiaminas.
Bulas , engulas.

Para o tédio
Há remédio
No coração
Uma injeção
Se tens pena
Cibalena.

Se me rogas
Tome drogas
Se és altivo
Um curativo
Na paixão
Põe-se algodão.

Vives mal?
Um melhoral
Antipatia
Homeopatia
Mal afamado
Agora é tarjado.

Depois de tantos anos, a situação só se agravou mas, em breve, a pílula azul estará disponível para todos.

 *Disclaimer: autor desse texto reconhece que o avanço da medicina e da farmacologia já poupou várias vidas, mas entende que esse recurso deveria ser exclusivo para as doenças de fato.

Descrição da imagem: uma mão estendida oferecendo uma pílula azul

quarta-feira, 1 de dezembro de 2021

Por um mundo menos humano



Algumas manchetes dessa semana, extraídas de jornais tradicionais (e não de tabloides sensacionalistas):

 Ambientalistas denunciam recompensa a quem matar tubarões em Ubatuba

Jovem denuncia estupro dentro de camarote de rodeio em SP

Mulher descongela geladeira e encontra corpo de bebê escondido

 Explosão em Munique deixa feridos

 Atentado em escola de 2º grau em Michigan deixa 4 mortos e 8 feridos

Não sei exatamente em que universo você vive, nem qual é a sua relação com a realidade, mas eu vivo em um universo e em uma realidade em que as pessoas vivem pedindo atitudes mais humanas.

Querem relacionamentos mais humanos, gestões humanizadas, atendimento humano e, pasmem, alguns até esperam que os robôs possam ser mais humanos.

Como se o ser humano fosse um ideal de perfeição ou humanizar algo fosse o nirvana a ser alcançado por uma espécie que nesses últimos 10 mil anos demonstrou ser um retumbante desastre (ainda que, como diz o mestre Mariotti, possa ter tido surtos intermitentes de lucidez).

Humanidade que, desde as suas origens mitológicas, teológicas ou históricas se pautou pela violência, pelo homicídio, pelas guerras, pela destruição do seu entorno.

Animais que evoluíram, dizem alguns. Se isso é evolução, teria sido melhor se não tivéssemos ultrapassado a fase dos aminoácidos (tudo bem, eu concordo, vários outros seres vivos ultrapassaram essa fase sem terem se tornado o que somos, alguns são até bichos bem simpáticos).

Humanos que somos arrogantes, vaidosos, egoístas, manipuladores, agressivos, interesseiros...e o restante da lista eu deixo por conta da sua imaginação.

As chamadas virtudes morais, éticas, teologais ou filosóficas não passam daquilo que os falantes da língua inglesa chamam de wishful thinking, um pensamento desejável, mas ilusório, como se a humanidade fosse uma legião de anjinhos carinhosos.

Não conheço outros seres vivos que agridam ou matem seus semelhantes por prazer. Nem que destruam seu habitat.

Portanto, na próxima vez que for defender mudanças, refira-se a elas como um mundo menos desigual, uma liderança mais respeitosa, uma gestão menos exploradora. Mas não como algo mais “humano”.

De humanista já basta a estupidez.


Descrição de imagem: crianças fugindo da guerra em uma paisagem de seca

quarta-feira, 17 de junho de 2020

Tráfico de ilusões




We are the hollow men 
We are the stuffed men 
(T.S. Eliot) 



Todo mundo quer ser diferente ou, pelo menos, todo mundo que parecer diferente do resto do mundo.

Não somente se diferenciar, mas conseguir colocar-se como alguém de destaque no seu contexto social em função dessa diferenciação.

Essa é uma questão que faz parte da essência e da natureza humana e não é nenhum pecado mortal pensar assim. Somos parte de um todo enquanto sociedade e, ao mesmo tempo, cada um de nós é um indivíduo peculiar.

Segundo Norbert Elias “esse ideal faz parte de uma estrutura de personalidade...e essa forma de ideal de ego e alto grau de individualização são partes integrantes do seu ser, uma parte de que não podem livrar-se, quer aprovem ou não.”[1]

Traços de personalidade podem trazer egos de diversas potencias e graus de individualização também, mas os dois traços são controláveis e educáveis de forma crescente a depender do nível de consciência e de práticas específicas de longo prazo. Por isso nas educações familiares podemos ter pessoas mais ou menos competitivas a depender do tipo de educação que tiveram em casa.[2]

O que não significa que todos vão conseguir se destacar por algum desses diferenciais. Contexto, formação e oportunidades para tanto não estão disponíveis para os 8 bilhões de habitantes do planeta.

Diferentemente das expectativas individuais, só uma pequena minoria vai conseguir atingir uma posição de destaque, seja ele intelectual, econômico-financeiro ou profissional.

Vários estudos convergem para uma distribuição de população mundial onde somente até 5 % são pessoas com perfil para provocar mudanças e liderar mudanças. Outros 20 + % estão prontos para seguir as mudanças, na outra ponta somente 5% são pessoas não afeitas a mudanças e não mudam mesmo com estímulos e outros 5% são contra , tipo pau na roda , e a diferença muda com a tempo pela influência dos 25 + primeiros , os puxadores e seguidores.[3]

A questão gira em torno de ter a chance de atingir tal posição. Não se trata apenas de querer, nem poder, mas de atrapalhar alguns a chegarem lá. Não dá para negar que uma grande parte da população tem tudo contra ela. Partem do -10, enquanto outros partem do zero.[4]

Esse é um conflito real existente em toda e qualquer sociedade. O desejo de ser em disputa com a impossibilidade de ser. É um dos trágicos elementos fundamentais da vida com os quais o ser humano precisa aprender a lidar: perda, tristeza, dor, já explicava Freud.

Quanto mais rica uma sociedade, mais presente é essa busca competitiva por uma posição de destaque, e mais feroz a competição para alcançá-la.

De qualquer forma, desenvolvimento é diferente de crescimento econômico. Nas nações mais desenvolvidas, o apetite existe, mas é menos exacerbado, justamente pelo fato dos cidadãos terem um bom colchão social, justiça, bons serviços públicos e pouca disparidade salarial. É justamente nos menos desenvolvidos (sejam economias grandes ou não), isso é muito mais feroz pois, mais que status, esse destaque é necessário para não sofrer com as agruras dos "normais”.[5]

Nesse percurso pululam as histórias de sucesso de todos os tipos, como se os exemplos dos bem sucedidos servissem como a poção mágica de Panoramix[6] dando poder e força a todos que a bebessem.

A falsa ilusão de que todos podem tudo. A deslavada mentira que apregoa que os que não alcançaram o Olimpo do sucesso, são derrotados por falta de vontade ou de positividade.

Aqui começa a epidemia de frustrações que abrange pelo menos 50% da população das pessoas que trabalham. Frustração gera o estresse e esse, se forte e durável, só joga contra quem já não chegou onde queria chegar.[7]

Como vimos acima, a vontade é inerente a todos, então o problema do insucesso passa a ser essa visão cética, pessimista, derrotista que permeia os que não atingiram suas metas.

A força que leva ao vício

Eu tenho a força, bradaria o He-Man[8]. A força esteja com você, desejavam os personagens de Star Wars[9].

Desde que Norman Vincent Peale lançou o seu “Poder do pensamento positivo” na década de 1950, esse tem sido o mantra de muitos motivadores de pessoas. Querer é poder, basta ter uma atitude positiva em relação a seus desafios.

Os pseudo humanistas da auto ajuda (não confundir com os humanistas do Renascimento), que defendem a ideia de que o ser humano é o seu próprio deus, prometem poderes ilimitados a quem seguir suas recomendações.

Os humanos que não encontram nenhum outro caminho para atingir seu sonho de destaque diferenciado o que, como vimos, não são poucos, acabam enredados nessa trama.

Experimentam um, não funciona. Tentam outro mais potente, não funciona. A cada dia buscam uma vertente mais forte, até estarem irremediavelmente dependentes desse tipo de doping.

A positividade tóxica

Em “A sociedade do cansaço”, o filósofo Byng-Chul Han descreve uma sociedade que está sendo intoxicada pelo excesso de positividade.[10]

É um livro curto, denso, cruel e, em não poucos momentos, chocante.

Muito chocante, eu diria, não pela linguagem ou pelas imagens que evoca, mas pelo fato de que, à medida que o lemos, vamos associando sua descrição com a realidade cotidiana que vemos, especialmente, mas não somente, na redes sociais.

Todo o enredo aplicado em meritocracias mal formuladas, o modelo de gestão de pessoas nas empresas e tudo o mais veio antes das redes . Mas estas sem dúvida alavancam frustrações adicionais e aceleram os efeitos perversos das narrativas alucinantes e ilusórias.[11]

Humanos que perdem todas as suas defesas imunológicas em relação ao negativo e, assim como vírus e bactérias, coisas negativas estão à nossa volta o tempo todo, prontas para atacar os mais vulneráveis.

Pessoas que insistem em mostrar o tempo todo que tudo está bem. Criação contínua de personas[12] que necessitam desesperadamente fingir que, como são positivas, nunca sofrem derrotas.

Sem anticorpos para o negativo isso acaba afetando a saúde mental dessas pessoas. Até porque, saúde mental não é viver em um estado positivo permanente, mas saber lidar com o outro lado da força.

A metáfora é ingênua e simplista, no entanto, é válida. Uma pilha comum não vai transmitir energia se não estiver conectada, simultaneamente, nos seus polos positivo e negativo.

É uma questão dialética, assim como o conflito entre a vontade de individualização e suas forças contrárias, o que constrói o sistema de defesa da saúde mental é o conflito positivo-negativo. Sem esse sistema, não existem barreiras de proteção.

A positividade excessiva é tóxica pois destrói (ou deixa de construir) esse sistema de defesa, abrindo as portas para todo tipo enfermidades mentais e emocionais: depressão, déficit de atenção, Burnout, pânico.

Han mostra como o excesso de desempenho, para sustentar a persona é intoxicado pelo excesso de positividade, conduzindo para um infarto da alma, “a perda da energia essencial que permeia corpo, mente e espírito de tal forma que é condição de uma morte do ser humano essencial por falta de irrigação de energia.”[13]

Positivo com positivo só dá positivo na matemática. Na vida real “quem vive do igual, também perece pelo igual”.[14]

Estamos construindo, seguindo esse percurso, a tal da sociedade do cansaço que vai acabar desaguando na sociedade do esgotamento completo.

Existe cura?

“...o que nos humaniza é o fracasso, homens e mulheres muito felizes não são homens e mulheres.”[15]


Já nos primeiros textos existencialistas, constatamos que somos seres em um mundo cheio de possibilidades, sem que algo anterior (uma essência) nos defina e, uma vez que a nossa vinda à existência acontece antes de construirmos a nossa essência, caímos num vácuo de significado.

Nós somos jogados em um mundo inundado de escolhas para sermos o que quisermos, mas em meio a essa infinidade de caminhos nos perdemos na angústia de não saber qual trilhar.[16]

O risco de tentar fugir dessa angústia através de mecanismos de escape – e, nesse aspecto, a positividade tóxica nada mais é que uma tentativa de fuga – não funciona.

Não funciona porque, inevitavelmente, a positividade tóxica (ou qualquer outro mecanismo de escape) vai fracassar e, ao voltarmos ao ponto de partida, a angústia se transforma em desespero, e conduz às doenças psicológicas mencionadas.

Não pretendo aqui defender as teorias conformistas que defendem a total falta de ação diante de um mundo hostil.

Entendo que o único caminho para a cura ou, pelo menos, a reconstrução de um sistema imunológico mental, é o desenvolvimento (ou recuperação) da capacidade de lidar com o lado negativo da vida e, no confronto dialético com o positivo, atingir um equilíbrio mentalmente saudável.

Recuperação sem ajuda é muito difícil. Estamos falando de um processo que pode e deve levar anos de esforço permanentes pois precisa de novos caminhos sinápticos, novos hábitos que transformem comportamentos e modelo mental de pensamento. Por isso o esforço solitário é quase um fracasso garantido , o sucesso será para minorias privilegiadas no cérebro que inclui a flexibilidade , adaptabilidade ,controle emocional ,empatia consigo mesmo, ou seja , muito auto conhecimentos e diversos cardápios recomendados para cada ponto a desenvolver , cardápio este baseado em ampla base de pesquisa no campo da psicologia, psiquiatria, pedagogia , antes mesmo de falar em receituário tópico para patologias instaladas, pois se este for o caso a farmacologia pode ser chamada também. [17]

Isso não se constrói com manuais de instrução e receitas de bolo. Não está no radar dos traficantes da ilusão da felicidade completa e permanente, até porque não gera a dependência que os enriquece.

É um exercício crítico individual. Cada pessoa deve procurar seus próprios caminhos para se equilibrar. Sejam eles solitários para os que assim o conseguem, seja com ajuda séria e, obrigatoriamente, do ramo. Ajuda dos vendedores de ilusão não é considerada séria.

Não é uma garantia de um mundo melhor, só a possibilidade de um mundo menos doente.


© Fábio Adiron 2020

Agradecimentos

Além das preciosas intervenções do Ricardo Costa e do Marcos da Cunha Ribeiro citadas durante o texto, gostaria de agradecer as não menos preciosas colaborações da Virginia Susana Fantoni, da Atena Nardy e do Volney Faustini e seus olhos de lince.

[1] ELIAS, Norbert. Problemas de autoconsciência in A sociedade dos indivíduos. Rio de Janeiro. Zahar. 1994
[2] Contribuição de Marcos da Cunha Ribeiro
[3] Contribuição de Marcos da Cunha Ribeiro
[4] Colaboração de Ricardo Costa MBA
[5] Colaboração de Ricardo Costa MBA
[6] Panoramix é um personagem das histórias de Asterix, o gaulês de Uderzo e Goscinny. Um druida que tem o segredo da poção mágica que torna todos os que a bebem, invencíveis. (NA)
[7] Contribuição de Marcos da Cunha Ribeiro
[8] Originalmente um brinquedo da Mattel, atingiu sua popularidade na série de desenhos animados na década de 1990
[9] Star Wars é uma série de filmes de George Lucas. O primeiro deles foi lançado em 1977 e se tornou uma das franquias cinematográficas mais bem sucedidas da história.
[10] HAN, Byung-Chul. A sociedade do cansaço. Petrópolis. Editora Vozes. 2017
[11] Contribuição de Marcos da Cunha Ribeiro
[12] Na teoria de C.G. Jung, personalidade que o indivíduo apresenta aos outros como real, mas que, na verdade, é uma variante às vezes muito diferente da verdadeira, deriva da etimologia grega do termo, persona=máscara. (NA)
[13] Adendo de Marcos da Cunha Ribeiro
[14] BAUDRILLARD, Jean. A transparência do mal. Campinas. Papirus. 2000
[15] PONDÉ, Luiz Felipe. Contra um mundo melhor. São Paulo. Contexto. 2018
[16] Minha leitura pessoal da teoria de Kierkegaard (NA)
[17] Contribuição de Marcos da Cunha Ribeiro

quinta-feira, 10 de março de 2016

Infinitas possibilidades perdidas


Faz parte da essência de um publicitário brincar com as palavras, imagens e sons. Ao redor deles é que esse profissional vai desenvolver a sua criatividade com o objetivo de vender um produto, serviço ou ideia.

Os melhores publicitários são aqueles que manipulam bem os seus recursos e, principalmente, como diria Ogilvy, aquele que atinge o objetivo de quem o contratou.[1]

O que não significa que todos trabalhem assim. Como em qualquer profissão existe gente com e sem competência. Um ex-chefe meu odiava o que ele chamava de síndrome de criatividade de alguns publicitários, para quem era mais importante a “sacada genial” (o genial fica por conta vaidade desses profissionais) do que aquilo que eles estavam anunciando.

A nova campanha do FIATToro me lembrou muito disso.

A sacada “genial” dos números que geram infinitas possibilidades sendo usada como metáfora de um carro que, segundo a propaganda, também seria detentor dessa infinitude, derrapou na lama de alguma das estradas de terra por onde ele passa no filme.

Sem perder tempo lembrando que um piano pode ter mais de 88 teclas (eles poderiam se ater ao dodecafonismo dos instrumentos temperados que teriam sido mais felizes), ou que muitos alfabetos superam[2] de longe o nosso limitado a 26 letras, o que me chamou a atenção foi excluir das possibilidades infinitas as pessoas que tem um número de cromossomos diferente de 46.

Pessoas com síndrome de Turner podem ter um cromossomo a menos. Pessoas com síndromes de Down, Patau, Warkany, triplo X e Klinefelter, tem um cromossomo a mais. Algumas síndromes raras podem provocar a ocorrência de tetra ou pentassomias e, nesses casos, serão pessoas com 48 ou 49 cromossomos.

E não são poucas, estamos falando de alguns milhões de pessoas ao redor do mundo, só no Brasil, onde a propaganda está sendo veiculada, a estimativa é de mais de meio milhão de pessoas (e suas famílias)

Pessoas que também possuem infinitas possibilidades de vida, de potencial e de sucesso. Se alguém quiser brincar de análise combinatória pode calcular que quem tem cromossomos a mais tem um número bem maior de possibilidades, diga-se de passagem.

Fiquemos apenas nas três possibilidades do que originou essa mancada (e sim, foi uma mancada, basta ler os comentários do vídeo no youtube para perceber que desagradou muita gente):

A primeira é a desinformação. Quem criou e quem aprovou a campanha (criação, planejamento, atendimento e o próprio cliente) não sabe nada a respeito das variações cromossômicas.

E se não sabem nada, antes de usar essa referência no texto, deveriam ter feito a lição de casa e estudado melhor o que estavam colocando no papel. Mas, e sempre há um mas, para que alguém que tem “sacadas geniais” precisa estudar algo? Gênios não precisam de pesquisa.

A segunda possibilidade é a do esquecimento. Alguém falou algo a respeito, mas como o redator ficou trabalhando durante toda a madrugada na campanha que o atendimento tinha de apresentar as 9 da manhã do dia seguinte para ser produzida no mesmo dia e veiculada na mesma noite, ninguém checou o material e esse “detalhe” passou em branco. As velhas e péssimas desculpas do meio.

A terceira possibilidade é mais assustadora, mas não pode ser descartada, ou seja, agência e cliente sabiam, lembraram, mas deliberadamente excluíram da mensagem. Afinal, a propaganda precisa passar uma imagem de gente feliz em situações perfeitas para tornar o produto um objeto de desejo. Associar o produto a essa gente esquisita que tem cromossomos a mais ou a menos não vai fazer bem para a marca.

Nesse caso, a situação seria de clara discriminação e preconceito e precisaria de um tratamento de choque. O único problema é que não seria possível provar isso somente pela veiculação do filme.

Por outro lado, a marca perdeu a grande possibilidade de associar seu nome a defesa da diversidade. Criou um público de inimigos e ainda vai gastar dinheiro vindo à mídia para se desculpar pela gafe.

Nesse momento, fica apenas o nosso repúdio.

Descrição de imagem: uma das salas da instalação "Além do infinito" de Serge Salat, montada sobre formas, cores e espelhos que dão a sensação de infinidade. No centro da instalação uma pessoa é reproduzida em infinitas imagens espelhadas.





[1] “Sua função é vender, não deixe que nada te distraia do único propósito da publicidade”. (David Ogilvy)
[2] O alfabeto russo tem 33 letras. Os dicionários chineses indicam a existência de 47 a 85 mil diferentes sinogramas, na escrita japonesa existem mais de 6 mil kanji

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Um pai ordinário*



Não foram poucas as vezes em que me chamaram de pai especial por ter um filho com Síndrome de Down. Em nenhuma delas eu deixei a pessoa sem resposta.

Se eu sou especial, não é por ter um filho com deficiência, até porque eu tenho outra filha que não tem deficiência e, nem por isso, sou para ela um pai ordinário (sim, o antônimo de especial é ordinário)

Meus filhos podem me achar especial, assim como eu os acho especiais, porque são meus filhos.

Toda essa linguagem caridosa e piegas a respeito de pessoas com deficiência só serve para fazer com que as pessoas os tratem como coitadinhos, que não são.

Pior, ao tratá-los com pena acabam por não reconhecer as suas capacidades, pois junto com a comiseração vem a falta de confiança de que as crianças com deficiência vão conseguir alcançar os mesmos objetivos que as demais crianças.
Eu preferi enfrentar essa questão andando pela contramão. Até hoje não fui multado nem levei pontos na minha habilitação de pai.

Ao invés de tentar "consertar" a deficiência do meu filho, resolvi trabalhar o que ele tinha de bom. Ao invés de rebaixar as minhas expectativas quanto ao que ele poderia alcançar, eu sempre as coloquei nas alturas.

Claro que ele não ultrapassou tudo que eu imaginava, mas nunca atribui os seus eventuais fracassos ao fato dele ter um cromossomo a mais.

O fato dele ser mais velho que a irmã serviu como um grande aprendizado. Ela é educada pela mesma lógica. A do enfoque potencial.

Nossa sociedade está acostumada a tratar todas as pessoas pelo enfoque deficitário, investimos em tentar resolver os pontos fracos dos nossos filhos.

Se a criança vai mal em matemática, logo procura-se uma aula de reforço. Se tem algum problema de comportamento, leva-se aos especialistas para ser medicado.

Apesar de todo o discurso das escolas que falam em investir em habilidades eu nunca conheci um pai que tenha sido chamado na escola porque o filho tirou nota 10 em alguma matéria. 

No fundo, no fundo, o que falta a nós pais e aos educadores é a confiança de que qualquer criança pode aprender, desde que lhe seja oferecida a oportunidade e as condições materiais e pedagógicas.

Essas condições não passam pelo conhecimento técnico da deficiência, pelo contrário, saber que uma criança com Síndrome de Down tem excesso de material genético não faz a menor diferença na tabuada.

Não existe Geografia da Síndrome de Down, nem Português da paralisia cerebral, ou Matemática da tetraplegia.
Assim como, na educação familiar, não existe uma disciplina ou um conjunto de valores diferentes de acordo com cor dos olhos de cada filho.

Enquanto ficarmos presos à "especialidade" dos nossos filhos vamos perder tempo precioso que poderia ser investido na formação deles.

E, sem formação, nenhum filho, com ou sem deficiência, conseguirá se tornar um adulto autônomo.

Descrição da imagem: foto minha ladeado pelos meus filhos.

*Publicado originalmente na revista Pais e Filhos


terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Não é notícia

Ninguém notou
Ninguém morou na dor que era o seu mal
A dor da gente não sai no jornal
(Chico Buarque – Notícia de jornal)

 

Todos os jornais de hoje se preocuparam em noticiar que a menina atleta, além de ter se tornado uma pessoa com deficiência também assumiu o fato de ser gay.

E eu fiquei me perguntando: e eu com isso? Afinal de contas é uma questão de foro íntimo da moça. Por que esse destaque todo?

Eu que sou um homem sem deficiência, branco, cristão, heterossexual e monogâmico não sou notícia.

Se me tornasse cego, negro, xintoísta, transgênero e poligâmico talvez merecesse uma nota nas colunas de pessoas exóticas dos jornais.

Ou melhor, já fui notícia porque tenho um filho com deficiência que, pasmem, estuda desde sempre numa escola comum.

E tem gente que acredita que o preconceito está diminuindo ou se diluindo. Pura ilusão de quem acredita nas histórias da carochinha.

A ênfase que as pessoas dão para esses estranhos que participam de um mundo diverso só reforça o fato de que o preconceito é que, de fato, é amplo, geral e irrestrito.

Se fossem considerados comuns ou (arghhh) normais, não seriam notícia. E nem seriam alvo dos comentários de grande parte da população.

“- Você viu? Fulano de tal saiu do armário...”

“- Quem diria, um negro foi o primeiro colocado no vestibular da universidade X....”

“- Aquela moça com síndrome de Down se superou e agora até canta no You Tube...”

No dia em que o comportamento e as conquistas corriqueiras das chamadas “minorias” deixarem de ser notícia poderemos, talvez, acreditar que alguma coisa mudou no mundo.

Mas não é o que parece que vai acontecer.


Descrição de imagem: um dos seres estranhos de Greg Petchkovsky, artista surrealista que cria ilustrações, esculturas e animações. O bizarro e grotesco estão presentes em suas obras. Nessa imagem o monstro são estranho está comendo sushi

sábado, 31 de março de 2012

Comemorar ou lamentar?

No próximo dia 21 de Março será comemorado mais um dia internacional da Síndrome de Down

O evento que começou há sete anos agora tem status oficial, reconhecido pela ONU (graças ao esforço da Patricia Almeida).

Teremos caminhadas, encontros, sessões solenes em casas legislativas e palestras, muitas palestras.

E são exatamente essas palestras que me provocam uma dúvida recorrente: estamos comemorando ou lamentando a síndrome de Down?

Os temas em debate apontam para uma permanente busca da cura da condição genética. Mas, se é uma condição genética (como a cor dos olhos ou a curvatura do nariz) por que lidamos com o assunto como se fosse uma doença?

Protocolos médicos, tratamentos, pesquisas genéticas são a tônica no Brasil e no mundo.

Se é uma doença precisamos de dias de luta, como existem os dias de luta contra o câncer ou contra a AIDS.

Se a SD faz parte da essência e da natureza das pessoas e, se dizemos que as consideramos como qualquer outro ser humano, porque essa necessidade de achar caminhos para combater os efeitos da trissomia?

Seria a mesma coisa que propor a cura da homossexualidade...ops, é verdade, tem bastante gente que ainda acha que é algo curável.

Seria a mesma coisa que buscar métodos de clareamento dos negros...ops, é verdade, ainda tem muita gente que quer lhes dar uma "alma branca".

Como é que podemos sair pelas ruas exaltando as diferenças que, no íntimo, queremos eliminar ou minimizar?

Se nós, pais e parentes de pessoas com síndrome de Down, continuamos a olhar para ela como uma dor de cabeça, como podemos esperar que o resto do mundo abandone seus preconceitos?

Como defender a capacidade de aprendizado dos nossos filhos se insistimos em lidar com isso de uma forma terapêutica?

Como preparar para autonomia pessoas que nós mesmos apresentamos para o mundo como incapazes?

Se o nosso objetivo é acabar com a síndrome de Down não faz o menor sentido comemorar sua existência ou, pelo menos, precisamos repensar criticamente os nossos objetivos a esse respeito.

Descrição da imagem: foto de Fábio junto com Samuel e Letícia

Texto publicado originalmente dia 21/03/2012 no blog da NEPPD UFAM

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Educação líquida, mas não certa

Esse texto é dedicado a Carlos Eduardo Fantoni Ribeiro, que me trouxe de volta as idéias de Bauman

Zygmunt Bauman é um sociólogo de mais de 80 anos e, apesar da idade avançada é chamado de o profeta da pós modernidade, um dos poucos dos nossos contemporâneos que ainda tem idéias inovadoras.

Uma das suas mais conhecidas idéias é a definição da sociedade atual como sendo a era da modernidade líquida. Segundo a interpretação de Bauman nada mais é permanente, pelo contrário, tudo é permanentemente desmontado e reconstruído e, mesmo a reconstrução já é feita com a perspectiva da transitoriedade.(Sem ter a menor idéia de quem era Bauman, escrevi em 1982 meu manifesto mutantista, texto que reproduzi no meu blog de assuntos aleatórios em agosto de 2007).

Bauman define as modernidades anteriores como sendo sólidas, ou seja, quando a sociedade passava por transições e grandes mudanças, a perspectiva da nova ordem era a de que essa se solidificasse como o novo status quo, que fosse o fim da busca pelas soluções para todos os males do mundo. As modernidades do passado desmontavam as realidades herdadas com a intenção de torná-las melhores.

A modernidade atual é incapaz de manter sua forma. Como todos os líquidos suas moléculas não tem coesão suficiente para se solidificar. As instituições, referências, estilos de vida, crenças e filosofias mudam antes mesmo de terem tempo de se plasmarem.

Tudo é volátil, flexível e, para muitos, o pior é que tudo é imprevisível. As pessoas são levadas a se movimentarem num espaço em que flutuam, onde o bem e o mal são relativos, onde não existem certo e errado, apenas formas diferentes de fazer as coisas. Não existem mais projetos de vida, como propunham os existencialistas, não existe mais uma identidade fixa, vive-se a cada momento sem que haja sentido numa perspectiva de longo prazo.

Isso implica num exercício de filosofia. Quem é o ser? Na modernidade sólida era um cara dividido entre o bem e o mal, na líquida passa a ser alguém que se movimenta entre os mais diversos polos possíveis A explicação mais direta talvez seja a diferença entre o comportamento da sociedade na guerra fria em contraposição ao de hoje nas redes sociais. A maneira de ver o mundo, de tomar posição (era muito mais dicotômica) é diferente de uma sociedade onde tudo é relativo no tempo e no espaço (inclusive a ética), a fluidez desse relativismo é que fez o Bauman falar em liquidez da modernidade

Quando olho para escolas e professores totalmente perdidos com a entrada de alunos com as quais eles não fazem a menor idéia de como lidar, gente que sempre esteve à margem da educação, que sempre foi excluída (e aqui não me refiro apenas às pessoas com deficiência, os excluídos são muitos mais do que imaginamos), eu percebo que, assim como outras modernidades, a escola não está sequer próxima das mudanças que acontecem na sociedade.

Howard Gardner - aquele que mesmo das inteligências múltiplas - costuma dizer que as nossas escolas (não só as brasileiras, mas do mundo todo) continuam a preparar as nossas crianças e jovens para viver no século XIX...

A escola se enraizou nas suas crenças e convicções e, tirando as inovações tecnológicas, nunca conseguiu acompanhar o desenvolvimento da sociedade. Escola que continua tentando impedir o desenvolvimento de novas idéias e soluções, até porque o seu objetivo é o enquadrar seus alunos no status quo. Por princípio, a escola é a principal inimiga de tudo que é moderno, criativo e inovador. (tem dúvidas a respeito? repare nos TCC´s de cursos de pedagogia cujo único objetivo é o de reproduzir o que já foi dito por alguém)

Quando confrontados com a realidade social a escola se confunde toda e adota a postura de rejeitar não só as idéias diferentes como os alunos que coloquem em xeque a solidez das suas apostilas e rigidez das suas avaliações.

Quando um novo professor sai da faculdade e se defronta com a vida real e o estado de liquidez da mesma, constata que não foi preparado para isso. E não foi mesmo. Seu erro é acreditar que a preparação vai se dar nas mesmas instituições que não o prepararam de forma adequada anteriormente.

Só no contato com a realidade líquida é que o professor vai aprender a navegar pelo espaço sem procurar o chão. E vai entender que seu espaço de trabalho não carece de bolas de ferro amarradas nos pés.

Descrição da imagem: foto de Zygmunt Bauman, um senhor idoso, calvo e com os cabelos das têmporas brancos, em posição de oração

quarta-feira, 24 de março de 2010

Xiita Convidada - O efeito não terapêutico de algumas terapias.

Carla Codeço*

Fico, a cada dia que passa, mais surpresa com os efeitos nada terapêuticos que algumas terapias provocam. Crianças sem espontaneidade, sem a alegria, o senso de humor e a peraltice próprios da infância.

São crianças ensinadas em cada atendimento a se encaixar, a exibir um comportamento normal. É como se nascessem com uma “dívida” em seu desenvolvimento, sendo obrigadas a recuperar esta defasagem evidenciada pela comparação a outros indivíduos de mesma idade. Ao invés de receberem as condições necessárias para aprender são condicionadas através das simulações da vida real dentro de consultórios. A estas crianças é mostrado, desde a mais tenra idade, como devem se comportar para se encaixarem ao padrão aceitável.

As crianças normalizadas podem ser reconhecidas a distância, acabam se parecendo com aqueles andróides dos filmes de ficção científica, que parecem humanos mas têm um que de robô.

Não quero com isso dizer que não devemos propiciar as terapias necessárias para que os potenciais de nossos filhos possam ser melhor desenvolvidos, mas devemos lembrar sempre que eles têm direito a infância, ao seu tempo de ócio. Devem vivenciar a conversa em família, ao invés de apenas terem acesso a conversa simulada na seção de terapia, devem aproveitar seu tempo de ócio em casa para recortar, rabiscar, pintar, livremente, não apenas no ambiente simulado do consultório da TO e assim por diante. Devemos ter cuidado ao estender o ambiente terapêutico para dentro de nossas casas, para que não nos tornemos também profissionais padronizadores dos nossos filhos.

Ao imputarmos aos nossos filhos a obrigação de passar no funil normalizador estamos retirando-lhes a alegria e a espontaneidade infantis. Ao invés de aceitarmos as limitações que a síndrome impõe, estaremos, nós mesmos, impondo várias outras limitações emocionais que a própria síndrome não acarreta. Falo da síndrome de Down.

A partir de um determinado momento, no acompanhamento das terapias do meu filho, percebi que os profissionais e métodos me ofertavam dois caminhos a seguir: ou nos esforçaríamos para passá-lo pela forma normalizadora ou daríamos a ele a liberdade de ser como ele é e, de mãos dadas, ajudaríamos no que fosse preciso para o seu crescimento global. Optei pela última e hoje vejo meu filho feliz, espontâneo, e levado, como toda criança de sua idade que tem o privilégio de viver uma infância saudável.

*Carla Codeço, moderadora dos grupos Sindrome de Down e RJDown e mãe do Rafael e da Joana.

Descrição da imagem : cena do filme Eu, robô onde aparece uma série de robôs humanóides numa linha de produção.

quinta-feira, 4 de março de 2010

Laranja estranha

Mariana era louca por laranjas. Não qualquer laranja, era louca por laranja pera.

Era tão fanática que costumava comprar no atacado. Toda semana ía ao Ceasa e comprava um saco de laranja pera.

Delas fazia suco, saladas de frutas de uma fruta só, as chupava puras. Fazia doces, bolos e tortas.

Nem sempre todas as laranjas vinham perfeitas, algumas chegavam mais secas, outras um pouco amassadas. Mesmo assim Mariana aproveitava todas, de uma forma ou de outra.

Até o dia em que, no meio do seu saco de laranjas pera veio um exemplar de laranja bahia. Para muitos seria apenas mais uma laranja, não para Mariana que ficou perplexa e confusa com um tipo de laranja diferente.

A casca era mais fina, o tamanho maior, o suco com teores diferentes de açúcar e de ácido cítrico.Ela não estava preparada para isso. Não sabia nem por onde começar. Fez uma busca na Internet sobre a tal da laranja estranha. Só encontrou informações sobre os aspectos fenotípicos do citro. Isso não ajudava.

Começou a ligar para amigas. O máximo que descobriu foi que essas laranjas não tinham sementes. Pior foi ter de ouvir da melhor amiga que era uma laranja, e laranjas são laranjas. Que diferença isso ia fazer?

Concluiu que não teria outra alternativa a não ser partir em busca de especialistas. Como iria descascar aquela pele mais fina? Se eram mais doces, como procederia no açúcar da sua famosa compota de laranja? Os gomos maiores não enroscariam no seu processador?

Descobriu várias pessoas que se dedicavam ao estudo e manuseio de laranjas bahia. Uma mulher que era descascologista, com doutorado em bahias. Um agrônomo que tratava de distúrbios de desenvolvimento de citros e até um chef compoteiro que tinha uma instituição dedicada ao desenvolvimento da tal laranja.

Pensou em mandar seu exemplar de laranja bahia para um desses especialistas. Mariana, no entanto, era uma mulher persistente, não poderia admitir que tinha sido derrubada por uma laranja.

Matriculou-se num curso à distância, de capacitação em laranjas. Na primeira aula descobriu que a bahia era só uma das dezenas de espécies de citrus sinensis: Lima, Westin , Rubi, Valencia, Hamlim e Kinkan. O curso não lhe ensinou o que fazer com as diferentes laranjas, mas abriu seus olhos para todo um mundo diverso do que ela conhecia. Também constatou que só com prática de uso de tanta variedade é que ela descobriria como tirar o melhor de cada um dos tipos.

Não perdeu seu amor antigo pela laranja pera, mas descobriu que a vida era muito mais interessante quando as laranjas se misturavam. Era possível fazer sucos usando combinações de frutos mais ácidos com outros mais doces e, até mesmo enriquecer seu bolo de laranja com calda de uma laranja diferente.

Empolgadas partiu para o estudo de tangerinas, depois limões e até mesmo grapefruit.

E, assim como fazia com a laranja pera, Mariana nunca desperdiçou nenhum dos seus cítricos.

Uma verdadeira mestra.

Descrição da imagem: uma laranja bahia ainda presa no galho da laranjeira.

segunda-feira, 1 de março de 2010

Xiita Convidado - Síndrome de Down não é doença?

José Moacir de Lacerda Jr*

Bem... essa é uma afirmação que, por mais que todos que trabalhamos com inclusão queiramos, não é consensual. Muitos médicos ainda consideram que a condição humana determinada pela Trissomia do cromossomo 21 constitui uma doença. Isso se dá, creio eu, principalmente por ela estar inserida no Código Internacional de Doenças (o famoso CID 10) como fazendo parte do grupo de doenças cromossômicas. Assim sendo, seja aqui no Brasil, nos Estados Unidos, Canadá ou Nova Zelândia, se um relatório pede que se designe o CID de uma criança com Síndrome de Down, esse será Q90. Muitos médicos, principalmente alguns geneticistas, defendem a tese de que se a condição normal do ser humano é ter 23 pares de cromossomos, aqueles que tem a mais ou a menos são vítimas de alguma doença (cabe aqui ressaltar que a Síndrome de Down é uma dentre centenas de alterações cromossômicas, muitas delas incompatíveis com a vida).

Do outro lado dessa tênue linha que compreende em seus extremos a saúde e a doença, encontram-se outros médicos, alguns também geneticistas, pais e profissionais de diversas áreas que defendem que a condição cromossômica não caracteriza uma doença e sim, como já dito, uma condição de vida de cada pessoa, da mesma maneira que uns tem os olhos azuis e outros verdes ou castanhos, muito embora esse seja um exemplo que se situa dentro da "normalidade" genética da espécie humana.

Tenho visto que muitos desta rede se posicionam a favor dessa forma de enxergar a condição humana. Eu, particularmente, também me alinho a essa corrente de entendimento, não apenas em relação à síndrome de Down como a outras cromossomopatias, algumas delas, como já disse, incompatíveis com a vida, o que pode fragilizar bastante, principalmente junto aos meus pares médicos, esse pensamento.

Mas afinal, por que decidi escrever sobre a Síndrome de Down ser ou não doença nesta altura do campeonato?

Tenho trabalhado como pediatra nos últimos 20 anos e, independente da linha terapêutica que adote com uma ou outra criança, tenho sempre o mais extremo cuidado de não prejudicar o pleno desenvolvimento de cada uma delas. Isso não significa, absolutamente, negligenciar a oferta de ações que possam beneficiá-las em cada etapa de suas vidas para que ultrapassem períodos de doenças, ou de dificuldades onde apoios possam ser necessários.

Agora, sempre tive muito cuidado em não aplicar terapêuticas que estejam em fase reconhecimento de eficácia ou segurança (quantas catástrofes a medicina já cometeu por falta desse tipo de cuidado) e também de não gerar angústias ou falsas esperanças aos pacientes que buscam não apenas tratamento, mas muitas vezes apenas orientações.Muito bem, Síndrome de Down não é doença e todos, ou quase todos reconhecem isso.

Agora o que dizer das inúmeras terapêuticas prometidas para tratar os transtornos, principalmente os que determinam (determinam??) deficiência intelectual. Quantas associações terapêuticas tem sido realizadas com o intuito de se "turbinar" a capacidade cognitiva de cada uma das crianças a ela submetidas? Às custas de que outros transtornos notadamente conhecidos de cada um desse medicamentos associados?

Vamos lá, Síndrome de Down não é doença, mas quantas promessas tem sido feitas para se normalizar o defeito genético ou se minimizar suas consequências? Terapêuticas do século XXI, XXII ou XXIII? Nanotecnologia, promessas de se consertar a trissomia dentro de cada célula. Ofertas de terapêuticas gênicas que deverão potencializar os medicamentos utilizados para se minimizar os transtornos intelectuais. Super alimentos que se alocarão nos sítios gênicos para otimizar o aproveitamento de seus nutrientes. A possibilidade de se modificar ou alterar a estrutura do DNA através de alimentos.

Digamos que isso um dia venha a ser possível - me perdoem se ouso dizer-lhes EU NÃO ACREDITO - ainda assim pergunto "as custas do que"? As custas de que outras funções orgânicas? E aqueles que não terão condições financeiras de executarem as ditas super terapêuticas gênicas, serão a nova categoria de excluídos a serem incluídos?Agora, se Síndrome de Down não é doença, o que é que se está tanto tentando tratar?

Perdoem-me mais uma vez se levando uma reflexão absolutamente pessoal, mas não posso deixar de pensar na qualidade de vida de nossas crianças, da destruição de nosso planeta e no desenvolvimento espiritual da humanidade. Reflexões causadas, talvez, por catástrofes que tem acontecido tão próximas umas das outras.

*José Moacir de Lacerda Jr é médico pediatra e homeopata em São Paulo. Não por acaso, médico dos meus filhos.

Descrição da imagem: foto do rosto de uma menina com Síndrome de Down

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

A deficiência é uma vergonha

As notícias geralmente repetem um discurso muito parecido: "apesar da deficiência ele conseguiu fazer isso ou aquilo". "fulana supera suas limitações", "fulano trabalha como se fosse um funcionário normal"... e por aí vamos.

Que esse discurso parta de pessoas que acham normais e se surpreendam com as conquistas de pessoas com deficiência me incomoda, mas é compreensível. Afinal de contas elas não estão acostumadas com o fato de que alguém considerado subnormal tenha capacidade para realizar uma série de coisas.

O que incomoda mesmo é esse discurso na boca das pessoas com deficiência ou dos seus parentes.

Pessoas que se dizem convertidas ao credo da diversidade, que reclamam quando a diversidade não é respeitada, que xingam os leigos quando usam expressões como as que citei acima.

E são as mesmas pessoas que dariam a vida para não ser como são. Diversas.

Para elas a diversidade tem valor, mas poderia ter valor nos outros ou nos filhos dos outros, não nelas ou nas suas casas.

Pessoas que entendem que a única solução aceitável para a deficiência com as quais convivem é a busca incessante da cura (se achassem mesmo que a diversidade tem valor, para que curar?)

Pessoas que só vêem valor quando as pessoas com deficiência desempenham atividades que as iguale à normalidade em que acreditam.

Sim, são pessoas que acreditam que "deficiente bom é deficiente quase normal". Que se envergonham das suas deficiências.

Nunca vão lutar pela construção de um mundo que seja bom para todos. Acreditam que esse mundo já existe, e é o mundo dos normais.

Alguém pode me retrucar dizendo: "mas não é bom ter uma deficiência". E eu questionaria o por quê. A deficiência não faz parte da natureza daquela pessoa?

Se o objetivo é mudar a natureza das pessoas, eu poderia declarar (com o mesmo conceito) que não é bom ser negro, não é bom ser baixo, não é bom ser careca, portanto preciso "curar" essas pessoas para que elas sejam felizes.

Amanhã se comemora o dia internacional da pessoa com deficiência. Exatamente o que vamos comemorar? O reconhecimento da diversidade como valor, ou a conquista de normalidades?

Acompanhem o noticiário e depois me digam.

Descrição da imagem: foto de um homem de braços cruzados, com um saco de papel escondendo o seu rosto.

sábado, 21 de novembro de 2009

Olhares doloridos

Um soco na boca do estômago. Aliás, um não, seis socos em seguida na boca do estômago nos últimos dois dias. Alguns deles bem doloridos, diga-se de passagem.

O mais incrível é que o responsável por esses golpes é pequeno e fino. Um livrinho de pouco mais de 100 páginas, escrito por um ex-professor de faculdade que eu reencontrei nos caminhos inclusivos.

Não é um livro sobre inclusão. Não daqueles livros acadêmicos ou apologéticos sobre o tema. É um livro sobre a ilusão da normalidade, sobre a expectativa da normalidade, sobre os males que a imposição da normalidade provoca.

São seis contos. Nenhum deles com uma temática inédita. Variam do cotidiano de um adolescente, cenas burocráticas de escritório, relacionamentos pessoais. Mas cada uma dessas situações vista por uma óptica em que, apesar do autor chamar de plausível, é muito diferente do que estamos acostumados a ler.

Mais do que isso, é muito diferente da nossa forma de olhar o mundo. Até porque, o que exatamente é ser diferente? Confrontar o status quo? Se isolar em mundos imaginários? Vestir máscaras provisórias ou permanentes? E o que exatamente significa ser normal?

O livro se chama "Olhares plausíveis", o autor Gregório Bacic (diretor do programa Provocações, dentre muitos outros atributos do seu currículo), cuja a leitura eu recomendo só aqueles que estão dispostos a enfrentar seus próprios valores e preconceitos.

Os que preferem continuar em busca da normalização das pessoas e do mundo devem ficar longe dos textos do Gregório.

Descrição da imagem: reprodução da capa do livro, uma série de traços em tons de amarelo e laranja e, entre eles, se vê um pedaço de um rosto com dois canudinhos.

quarta-feira, 15 de julho de 2009

O fim das deficiências?

As notícias médicas recentes estão abrindo um mundo de possibilidades a respeito do futuro das deficiências.

Crianças com paralisia cerebral estão sendo operadas para solucionar problemas de espasticidade. Geneticistas conseguem mapear os genes que influenciam do déficit que pessoas com Síndrome de Down. Outro começam a identificar genes comuns das pessoas com autismo. Próteses inteligentes podem solucionar questões como a surdez e a cegueira.

Eu tenho sérias resistências às chamadas curas milagrosas que nunca foram testadas, gente que aparece na televisão dizendo que o filho ficou mais inteligente tomando suco pancreático de cavalos marinhos, ou promessas vazias.

Também sou radicalmente contra os métodos eugênicos de controle de natalidade baseados em presença ou não de deficiência no feto. Quem gostava disso eram os médicos do III Reich, acreditando que podiam gerar uma raça pura (além de pessoas com deficiência, também pretendiam eliminar negros, judeus, homossexuais...)

Mas vamos supor que o desenvolvimento da ciência permita que os efeitos deficitários sejam resolvidos de forma séria. Teríamos um mundo sem deficiências.

Qual seriam as consequências disso?

A primeira, com certeza, seria uma qualidade de vida melhor para as próprias pessoas com deficiência que lutam cotidianamente contra o preconceito e contras as barreiras que a sociedade interpõe entre elas e o mundo.

Talvez, com isso, perderíamos muito da diversidade humana e a riqueza que ela gera. Certamente a consciência a respeito das diferenças seria quase que varrida da face da Terra e voltaríamos, até nós do movimento em defesa das pessoas com deficiência, a supor que somos seres homogêneos.

Mas poderia acontecer o contrário. Uma vez não tendo mais as deficiências para carregar as culpas do mundo, as pessoas passariam a criar novos fatores de discriminação, afinal o ser humano tem uma necessidade doentia de querer ser melhor do que outros seres, que ele considera menos humanos.

Aí a medicina passaria a buscar a solução para joelhos feios, cabelos arrepiados ou dificuldades com a física quântica.

Afinal o nosso modelo de relação com a diferença é essencialmente um modelo médico. Achamos que todo aquele que não se enquadra nos padrões que a sociedade impõe precisam de cura. Seja do ponto de vista físico, seja psicológico/psiquiátrico, seja moral.

Não sou um ludita a ponto de desprezar os avanços da área médica mas, enquanto a nossa visão estiver obstruída pela crença de que essa é a única saída, não vamos chegar nem perto de uma sociedade que valorize a diversidade.

E sem respeito à diversidade, não existe inclusão.

Descrição de imagem: panfleto racista alemão do período da II Guerra mostrando pessoas de outras raças com o título escrito em alemão que diz: Raças populares servem para serem fregueses.

terça-feira, 12 de agosto de 2008

Shampoo e a educação

Experimente passear no supermercado mais próximo. Chegando lá, caminhe até a gôndola de produtos de higiene e repare na prateleira de shampoos. Agora procure um shampoo para cabelos normais. Aposto que você vai ter uma certa dificuldade em encontrá-lo.

Eu fiz isso. O que eu encontrei ? Shampoo para cabelos cacheados, para cachos leves, para cachos definidos, para cabelos normais que ficam oleosos, para cor vibrante, para cabelos mistos, para cabelos secos, para cabelos secos e danificados, para lisos extremos, para lisos e sedosos, para camadas destacadas, para cabelos crespos quimicamente tratados, para cabelos compridos, para cabelos coloridos, para controle de volume, iluminador de cabelos, anti-resíduos (imaginei que todo shampoo tivesse esse objetivo...). Anticaspa, antiqueda, anti frizz (não faço idéia do que seja isso), antiquebra...

E esses são só os que eu me lembro agora. Não vai demorar muito e vão começar os shampoos em blends (ou seja, mistura de tipos diferentes) e, quem sabe, vou chegar num local e pedir : por favor me forneça um com 40% de lisos, 30% seco, 20% antiquebra e 10% anticaspa). Até o limite em que cada pessoa vai ter o seu shampoo pessoal.

O que é interessante é que a indústria de bens de consumo, que cresceu sobre as bases da homogeneização e dos ganhos de escala, já descobriu que as pessoas são diferentes, como necessidades diferentes, comportamento diferentes e, o que interessa para eles : com padrões de consumo diferentes. A diversidade deixou de ser um discurso bonitinho para se tornar um modelo de negócio. Já que é impossível negá-la, adapta-se à ela.

Enquanto isso na educação....a minha voz continua a mesma...e os meus métodos também !

Escolas que antes tinham características, contextos e projetos pedagógicos únicos, passaram a adotar métodos apostilados que partem do princípio que todos os seres humanos foram fabricados com a mesma fórmula, a fabriqueta de robôs, todos programados para aprender da mesma forma, serem avaliados com as mesmas réguas e descartados quando não se enquadram.
Acham que a igualdade é ponto de partida e, se não for, deve ser ponto de chegada. Ou as crianças são todas iguais ou queremos que elas se tornem todas iguais.

Estranho para uma ciência que se diz pertencer ao ramo das ciências humanas, que costumava ser aquela que mais valorizava as características individuais de cada um.

A escola homogênea ou homogeneizadora sempre vai ser uma fábrica de exclusões (e nem estou entrando no mérito dos grupos tradicionalmente excluídos, mesmo porque esses nem conseguem chegar perto dessas "instituições" de ensino).

Acho que está na hora de começar a mandar engenheiros químicos das fábricas de shampoo dirigir as escolas.

quarta-feira, 30 de julho de 2008

O mito da idade mental

Volta e meia circula nas nossas caixas postais um e-mail contendo um poema atribuído a um aluno da APAE, apresentado como “Príncipe Poeta”. Sem entrar no mérito sobre o poema, esse texto tem uma questão muito séria que não podemos deixar passar em branco que é a nota de rodapé que encerra a mensagem dizendo que é um rapaz de 28 anos com idade mental de 15 (arghhh). Esse negócio de escrever sobre idade mental é um preconceito claro de quem originalmente produziu o texto.

O conceito de idade mental não faz sentido, ele é um rapaz de 28 anos com comportamento de 28 anos

Até o início do século XX não havia formas de se quantificar atributos da inteligência, o que começou a se tornar possível quando Alfred Binet, um psicólogo francês, desenvolveu a primeira escala de desenvolvimento infantil. Milhares de crianças foram observadas sistematicamente, possibilitando a identificação e a descrição das tarefas que podiam ser desempenhadas em cada etapa do desenvolvimento cronológico infantil.

Desta forma, a escala passou a constituir um referencial descritivo do que se podia esperar de uma criança, com desenvolvimento normal, em cada etapa de seu desenvolvimento. Passou, também, a possibilitar que se avaliasse, através da observação sistemática, se uma criança apresentava um desenvolvimento estaticamente normal, em termos cronológicos, ou se seudesempenho era mais adiantado do que o esperado para a idade.

Em continuidade ao seu trabalho, Binet, associando-se a Théodore Simon, construiu o conceito de idade mental, informação derivada da contraposição das tarefas desenvolvimentais que uma criança era capaz de cumprir, com sua idade cronológica.Embora inicialmente utilizado para identificação de crianças com menor desenvolvimento mental, aos poucos passou a servir também para identificar as crianças que apresentavam uma idade mental mais alta que as demaiscrianças da mesma idade.

Avançando no estudo da inteligência infantil, Lewis M. Terman, educador e psicólogo norte-americano, reviu o instrumento criado por Binet e publicou, juntamente com a Universidade de Stanford, em 1916, a Escala de Inteligência Stanford-Binet. Terman desenvolveu o conceitode QI (quociente de inteligência), índice que se propunha sintetizar a quantificação da inteligência, através do estabelecimento de uma relação entre a idade mental da criança e sua idade cronológica (idade mental/idade cronológica x 100).

Como a ciência não pára e se encontra em constante processo de construção e produção de novos conhecimentos, novas idéias e reflexões foram sendo produzidas sobre a questão da inteligência. Cientistas começaram a defender que as capacidades intelectuais podiam e deviam ser medidas separadamente, e que um único “score”, tal como o QI, não ajudava a identificar a capacidade de desempenho da pessoa, em diferentes habilidades e capacidades envolvidas com o comportamento inteligente. por exemplo, levou muitos pesquisadores a considerar a inteligência como mais do que uma habilidade ampla e unitária.

Mais recentemente, outras novas concepções surgiram na literatura sobre inteligência. Sternberg propôs uma teoria triárquica sobre a inteligência humana, que defende que o desempenho intelectual compreende três partes: a inteligência analítica, apresentada por aqueles que mostram um bom desempenho em testes de aptidão e de inteligência; a inteligência sintética,apresentada por pensadores não convencionais, que são criativos, intuitivos e apresentam alto nível de insight; e a inteligência prática, apresentada por aqueles que lidam de forma extraordinariamente eficiente com os problemas da vida cotidiana, bem como com os problemas do ambiente de trabalho.

Em 1991, Ramos-Ford e Gardner propuseram uma nova forma de considerar a inteligência, ou dotação, através de uma teoria que tem sido mencionada como a teoria da inteligência múltipla. Os autores definiram inteligência como uma habilidade, ou um conjunto de habilidades, que permite a um indivíduo resolver problemas ou fenômenos que são característicos de um momento ou de um contexto cultural específicos, ou que são deles conseqüentes.

Como se pode perceber, a concepção de inteligência foi se ampliando no decorrer do tempo, com implicações importantes para a prática educacional, e mais especificamente, para a prática pedagógica do professor, em sala de aula, especialmente no que se refere à identificação das necessidades educacionais especiais do aluno e ao seu ensino.

Além disso, reconhecesse que a mente se constitui muito mais do que de inteligência....ou seja um adolescente de 14 anos, mesmo que não tenha acumulado a mesma quantidade de conhecimento que seus pares, pode sentir, se comportar e agir como... um adolescente !

Acontece que, durante muito tempo, as pessoas com deficiência eram segregadas e, sem contato social, não tinha o aprendizado das relações de ação e comportamente. Eles eram considerados"ingênuos" e, claro, o eram, pois não conviviam com outras crianças e não aprendiam a ser maliciosos (no bom sentido).O ser humano é imprevisível nas suas possibilidades de desenvolvimento. Temos que considerar também as condições orgânicas da pessoa.

Condições orgânicas não se limitam a genética. São todas as características do ponto de vista biológico, onde a genética aponta possibilidades. Mas, como já disse Reuven Feuerstein, "os cromossomos não têm a última palavra". O ser humano se constitui na interação dos aspectos biológicos e sociais. Então, não dá pra falar em potencial, seja genético, orgânico, social, o que seja.

Podemos pensar em condições mais ou menos favoráveis. Quando as condições são desfavoráveis em um aspecto, temos que investir muitíssimo nos outros. A preocupação deve ser sempre com o ponto de partida, com as oportunidades que cada pessoa tem para se desenvolver. O ponto de chegada, poucas vezes é previsível. O ser humano surpreende!" (Maria Sylvia Cardoso Carneiro).

Ainda que a gente não possa excluir questões genéticas no desenvolvimento, tanto o Feuerstein como Miguel Lopez Melero já provaram que a inteligência e o conhecimento são coisas que se constroem, independentemente do fator genético. Não existe determinismo social (que exclui qualquer fator inato dos seres humanos), mas usar a terminologia "potencial genético", remete aodeterminismo biológico, que sempre foi muito mais nocivo para a humanidade.

O grande erro é acreditar que exista qualquer tipo de determinismo e que a vida humana pode ser "determinada" exclusivamente por um único dos seus aspectos. Cada aspecto é relevante (genético, cultural, social, econômico), mas nenhum deles, sozinho, leva a uma solução para todas as questões.

Enquanto acreditarmos que só a genética, ou só o social, ou só o econômico, definem a pessoa, vamos continuar a criar mostruosidades conceituais, como continuar falando em idade mental.

Descrição da imagem - cartoon de um orientador falando com um estudante : "Nós percebemos que você foi melhor no seu teste de QI do que em todas as provas. Mas você não pode se graduar em QI!"

quarta-feira, 18 de junho de 2008

Ser normal é uma normose

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Durante o 1º. Friscap*, em Serra Negra, eu tive a feliz oportunidade de ouvir novamente o Dr José Moacir falando dos conceitos de Normose, usando as tiras e as charges do Quino como referência. Não poderia ter sido uma combinação mais feliz. Foi uma pena que a lei de Murphy onipresente em eventos que usam recursos tecnológicos (ou seja, todos) não permitiu ouvirmos a trilha sonora da apresentação, conhecendo o gosto musical do José Moacir, seria a cereja do bolo.

Num determinado momento, depois de falar sobre o conceito de normose, ele perguntou ao público o que eles consideravam normótico. Notem, ele não estava falando para um público acadêmico, a maioria das pessoas presente eram aquelas que alguns chamam de “gente simples” (como se algum ser humano fosse simples). Surgiram várias respostas e, sem exceção, todas demonstravam ter compreendido perfeitamente o conceito. A melhor, na minha opinião, foi um senhor que disse que normótica era a indiferença das pessoas – perfeito !

Eu fiquei com a minha pulga de estimação atrás da orelha procurando algo que eu considerasse normótico. Concluí que ser normal é uma normose.

Você deve estar se perguntando, mas afinal, que raios é Normose ?

Segundo Pierre Weill temos uma crença bastante enraizada de que tudo o que a maioria das pessoas pensa, sente, acredita ou faz, deve ser considerado como normal e deve servir de modelo para o comportamento de todo mundo. E se é modelo para todo mundo, isso deve servir de base para a educação.
O problema é que a normose é uma doença. Não é apenas um consenso sobre valores equivocados mas um “conjunto de normas, conceitos, valores, estereótipos, hábitos de pensar ou de agir que levam à sofrimentos, doenças ou mortes.” O que define um comportamento normótico é que ele é :

  • Consensual em torno da sua normalidade.

  • Inconsciente quanto ao fato de ser algo doentio

  • Provocador de danos sérios e reais
Já escrevi uma vez sobre a falsa idéia que exista uma normalidade. Mas nunca tinha me atentado ao fato dessa busca pela mesma ser uma normose. Vejam por que :

Consensual em torno da sua normalidade : com raras exceções (eu devo ser uma das 3 ou 4 delas), todo mundo acredita que existam pessoas normais, que determinados comportamentos sejam normais, que o desenvolvimento humano segue padrões de normalidade (aliás, existem centenas de livros que parametrizam essa normalidade).

Muitos repetem ad nauseam que “de perto ninguém é normal”, mas preferem olhar todo mundo de longe. É mais cômodo. Olhar os seres humanos de perto incomoda o nosso lado narciso. De longe, como diria o senhor que mencionei acima, é mais fácil manter a indiferença.

Inconsciente quanto ao fato de ser algo doentio : você pode ter concordado comigo até agora, o que não significa que, sem perceber, tanto você quanto eu, continuamos a ter as nossas réguas de normalidade. Continuamos a nos medir e medir as demais pessoas por essas réguas.

Inconscientemente, todos nós acreditamos na normalidade e a buscamos cotidiana e incessantemente. Pior, censuramos, consciente e inconscientemente, as pessoas que não se enquadram. Olhamos feio para aqueles que se vestem de forma incomum, criticamos quem não gosta ou pratica as mesmas coisas que todo mundo – especialmente aquele vizinho que diz que não tem um computador.

Pais de outras crianças olham com piedade para os meus filhos quando digo que eles não vão ao McDonald´s nem assistem a Xuxa. Uma das tiras da Mafalda que o José Moacir mostrou era da escola toda em volta dela assombrada com o fato dela não ter televisão. Ele esqueceu de mostrar a tira em que o Manolito diz que não gostava dos Beatles (nunca esquecendo que a Mafalda foi publicada na segunda metade dos anos 60)

Provocador de danos sérios e reais : aqui entra o aspecto mais grave dessa história toda. Em busca da normalidade as pessoas tem perpetrado verdadeiras agressões contra seus filhos e seus alunos.

Apesar de estar muito envolvido com as questões da pessoas com deficiência (também massacradas pelos ideais e métodos de busca de normalidade), não são só elas que tem sido, literalmente, perseguidas naquilo que são consideradas desviantes.

Crianças de 6, 7 anos já começam a ser bombardeadas por volumes abusivos de conteúdo nas escolas. Precisam se preparar para esse mundo globalizado, o que é normal. Além disso têm uma agenda de atividades extra-curriculares de dar inveja a qualquer executivo de multinacional, claro, para ser normal precisa falar mais de uma língua, estudar alguma forma de arte, praticar esportes de forma organizada e competitiva (brincar em casa ou no páteo da escola não é considerado como atividade física saudável...). Isso é apenas o básico, o mais sofisticado inclui ainda aulas de informática, robótica, kumon...

E no final, são chamadas de crianças hiperativas ou com déficit de atenção. Ah, atualmente ser hiperativo é normal. Uma dose diária de ritalina resolve o problema, acompanhado, é claro, de mais atividades, as terapias.

Não importa que isso gere stress, mau comportamento, atitudes agressivas. Isso também é normal. Ainda que cause sofrimentos, doenças e, no limite, até mortes (ou acham que jovens dependentes de drogas, adolescentes que se matam no trânsito ou estudantes que entram em escolas armados são só anormais ?)

Qual a conclusão disso tudo ?

Eu não tenho nenhuma conclusão. Uma coleção de preocupações a respeito, mas não consigo visualizar algum caminho que possa mudar esse processo.

O mais grave é que eu estou começando a achar que esse meu ceticismo é normal.


*Fórum Regional de Inclusão Social do Circuito das Águas Paulista

Descrição da imagem : tira do Quino que mostra todas as crianças da escola da Mafalda olhando com espanto para o Manolito ao saber que ele não gosta dos Beatles.